3 de abril de 2015

Valores britânicos: Reais e imaginários

Como David Cameron faz o jogo do Estado Islâmico

Dan Glazebrook

Counterpunch: Tells the Facts and Names the Names

Tradução / David Cameron pisou na bola outra vez. Após os brutais ataques a visitantes do museu Bardo na Tunísia no mês passado, Cameron aproveitou para repetir uma das mais comuns e perniciosas falsidades de seu mandato como primeiro ministro, segundo a qual ele seria um firme defensor de uma série de perfeições morais que ele chama de “valores britânicos”. "Ao final", disse ele, "nossos valores – liberdade de expressão, democracia, o primado da lei... haverão de se impor". Convenientemente, ele só se esqueceu de dizer, é claro, que os atentados de Túnis foram o resultado direto de sua própria decisão resoluta, tomada em 2011, de transformar a Líbia numa confusão de ultra-sectários esquadrões da morte racistas, nos quais foram treinados os perpetradores dos atentados de Bardo. Mas esse tema – o da obstinada fidelidade de Cameron aos valores britânicos frente aos ataques islamistas – foi exaustivamente trazido à tona a cada vez que um europeu somou-se às dezenas de milhares de vítimas líbias, nigerianas, malianas, sírias, argelinas e iraquianas de sua política de recrutamento de militantes sectários como ferramenta de mudança de regime. Por exemplo, quando Lee Rigby foi morto em Londres por um homem (Michael Adebolajo), a quem o serviço de inteligência britânica, o MI5, havia oferecido emprego algumas semanas antes, Cameron disse que "os terroristas nunca vencerão porque eles não poderão com os valores que nos são caros, com nossa crença na liberdade, na democracia, na liberdade de expressão, em nossos valores britânicos, em nossos valores ocidentais." E quando Mohammed Emwazi conquistou o status de celebridade instantânea, graças à mídia britânica, que repercutiu seus atos de decapitação de jornalistas e trabalhadores humanitários postados em YouTube, Cameron disse que os atos de Emwazi eram “o extremo oposto de tudo o que este país representa”, isso apesar do fato de que seus próprios serviços de inteligência terem recrutado Emwazi para seus trabalhar para eles, da mesma forma como facilitaram a ida do provável treinador do mesmo Emwazi para a Síria.

O papel crucial de Cameron na criação e no apoio aos esquadrões da morte que ele diz combater é, no entanto, bem conhecido por aqueles que acompanham os acontecimentos no Oriente Médio; eu mesmo e outros tantos temos extensivamente escrito sobre o tema aqui e alhures. O que quero criticar no presente texto é a afirmação de Cameron segundo a qual a democracia, o primado da lei, a liberdade de expressão e a tolerância são de fato “valores britânicos” seja lá em que sentido for. Na verdade, esses valores não têm origem britânica e nunca foram sinceramente praticados pelos governos britânicos.

Tomemos o exemplo da democracia. Nem mesmo os textos didáticos tradicionais afirmam que esta nasceu na Grã-Bretanha; supõe-se geralmente que Atenas foi o berço da democracia (ainda que existam cada vez mais evidências de que os atenienses se basearam em sistemas existentes na África). É claro que Cameron tem uma resposta para isso. Em seu artigo publicado em Daily Mail depois da confusão do mítico “complô do Cavalo de Tróia”, ele escreveu que "muitos dirão que estes valores sãos vitais para outros povos de outros países... Mas a especificidade britânica está em suas tradições e em sua história, que dão esteio a estes valores e lhes permite continuar, florescer e se desenvolver. Nossa liberdade não surgiu do nada. Ela se enraíza em nossa democracia parlamentar." O que ele não menciona é que essa versão particular da democracia está baseada numa profunda desconfiança em relação ao povo e foi consciente e abertamente arquitetada para mantê-lo o mais distante possível dos processos decisórios. É importante observar igualmente que o governo britânico sempre concedeu o poder de voto a apenas uma fração de privilegiados. E isso continua a ser assim. Os proprietários de negócios não aristocratas só tiveram o direito de voto em 1832, depois de se tornaram imensamente ricos; esse direito só foi estendido aos trabalhadores 35 anos mais tarde, mas apenas àqueles que recebiam os mais altos salários e gozavam de altos padrões de vida. Quando o privilégio do sufrágio universal masculino foi conquistado na Grã-Bretanha em 1918, ele foi evidentemente negado às dezenas de milhares de súditos coloniais (inclusive aos muitos católicos da Irlanda do Norte), cujo trabalho e cujas riquezas criavam então condições relativamente privilegiadas para os súditos metropolitanos. Mesmo hoje, os poderes britânicos vão muito além de suas fronteiras territoriais, e os iraquianos, afegãos, líbios, somalianos e outros que estão sujeitos aos seus maiores abusos não têm voz na formação do governo. Se democracia significa que os subordinados ao poder têm alguma influência sobre aqueles que o detêm, a Grã-Bretanha lamentavelmente não cumpre tal requisito.

E quanto ao primado da lei? Uma vez mais, apesar dos 800 anos de existência da Carta Magna constantemente alardeada por Cameron, quando se trata de questões internacionais, ele tem tratado este aparentemente sacrossanto princípio britânico com o mais absoluto desprezo. Desde seu apoio à destruição do Iraque por Tony Blair em 2003, passando por seu próprio ataque fulminante à Líbia em 2011, Cameron tem sido um arrogante defensor da guerra de agressão - definida pelo Tribunal de Nuremberg, para que não esqueçamos, como "não apenas um crime internacional; [mas] o crime internacional supremo, diferente de outros crimes de guerra apenas por conter em si toda a vileza que se possa acumular." E até mesmo no âmbito doméstico, Cameron tem mais que alegremente violado o primado da lei quando lhe convém. Assim, ao menor sinal de agitação civil em 2011, o governo Cameron instruiu magistrados a que ignorassem suas próprias orientações legais e pusessem na cadeia qualquer pessoa “envolvida” na insurreição juvenil, por mais anódina que fosse sua infração, fazendo assim pouco caso da independência judicial. Pior ainda, cada semana que passa é prolífica em evidências da aparente colusão entre serviços de inteligência, polícia e ministros do governo para facilitar e cobrir a mais horrenda escalada de abusos sexuais de crianças – e tudo indica que o governo Cameron tem feito todo o possível para atrasar as investigações e limitar suas consequências. O primado da lei pode ser muito valorizado na Grã-Bretanha, mas certamente ele não se aplica aos escalões sociais mais elevados que Cameron representa.

Em matéria de tolerância e liberdade de expressão, a Grã-Bretanha parece sair-se um pouco melhor. Mas isso apenas se ignorarmos a história, a política estrangeira e a própria legislação antiterrorismo de Cameron. Historicamente, é muito difícil dizer que a Grã-Bretanha tem sido um modelo de tolerância. Não precisamos voltar aos tempos em que o Rei Eduardo expulsou os judeus (muitos dos quais buscaram refúgio nos impérios islâmicos, historicamente muito mais tolerantes) ou àqueles das leis anticatólicas (em vigor até 1829 e abolidas apenas sob a ameaça de uma guerra civil na Irlanda) para nos depararmos com a discriminação institucionalizada: batidas policiais raciais vêm aumentando desde 1999, quando o comitê de investigação MacPherson concluiu que a polícia britânica é “institucionalmente racista”. Isso não chega a surpreender, visto que o próprio Império Britânico foi construído com base na intolerância e na discriminação, privando os povos nativos de direitos políticos e amiúde reduzindo-os a uma condição legal ligeiramente diferente daquela atribuída a animais ou propriedades. Quanto a isso, as leis de 2012 impostas pelo governo líbio sob tutela da OTAN, que ameaçam com a prisão perpétua os defensores do governo anterior e garantem impunidade a quem os matar, estão em plena harmonia com as práticas britânicas historicamente aplicadas no estrangeiro, e não têm nada a ver com nenhum mítico engajamento com “tolerância” ou liberdade de expressão. No plano interno, a definição de “extremismo” dada por Cameron inclui as variedades “não violentas” e se combina com novas propostas draconianas para garantir que todas as instituições educacionais estejam livres de qualquer sombra de tais extremismos. Tais medidas são a própria antítese da liberdade de expressão, como já foi observado por analistas de todos os matizes políticos.

Mas talvez o que há de mais insidioso seja a declaração de Cameron segundo a qual “o modelo ocidental combinando uma vibrante democracia com a liberdade de empresa tem permitido grande progresso e prosperidade”. Na verdade, o “modelo ocidental” não tem sido baseado em nenhuma “vibrante democracia”, mas precisamente no seu oposto, com a expoliação da vasta maioria das pessoas submetidas ao seu jugo. Assim aconteceu com os autóctones da América do Norte, com os africanos escravizados num passado recente, com os incontáveis milhões de pessoas subjugadas pelas medidas de ajuste estrutural do FMI ou submetidas aos bombardeios da OTAN. Isso não foi tampouco baseado a liberdade de empresa. Estudiosos como Ha-Joon Chang mostraram em detalhes que, na verdade, todas as nações ocidentais se serviram de um amplo protecionismo para alcançar suas prosperidades. Mesmo hoje, as mais ponderosas indústrias do Ocidente – do agronegócio estadunidense ao poder financeiro britânico, passando pelas companhias farmacêuticas – são completamente dependentes de subsídios governamentais, o que fica claramente demonstrado pelos US$ 15 trilhões globalmente atribuídos aos banqueiros após o crash financeiro de 2007-2008. Protecionismo e colonialismo, e depois neocolonialismo, são as verdadeiras e contínuas bases da prosperidade ocidental. Atribuir essa prosperidade a uma série de “valores” os quais nunca foram levados a sério pelas elites governantes da Grã-Bretanha constitui não apenas uma falsificação da história, mas uma calúnia contra aqueles cuja expoliação e empobrecimento têm sido o reverso dessa prosperidade. Precisamos ser honestos sobre o papel das colônias britânicas nas Américas, na Ásia e na África na criação da prosperidade britânica, bem como sobre o papel dessa mesma prosperidade britânica no surgimento e na perpetuação da pobreza nos territórios colonizados. Só assim poderemos ter esperanças de genuinamente construir uma sociedade inclusiva baseada no respeito mútuo e na compreensão para todos aqueles que só estão aqui, na Grã-Bretanha, porque nós estivemos lá, colonizando seus territórios.

As elites que governam a Grã-Bretanha têm consistentemente minado os valores que elas afirmam abraçar – e ninguém fez mais isso do que o maior dos advogados dessa elite, o próprio David Cameron, cujo discurso nem por isso se vê desprovido de significação. Num certo sentido, o presente artigo passa ao lado do essencial ao tomar à letra os tais princípios sagrados e ao questionar a coerência do governo britânico nesse campo. Isso porque o verdadeiro objetivo do discurso de Cameron não é nunca foi estabelecer um padrão a cujo alcance deveríamos aspirar. Muito pelo contrário. Seu único objetivo é fornecer um porrete com o qual massacrar o Islã. Não é que nós, os britânicos, devamos realmente praticar os tais “valores britânicos”; a questão é fornecer sólidas fundações para odiar as sociedades islâmicas, que sempre foram mostradas como sendo os grandes transgressores desses valores. Que não haja mal-entendido – e Cameron se empenha constantemente em afirmar – que “a vasta maioria dos muçulmanos britânicos cumpridores da lei compartilha estes valores”. Mas essa linguagem leva-nos a crer que os muçulmanos que compartilham tais valores o fazem graças a seu britanismo e apesar do Islã. O perigo desse discurso é múltiplo. Não apenas ele reforça os preconceitos ignorantes sobre a “aversão” do Islã à democracia, ao primado da lei e à tolerância, mas ele também justifica a rejeição de tais valores por grupos como o Exército Islâmico. Porque este último é o primeiro a acreditar na mensagem de Cameron, segundo a qual tais valores seriam “britânicos” e “ocidentais”. E assim, os povos que odeiam a Grã-Bretanha – o Ocidente e todo o mal que estes têm feito ao mundo – sentem-se no direito de odiar os valores que estas sociedades supostamente abraçam. Esquece-se ainda que a cultura islâmica têm, bem mais que o Ocidente, uma longa e orgulhosa história de prática desses valores democráticos. E por quê esquecem isso? Porque eles acreditam nas distorções de sua própria história perpetradas por Cameron e outros de sua laia. Assim sendo, quanto mais Cameron proclamar que democracia, tolerância e primado da lei são apanágios britânicos – insinuando por esta mesma via que estes valores são estranhos ao Islã – mais jovens muçulmanos coléricos, que veem suas pátrias sendo destruídas pelos britânicos, cairão na órbita desses grupos que rejeitam estes valores. O que faz o jogo de Cameron. Mais muçulmanos juntando-se ao Exército Islâmico significa mais combatentes em sua guerra por procuração contra Assad – isso sem um único soldado voltando pra casa dentro de um caixão. Isso, pelo menos, nos ajuda a entender quais são os verdadeiros valores de Cameron.

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