1 de abril de 2015

Por que Putin não precisa ceder ao Ocidente

Colin Chilcoat


Tradução / Tudo calmo no front ocidental – tão calmo quanto pode ser um conflito entre superpotências mundiais. Desde o acordo de cessar-fogo de fevereiro, há calma relativa na Ucrânia e os eventos em outros pontos – Irã e Iêmen – atraíram o foco global. Mas a relação frígida entre EUA e Rússia não é menos assustadora, e o antagonismo, não a cooperação, permanece como modus operandi. Parece que os impasses persistirão, no longo prazo, mas todos os lados tem os meios para suportar esse resultado? E se algum não têm, quem rachará primeiro?

A avaliação dominante diz que a Rússia não suportará. À primeira e superficial vista, parece ser avaliação justa. O Banco da Rússia prevê que a economia encolherá entre 3,5 e 4% em 2015, e mais 1% em 2016; o rublo, embora estável, continua cerca de 40% abaixo de onde estava em junho do ano passado. No geral, o ex-Ministro das Finanças, Alexei Kudrin, acredita que os eventos na Crimeia custarão à economia russa cerca de 200 bilhões ao longo dos próximos três ou quatro anos. Mas, embora a situação política e econômica esteja coberta de zonas cinzentas, ninguém tem mais talento para converter cinza em verde, que o Presidente Vladimir Putin.

Iniciando seu 16º ano ao timão – estou contando 2008-2012 – Putin enfrenta situação não muito diversa do seu primeiro ano no governo: economia em frangalhos, queda nos padrões de vida, fuga forte de capitais e baixo investimento externo direto. A demografia da Rússia parece bem e o mercado de ações está no pico do corrente ano, mas no curto prazo, os macro indicadores do país não estimulam grandes esperanças.

Agora, como em 2000, Putin surfará sobre o petróleo até alcançar águas mais calmas. Quanto a isso, o Banco Mundial prevê crescimento favorável dos preços até o fim do primeiro quarto do século. À altura de 2018, o Ministro do Desenvolvimento Econômico da Rússia, Alexei Ulyukaev, espera que a economia supere globalmente as economias de alta renda. A longevidade de tal estratégia é questionável; é arriscada – e provavelmente é a única via de ação realista – mas Putin não tem de esperar pelo fim do tratamento doloroso; quem tem de esperar são seus concorrentes.

Na Europa, as rachaduras estão começando a aparecer.

Em 16 de março de 2015, os EUA efetivamente tiraram da mesa a possibilidade de aliviar as sanções – o Departamento de Estado continuará a apoiar e a aplicar sanções enquanto a Rússia continuar “a ocupação da Crimeia”. A Alemanha, afinada com os EUA, permanece comprometida com a causa, e a chanceler alemã Angela Merkel reiterou a ideologia partilhada dos dois países, em declarações ao Conselho Europeu dia 19 de março. No mesmo dia, líderes da União Europeia coletivamente decidiram apoiar as sanções até que o acordo de Minsk mostre resultados. Mas individualmente as agendas diferem profundamente.

Funcionários da União Europeia acreditam que cerca de metade das nações-membros estariam prontas para aliviar as sanções. Dentre os que mais têm falado do próprio descontentamento com as sanções estão Áustria, Chipre, Hungria, Itália, Grécia, Eslováquia e Espanha.

A Grécia, em especial, aproxima-se da Rússia, passo a passo. O país está à beira da bancarrota e tem ainda de acertar com a União Europeia as condições do “resgate”. O Primeiro-Ministro recém eleito, Alexis Tsipras, tem reunião marcada com Putin em Moscou, no dia 8 de abril de 2015 – reunião que, para muitos, servirá para fixar um plano alternativo ao financiamento pela UE. A viagem de Tsipras acontece imediatamente depois do retorno de Ministro de Energia, Panagiotis Lafazanis, no dia 31 de março de 2015, que visitou a Rússia com o objetivo de assegurar que os russos participarão na concorrência para exploração de petróleo e gás em alto profundo, no Mar Iônico.

Na Hungria, Putin e o Presidente Viktor Orban concluíram o acordo para um empréstimo equivalente a US$ 10,8 bilhões, com o qual a Rússia estará financiando a expansão da usina nuclear húngara de Paks. Seja essa ajuda real ou não, a mensagem de Putin à União Europeia é bem clara: não conseguirão deter a Rússia.

O número crescente de novos e bons acordos deixa bem claro os reais limites das sanções – não há muito mais o que sancionar – e demonstram que ninguém quer ser o último a chegar à mesa, quando que as sanções forem oficialmente retiradas.

A Rússia tem uma tremenda oportunidade para crescer e não lhe faltam amigos – a leste e a oeste. Por enquanto, Putin não precisa ceder aos Estados Unidos ou à União Europeia.

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