13 de abril de 2015

Bem-vindo ao ponto de inflexão

Quincy Saul

Truth-Out

Oh, esse querido e velho planeta! Tudo está claro agora. Nós nos conhecemos: sabemos do que somos capazes. 
Albert Camus

Tradução / Em que lado do ponto de inflexão estamos? Entre o anseio de uma era dourada que nunca houve e a construção de uma era revolucionária, que ainda pode vir a ser? É o pior e o melhor dos tempos; o fim e o começo do mundo. Os pontos de inflexão entre criação e extinção, entre apocalipse e revelação estão onde quer que olhemos. Como no lendário reino de Deus, os pontos de inflexão estão dentro de você e à sua volta.

É fácil perder-se na era da informação, e um vago presságio de desgraça que confusamente paira sobre nós não é o melhor caminho para alcançar a paz e a justiça na turbulenta era que nos espera. Refletindo sobre o declínio e o desmoronamento do império, Edward Gibbon disse que "os ventos e as ondas sempre jogam a favor dos mais hábeis navegadores." Assim sendo, devemos aprender a navegar. Um mapeamento dos pontos de inflexão que definem nossos precários calendários e geografias pode nos ajudar a entender nosso mundo, a nos entendermos e a guiar-nos a portos mais seguros.

Como disse Camus, tudo fica claro agora – sabemos que somos capazes dos atos mais belos e mais horrendos. Precisamos apenas olhar o mundo e depois o espelho, e decidir se vamos cumprir ou trair a missão que a história nos propôs; nós, que vivemos em pontos de inflexão; nós que somos o ponto de inflexão.

Tudo à sua volta: cada elemento tem sua própria dinâmica, mas todos os elementos convergem. Eles têm causas e efeitos distintos, mas todos se alimentam mutuamente e compartilham o fato de estarem acontecendo agora e o fato de que amanhã pode ser tarde demais.

A acidificação dos oceanos: Se já é difícil imaginar o teor do carbono da atmosfera em partes por milhão (PPM), e como isso vai afetar a vida na terra, tente então imaginar quanto ácido é jogado no oceano – cerca de 22 milhões de toneladas por dia. Com ou sem aquecimento global, a acidificação acelerada dos oceanos é uma das coisas mais mortais que ora acontecem no planeta, com suas mais extremas consequências. Os pontos de inflexão acontecem em diferentes eras para diferentes espécies – mas chega o ponto em que os organismos já não podem mais sobreviver. O primeiro grande ponto de inflexão é o nível de acidez a partir do qual os recifes de coral já não podem se formar; estudos indicam que estamos hoje na iminência de ultrapassar esse ponto. À morte dos recifes de coral seguir-se-á imediatamente o colapso de toda a cadeia alimentar oceânica. O segundo e ainda mais apocalíptico ponto de inflexão acontecerá quando até mesmo o plâncton – também ameaçado pelo aquecimento das águas – não puder mais sobreviver. Há quem afirme que se o sistema econômico continuar como é, a extinção do plâncton poderá acontecer no final do presente século. Após o que, os pulmões do planeta entrarão em colapso, e as últimas palavras de Eric Garner (“Não posso respirar”) falarão pelo conjunto da raça humana.

O derretimento do gelo: Todos sabemos que o gelo está derretendo de um extremo a outro do planeta. Neste processo, dois pontos de inflexão convergem. Um concerne ao coeficiente de reflexão, o EFEITO ALBEDO - a maneira como a energia solar é refletida ou absorvida ao contacto com a superfície da terra. Quando a energia solar atinge o gelo, ela volta ao espaço, mas quando a energia solar atinge águas escuras, ela é absorvida. Assim, quanto mais gelo derrete, mais calor é absorvido, e quanto mais calor é absorvido, mais gelo derrete – um efeito de retroalimentação que se acelera até atingir um ponto de inflexão. Este aquecimento também precipita o colapso de gigantescas camadas de gelo, uma ameaça de rápida elevação dos níveis dos oceanos numa escala global. Mas outro efeito desse derretimento é outro ponto de inflexão - a adição de mais águas frias provenientes do gelo recentemente derretido culminará no rompimento das correntes oceânicas. Correntes oceânicas como o Gulf Stream moldaram a civilização tal qual a conhecemos, e seu desaparecimento a reconfigurará.

Pergelissolo: Há uma bomba-relógio na Sibéria, cuja carga explosiva pode varrer a humanidade. Nada a ver com a guerra fria, mas com a guerra climática, e só recentemente começamos a entender o tique-taque do relógio do apocalipse. Há vários anos, começamos a notar colunas de metano provenientes do solo e, em seguida, do fundo do oceano; pouco depois, por todo hemisfério norte, cidades inteiras começaram a afundar em seus solos que se tornaram pantanosos.

O metano que havia permanecido congelado durante milhares de anos no pergelissolo está sendo vaporizado nos céus- um gás de efeito estufa trinta vezes mais poderoso que o dióxido de carbono. Estima-se que só o pergelissolo siberiano contém mais de 70 bilhões de toneladas de metano (o equivalente a 1.7 trilhões de toneladas de dióxido de carbono). Também nesse caso, quanto mais quente fica, mais metano é liberado na atmosfera e mais quente fica. O aparecimento de crateras gigantes na península de Yamal indica que estamos nos aproximando do ponto de inflexão que poderia literalmente desencadear o inferno na terra.

Desertificação: A Califórnia dispõe de reservas de água para apenas um ano. A China  perde para o deserto, a cada ano, 1000 milhas quadradas. E até a poderosa floresta Amazônica acerca-se ao ponto de inflexão que a levaria a se tornar uma árida savana. A soma de tudo isso constitui que National Geographic chama “holocausto florestal”, lembrando ainda que mais de 80% das florestas do mundo já foram destruídas. As razões para a desertificação são várias e diversas, desde o desmatamento causado pelo agronegócio às mudanças climáticas. A grande questão é que cada floresta tem seu ponto crítico a partir do qual seu ecossistema deixa de ser autossustentável. Há outro ponto crítico implícito ao colapso do ecossistema florestal – a reversão dos sumidouros de carbono – ponto a partir do qual as florestas deixam de absorver dióxido de carbono e passam a emiti-lo. Os pulmões do planeta começam a lançar fumaça.

Temperatura global: o presente ano é crucial para o mais importante dos pontos críticos. Ele foi anunciado 2007, no Quarto Relatório de Avaliação do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas. Com novas informações e novos modelos, o Painel Intergovernamental das Mudanças Climáticas reiterou desde então várias vezes a mesma advertência em termos cada vez mais lúgubres: se a temperatura média global ultrapassar 2 graus Celsius em relação à era pré-industrial, as portas estarão abertas para retroalimentações positivas perniciosas no sistema terra que vão além de qualquer possibilidade humana de mitigação. Exemplos disso são o derretimento de todo o pergelissolo siberiano e a reversão dos sumidouros de carbono nos oceanos e nas florestas. Para manter-nos dois graus abaixo desse limiar, o Painel Intergovernamental sobre as Mudanças Climáticas deu-nos um prazo, que acaba de se esgotar: um pico de emissões de Carbono em 2015, seguido por um rápido e permanente declínio. Chegamos a esse momento!

Sendo assim, por que ainda não atingimos nosso ponto de inflexão? Chegou a hora de atingirmos um ponto de inflexão no movimento pela justiça climática. Movimentos pela justiça social e ambiental estão surgindo em todo o mundo, mas eles não acrescentam mais que a soma de suas partes. Não há boas perspectivas para os recifes de coral, para os ursos polares ou para as florestas nem quanto ao pico de emissões de carbono em 2015. Não precisamos de mais informação, mais financiamento ou maior número de membros. Precisamos sim é de avanços concretos. E é por isso que devemos olhar os PONTOS CRÍTICOS dentro de nós. Eles têm as chaves das portas de nosso futuro, que cedo ou tarde deveremos enfrentar.

Dentro de você mesmo: Como escreveu Manasobu Fukuoka, "os processos de revitalização do deserto e do coração humano são na verdade os mesmos." Sabemos do quanto somos capazes. Mas em que lado do ponto de inflexão estamos?

Entre negação e temeridade: Entre a negação diária da morte e o abraçar da vida quotidiana. Entre o medo de compartilhar em meio à dor e ao sofrimento, que saturam cada momento da modernidade, e a alegria de compartilhar em meio aos riscos e às recompensas da revolução, presente em cada momento de crise. Entre o temor à morte e o temor à falta de vida. Em meio à ignorância há também a felicidade e a coragem do primeiro beijo.

Entre nostalgia e não retorno: Entre o anseio por uma era dourada que nunca houve e a construção de uma era revolucionária, que ainda pode vir a ser. Entre onirismos sobre o passado e lutas contra os pesadelos do presente. Entre a calma democracia que nunca foi real e o estrondoso poder popular, que transforma a realidade. Entre o medo do futuro, disfarçado de amor pelo passado, e o amor pelo futuro que deixa todos os temores para trás.

Entre protesto e prefiguração: Entre falar a verdade ao poder e encarnar a verdade com poder. Entre discursos e ações não violentas, entre expectativas em relação aos poderosos e a construção da disciplina dos sem poderes. Entre mendigar por uma partilha de excedentes e a construção da subsistência – entre o controle de capital e a independência em relação ao capital. Entre melhores empregos e uma vida sustentável. Entre assinar petições e plantar o alimento, entre gritar palavras de ordem e curar o solo. Entre conferências e convergências, entre lamentar problemas e criar soluções. Entre amaldiçoar os inimigos e por as mãos na massa com os amigos, entre odiar o Império e amar-se a si mesmo como parte da alternativa, entre indignação e imaginação.

Entre Resistência e Revolução: Entre defesa e ataque, entre a guerra de posição e a guerra de manobras, entre manter a linha e fechar o círculo. Entre desafiar privilégios e desafiar a propriedade privada, entre cavar trincheiras e postos de comando, entre defender instituições da classe média e criar associações da classe trabalhadora. Entre feminismo e matriarcado, entre ambientalismo e ecossocialismo, entre antirracismo e liberação nacional. Entre sociedade civil e luta de classes, entre comércio justo de commodities e livre associação de criadores, entre resistir a cativeiros e construir o bem comum.

O ano de nosso ponto de inflexão coincide com o oito centésimo aniversário da assinatura da Carta Magna. Aprender do passado para transformar o futuro; o século XXI está maduro para uma Nova Carta Magna, para dar expressão e coerência ao senso comum anticapitalista que está surgindo em todo o mundo. Uma nova Carta para uma nova era – a ser feita não apenas entre reis e nobres, estados ou corporações, mas um acordo com cada um, um pacto entre a natureza e a nossa natureza.

Um pacto entre o deserto e uma escritura de reflorestamento – uma promessa aos oceanos e glaciares, e uma oração ao pergelissolo- uma declaração de interdependência e uma promessa de fidelidade para todas as nossas relações: amanhã pode ser tarde demais. Use suas próprias palavras. Lance-as pela janela. O mundo está ouvindo. Você conseguiu. Bem-vindo ao ponto de inflexão.

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