18 de abril de 2015

A venda de armas dos Estados Unidos intensifica as guerras dos Estados árabes

Mark Mazzetti e Helene Cooper

The New York Times

Louisa Gouliamaki / Agence France-Presse / Getty Images

Tradução / Para a guerra no Iêmen, a Arábia Saudita está utilizando aviões de combate F-15 comprados da Boeing. Os pilotos dos Emirados Árabes Unidos estão voando com Lockeed Martin's F-16 para bombardear tanto o Iêmen como a Síria. Espera-se que em breve os Emirados finalizem um acordo com a General Atomics para uma frota de aviões não tripulados Predator, para executar missões de espionagem em seus arredores.

Enquanto o Oriente Médio envolve-se em guerras de poder, conflitos sectários e batalhas contras as redes terroristas, os países da região que têm equipamento militar estadunidense armazenado, agora o estão utilizando e, na realidade, querendo mais. O resultado é um "boom" para os empresários da defesa estadunidense em busca de negócios no exterior em uma época de redução dos orçamentos do Pentágono. E, também, a perspectiva de uma nova corrida armamentista perigosa em uma região onde o mapa de alianças tem sido drasticamente redesenhado.

Na semana passada, funcionários da indústria de defesa disseram ao Congresso que estavam esperando, em questão de dias, a petição dos aliados árabes que lutam contra o Estado Islâmico – Arábia Saudita, os Emirados, Qatar, Bahrein, Jordânia e Egito – para comprar milhares de mísseis de fabricação estadunidense, bombas e outras armas, para reposição de um arsenal que se reduziu no transcurso do ano passado.

Há tempos os Estados Unidos têm restrições de venda sobre os tipos de armas que as empresas de defesa estadunidenses podem vender aos países árabes, com a intenção de garantir que Israel mantenha uma vantagem militar contra seus adversários tradicionais da região. Porém, devido ao fato de Israel e os estados árabes estarem agora em uma aliança contra o Irã, o governo de Obama está muito mais disposto a permitir a venda de armas avançadas no Golfo Pérsico, com poucas objeções públicas de Israel.

"Se pensarmos, o cálculo estratégico de Israel é muito simples", disse Anthony H. Cordesman, do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais. Os países do Golfo "não representam uma ameaça significativa" para Israel, disse. "Eles representam um contrapeso significativo para o Irã".

Os analistas do setor e especialistas no Oriente Médio dizem que as turbulências da região e a determinação das nações sunitas ricas para lutar contra a supremacia regional do Irã xiita, dará lugar a um aumento dos pedidos para a defesa mais inovadora, por mais equipamentos de alta tecnologia.

Os exércitos das nações do Golfo são "uma combinação de algo entre símbolos de dissuasão e clubes de voo nacionais", disse Richard L. Aboulafia, um analista de defesa da Teal Group, "e agora estão sendo utilizados".

A Arábia Saudita gastou mais de $ 80 bilhões de dólares em armamento no ano passado – mais do que nunca e mais que a França ou a Grã-Bretanha. Seu mercado de defesa se converteu no quarto maior do mundo, segundo os números publicados na semana passada pelo Instituto Internacional de Estocolmo para a Investigação da Paz, que rastreia o gasto militar mundial. Os Emirados gastaram quase 23 bilhões de dólares no ano passado, três vezes mais do que gastaram em 2006.

O Qatar, outro país do golfo com cofres cheios e desejo de fazer valer sua influência em todo o Oriente Médio, está fazendo grandes compras. No ano passado, o Qatar assinou um acordo de $ 11 bilhões com o Pentágono para a compra de helicópteros de ataque Apache e sistemas de defesa aérea Patriot e Javelin. Agora, a pequena nação está em processo de fazer uma compra grande do Boeing de combate F-15 para substituir sua velha frota de aviões franceses Mirage. Espera-se que funcionários do Qatar apresentem ao governo de Obama uma "lista de desejos" de armas avançadas antes de viajar a Washington no próximo mês para reunir-se com outras nações do golfo.

Firmas de defesa estadunidenses estão buscando ganhar todo esse dinheiro. A Boeing abriu um escritório em Doha, Qatar, em 2011, e a Lockheed Martin estabeleceu um escritório ali este ano. A Lockheed criou uma divisão em 2013 dedicada exclusivamente às vendas militares estrangeiras, e a presidente executiva da companhia, Marillyn Hewson, disse que a Lockheed precisa aumentar os negócios estrangeiros – um aumento da venda de armas a nível mundial "de entre 25 a 30% de suas rendas" – em parte, para compensar a contração do Pentágono depois do auge do pós-11 de setembro.

As agências de inteligência estadunidenses acreditam que as guerras de poder no Oriente Médio podem durar anos, o que fará com que os países da região tenham ainda mais vontade de comprar aviões de combate F-35, considerado como a joia do futuro do arsenal de armas dos Estados Unidos. O avião, o projeto de armas mais caro do mundo, tem capacidades desconhecidas e é comercializado em grande medida com os aliados europeus e asiáticos. Todavia, não é comercializado com os aliados árabes devido à preocupação pela conservação da vantagem militar de Israel.

Porém, o equilíbrio de poder no Oriente Médio está em processo de mudança. Vários analistas de defesa apontam para estas transformações. A Rússia é um importante provedor de armas para o Irã, e uma decisão do presidente Vladimir Putin de vender um sistema avançado de defesa para o Irã poderia aumentar a demanda dos F-35, que provavelmente tem a capacidade de penetrar as defesas de fabricação russa.

"Isto poderia precipitar os eventos: uma guerra civil emergente entre sunitas e xiitas conjugada com a venda de sistemas de defesa aérea russa ao Irã", disse Aboulafia. "Se existe algo que vai promover a autorização de venda de F-35 para os Estados do Golfo, é a combinação destes acontecimentos".

Ao mesmo tempo, dar aos Estados do Golfo a capacidade de atacar o Irã no momento de sua eleição poderia ser a última coisa que os Estados Unidos querem. Já existem perguntas sobre como os judiciosos aliados de Washington estão utilizando o armamento estadunidense.

"Um bom número de armas americanas que são utilizadas no Iêmen pelos sauditas foram utilizadas contra a população civil", disse Daryl Kimball, diretor executivo da Associação de Controle de Armas. Uma afirmação que a Arábia Saudita nega.

Kimball disse que vê o aumento das vendas de armas à região "com muito temor, já que está dando lugar a escalada no tipo, número e sofisticação do armamento nestes países".

O Congresso aprovou uma lei em 2008 para que a venda de armas permita a Israel manter uma "vantagem militar qualitativa" na região. Todas as vendas ao Oriente Médio são avaliadas em função de como vão afetar à superioridade militar israelense. Porém, o governo de Obama também viu a melhora das forças militares de seletas nações árabes (as que enxergam o Irã como uma ameaça na região) como crítica para a segurança de Israel.

"Também é importante notar que os nossos relacionamentos estreitos com os países da região são fundamentais para a estabilidade regional e a segurança de Israel", disse Andrew J. Shapiro em um discurso em 2011, quando ele era um secretário de Estado adjunto para assuntos político-militares. "Nossas relações com o Egito, Jordânia, Líbano e muitos países do Golfo permitem aos Estados Unidos advogar fortemente pela paz e pela estabilidade na região".

Existe um caráter sectário, sem dúvida, nos atuais conflitos no Oriente Médio, na campanha aérea da Arábia Saudita no Iêmen. Os sauditas reuniram um grupo de nações para atacar combatentes da milícia houthi que se apoderaram da capital do Iêmen, Saná, e derrotaram um governo apoiado pela Arábia Saudita e os Estados Unidos. As autoridades sauditas disseram que os houthis, um grupo xiita, estão sendo secretamente apoiados pelo Irã. Outras nações que se uniram à coalizão contra os houthis, como Marrocos, descreveram sua participação em termos sectários contundentes.

"É uma questão de proteção aos sunitas", disse Mbarka Bouaida, vice-ministro de Relações Exteriores do Marrocos, em uma entrevista.

Mas as nações sunitas também mostraram uma nova determinação de usar a força militar contra grupos sunitas radicais como o Estado islâmico. Vários países árabes estão utilizando uma base aérea na Jordânia para lançar ataques contra os combatentes do Estado Islâmico na Síria. Separadamente, os Emirados e o Egito levaram realizaram ataques aéreos na Líbia contra as milícias sunitas ali.

No entanto, o acordo para vender aviões não tripulados Predator aos Emirados está a ponto de sua aprovação final. Os drones estarão desarmados, porém estarão equipados com lasers para que possam identificar melhor os alvos no solo.

Caso a venda se concretize, será a primeira vez que os drones se destinarão a um aliado dos Estados Unidos fora da OTAN.

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