20 de abril de 2015

A dor do Quênia e como os EUA promoveram a al-Shabab na Somália

Somalia An ill-advised American-supported Ethiopian invasion transformed Al-Shabab from a marginal player into a major force.

By Conn Hallinan

Foreign Policy In Focus

Créditos: Abayomi Azikiwe/ Flickr.

Tradução / O assassinato sistemático de 147 estudantes universitários quenianos a 2 de abril por membros da organização al-Shabab baseada na Somália está a levantar uma questão incômoda: terá sido o massacre um efeito não intencional da estratégia antiterrorista na região? E terão os assassinos sido forjados por uma mal aconselhada invasão etíope apoiada pelos americanos, que transformou a organização islâmica radical de figurante marginal numa força importante?

Enquanto os quenianos choravam seus mortos, figuras da oposição opunham-se abertamente à ocupação do sul da Somália pelo Quênia e à receita de Washington para o combate ao terrorismo: drones, Forças Especiais e procuradores regionais.

Falando no porto de Mombaça, o antigo primeiro-ministro e líder da oposição Raila Odinga apelou à retirada das tropas quenianas, assim como o porta-voz da Assembleia Nacional, Justin Muturi. Falando no funeral de uma das vítimas, o senador James Orengo afirmou: “Sabemos bem as consequências de uma guerra de ocupação. Devemos retirar as nossas tropas da Somália para pôr fim a isto.”

Ausente da maior parte dos meios de comunicação americanos dominantes esteve o exame do papel exato dos EUA na Somália durante a passada década e como Washington ajudou a criar a atual crise.

Um pouco de história.

Quando o ditador militar Siad Barre foi deposto em 1991, a Somália caiu no caos da guerra entre clãs, provocando uma intervenção militar americana em 1992. Tida como “intervenção humanitária”, os americanos procuraram agressivamente eliminar a praga de senhores da guerra que tinham transformado a capital do país Mogadíscio numa ruína completa. Porém, a expedição descarrilou em 1993, depois de 18 soldados americanos e centenas de somalis terem sido mortos no infame incidente da queda de um Black Hawk. Os americanos retiraram no ano seguinte.

Isso não significa que os EUA tenham ido embora ou que não tenha sido aplicada uma nova estratégia para a África planejada pela fundação direitista Heritage Foundation. A gênese desse plano veio de James Carafano, licenciado em West Point e chefe da secção de política externa, e de Nile Gardiner, diretor do grupo de estudos Centro pela Liberdade Margaret Thatcher, que redigiram um documento intitulado “A Assistência Militar dos EUA em África: uma Melhor Solução.”

A estratégia propunha a criação de um comando militar americano em África, focagem no terrorismo e a intervenção militar direta com utilização de forças aéreas e navais. Os autores recusam a colocação de tropas no terreno, preferindo em vez disso o recrutamento de tropas aliadas. Estas recomendações foram adotadas pelo governo Bush e mais tarde pelo governo Obama, no estilo pacote de medidas. Foi criado o Comando Africano (Africom), juntamente com a Iniciativa Contraterrorista Trans-Sahara, para treinamento de tropas de 16 países que confinam com a vasta área abrangida pelo maior deserto mundial.

Ao mesmo tempo que o alvo do “terrorismo” é a face pública da estratégia, Carafano e Gardiner defendem que está envolvido no continente o “interesse vital” dos EUA. “Com os seus vastos recursos naturais e minerais,” a África, de acordo com os dois acadêmicos, “continua a ser importante para o Ocidente como o foi durante centenas de anos e o seu significado estratégico é provável que aumente no século XXI.”

Uma importante base lógica por detrás da estratégia é o bloqueio da influência chinesa em África e curto-circuitar a busca de matérias-primas por Pequim. A China obtém cerca de um terço do seu petróleo em África, fora a platina, cobre, madeira e minério de ferro.

A nova política foi iniciada na Somália quando em 2006 os EUA ajudaram ativamente a invasão da Etiópia em apoio ao impopular e isolado Governo Federal de Transição da Somália (GFTS). A invasão derrubou a União de Cortes Islâmicas (UCI) que tinha dado à Somália o primeiro governo estável em 15 anos.

A UCI era uma coligação de organizações islâmicas que incluía um pequeno grupo autodenominado “al-Shabab”, palavra árabe significando “a Juventude”. A UCI, sendo de ideologia islâmica, era mais moderada que a al-Shabab. Tinha também mais apoio que o GFTS, visto que tinha expulsado os senhores da guerra dos clãs que tinham dominado a Somália desde 1991.

Estes senhores da guerra, no entanto, unidos numa organização paradoxalmente chamada “Aliança pela Restauração da Paz e o Contraterrorismo”, eram fortemente apoiados pela CIA americana. Invocando que a UCI estava ligada à al-Qaeda, Washington confiou à Etiópia a invasão. Chegada a altura, Forças Especiais americanas sediadas no Djibouti acompanharam a invasão fornecendo informações e equipamento. A Marinha Americana bombardeou uma cidade no sul da Somália, matando 70 civis e ferindo mais de 100, de acordo com Oxfam e as Nações Unidas. Enquanto o New York Times reivindica que o apoio dos EUA à invasão foi “secreto”, na verdade foi tudo menos isso.

O forte exército etíope esmagou a UCI, mas a brutalidade da ocupação que se seguiu desencadeou um movimento de resistência conduzido pela al-Shabab. Dado que etíopes e somalis são tradicionais inimigos e que os primeiros são majoritariamente cristãos e os últimos esmagadoramente muçulmanos, perguntamo-nos em que estaria Washington a pensar quando apoiou a invasão.

Foi a invasão etíope-americana de 2006 que transformou a al-Shabab num protagonista importante, tal como a invasão do Iraque fomentou a criação de, primeiro, a al-Qaeda e depois o Estado Islâmico do Levante (ISIL) no Iraque e na Síria.

A al-Shabab rapidamente tomou conta da maior parte da Somália do sul e central, ainda que a sua brutalidade e interpretação estrita do Islã lhe tenha mais tarde isolado muita da população. No entanto, a única coisa à volta da qual os somalis se podiam unir era a expulsão dos etíopes e, após dois anos de emboscadas, bombas em bermas de estrada e atentados suicidas, Addis Abada retirou a maior parte das suas forças.

Nessa altura, a al-Shabab não estava filiada na al-Qaeda, o que não fez até 2012, e os seus objetivos eram principalmente locais. A organização era mais como os talibã no Afeganistão, embora com uma interpretação do Islã mais extremada. Contudo, essa diferença foi desprezada em Washington, que pressionou a União Africana (UA) para o envio de tropas. Em 2007, a UA estabeleceu com o acordo da ONU uma Missão da União Africana na Somália (AUMIS) e estabeleceu 9000 militares para apoio ao GFTS.

Não é coincidência que o grosso das tropas da AUMIS seja do Uganda e do Burundi, dois países que recebem ajuda americana, tal como a Etiópia. Desde 2009, a ajuda militar americana a Addis Abada aumentou 256%.

Os EUA também proporcionaram às organizações mercenárias privadas, como o Bancroft Global Development, o treinamento das tropas do Uganda e do Burundi em técnicas contra-revolucionárias. O fato de Bancroft ser uma empresa privada protege-a do escrutínio público, incluindo o Congresso dos EUA.

A instalação da AUMIS não teve grande êxito, mas finalmente a al-Shabab foi expulsa para fora da capital do país Mogadishu, embora tal fosse em parte reflexo da sua perda de apoio entre os somalis, que dela se afastaram devido à brutalidade do grupo. Mais tarde, a organização foi varrida de todas as principais cidades, embora, mesmo com numerosas derrotas, um recente ataque na capital que matou 15 pessoas e feriu 20 mostre que a al-Shabab ainda está viva.

O Quênia, outro beneficiário de ajuda americana cujos soldados foram treinados por Forças Especiais dos EUA, invadiu o sul da Somália em 2011 e assenhoreou-se do porto de Kismayo controlado pela al-Shabab. Embora publicamente a razão para a invasão tenha sido o rapto de quenianos e turistas pela al-Shabab, aparentemente Nairobi tinha desde há muito tempo o olho no porto de Lamu como parte de um plano de desenvolvimento para o nordeste do país.

De novo, a al-Shabab foi afastada muito facilmente, mas só então recorreu à guerra de guerrilha e ataques a alvos civis no Quênia e no Uganda. Em 2011, pôs duas bombas em Kampala, no Uganda, que vitimaram 76 pessoas. Em 2013, matou 67 pessoas num centro comercial em Nairobi e depois culminou com o massacre na Universidade de Garissa.

A resposta do governo queniano foi tomar como alvo a etnia somali que vive do lado queniano da fronteira com a Somália, ameaçando fechar um dos maiores campos de refugiados do mundo e reprimindo os muçulmanos do país. Trata-se de ações susceptíveis de alienar a grande população de etnia somali do Quênia e as comunidades da minoria muçulmana. “A al-Shabab precisa de criar um clima de medo e suspeita para conseguir afirmar-se,” disse o analista de segurança Mohamed Mubarak ao Financial Times, “E podem ter êxito se a resposta queniana não for cuidadosamente pensada.”

Os ataques de represália amarguraram muitos quenianos na invasão. Uma sondagem do passado outono, seis meses antes do banho de sangue da Universidade de Garissa, apurou que a maioria do país quer as tropas fora e que dois em cada três quenianos pensam que haverá mais ataques terroristas.

O que parece claro é que a fórmula da Fundação Heritage com a utilização de força militar em África foi um desastre. Desestabilizou a Somália com a queda da UCI, alastrando a guerra ao Uganda e ao Quênia. Transformou a Líbia num estado fracassado, o que por sua vez provocou uma inundação de armas que ajudaram a atear guerras civis no Mali, no Níger e na República Centro-Africana.

O uso generalizado de drones pode eliminar alguns chefes terroristas no meio de grande quantidade de civis e, em vez de destruir as organizações como a al-Qaeda e a al-Shabab, acabar por atomizá-las em grupos menores e mais difíceis de seguir, mas não menos capazes de cometerem assassínios em massa. De fato, para organizações como a al-Shabab e a Al-Qaeda, os drones provaram ser os mais eficazes agentes de recrutamento no século XXI.

A ocupação militar lança as sementes da sua própria destruição e, se bem que o uso de drones e aliados possa manter a lista de mortos americanos reduzida, essa estratégia cria em última instância mais inimigos do que os elimina.

A solução na Somália (e na Síria e no Iêmen) é política, não militar. De acordo com Bronwyn Bruton do Conselho de Relações Externas, a al-Shabab “não é um movimento monolítico,” mas inclui chefes da antiga União das Cortes Islâmicas que os EUA e aliados desastrosamente derrubaram. “Alguns desses dirigentes são extremistas e a ideia de falar com eles não é convidativa. Mas, os Estados Unidos podem e deviam negociar com eles diretamente.”

Em resumo, negociações vencem as bombas e funcionam melhor.

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