4 de maio de 2015

“Mirei contra civis, às vezes só por prazer”

Um jovem soldado envolvido na Faixa de Gaza durante a Operação “Fronteira Protetora” em 2014 conta sua guerra e seus tormentos.

Piotr Smolar


Créditos: Adel Hana/ AP.

Tradução / Vamos chamá-lo de Arié. Digamos que ele tenha cerca de 20 anos e um espírito crítico. Arié faz parte dos cerca de 60 soldados israelenses que aceitaram testemunhar junto à ONG Breaking the Silence a respeito da operação “Fronteira Protetora”, conduzida no verão de 2014 na Faixa de Gaza. Arié contou ao “Le Monde” sobre sua experiência como atirador a bordo de um tanque de combate. Ele se aproximava da reta final de seu serviço militar quando foi enviado a Gaza. Seu esclarecedor depoimento foi confirmado em vários pontos por aqueles que constam na compilação da ONG, publicada na segunda-feira (4)

“Sou atirador em um tanque. Fiz um treinamento padrão de quatro meses, depois mais quatro de um treinamento especializado, que envolve muita balística, cálculos de distância, exercícios práticos. É você que controla as armas, então é preciso ser calmo e preciso. Tem um botão que permite ligar a eletricidade no canhão. Quando ele é pressionado, quer dizer que está se aproximando do tiro. A regra elementar é: não se brinca com ele, nem mesmo se tenta verificar se está funcionando, ele só pode ser apertado se você for atirar. E para isso é necessária a ordem do comandante. Isso se torna instintivo. Também descobri que tudo devia ser relatado. Aprendi a analisar um cenário, da esquerda para a direita, da direita para a esquerda, e fazer um relatório. A decisão de se atirar é tomada em seguida por alguém acima de você.

Quando fui chamado no início de julho [de 2014], fomos reunidos no Golã [norte de Israel]. Esperamos que os caminhões chegassem, depois voltamos a partir para o sul, nas proximidades da Faixa de Gaza. Começamos a preparar os tanques. Ninguém fala para você naquele momento sobre a missão. É tudo meio vago, a gente conversa entre os soldados, falamos de nossos medos, dividimos nossos pensamentos. Passamos o tempo. Um dia, o chefe do batalhão nos reuniu para passar as ordens. ‘Amanhã à noite entraremos na Faixa de Gaza’, ele disse. ‘Precisamos pensar em nossas famílias, em nossos lares. Isso que fazemos é pela segurança deles.’ Ele nos falou das regras de combate. ‘Há um círculo imaginário de 200 metros em torno de nossas forças. Se virmos qualquer coisa dentro, temos o direito de atirar.’

“Eu era o único a achar aquilo estranho”

Eu era o único a achar aquilo estranho. Ele me respondeu: ‘Se uma pessoa vê um tanque e não foge, ela não é inocente e pode ser morta’. Para ele, não existiam civis. Se alguém podia nos fazer mal, era culpado. A margem de manobra era muito ampla, dependia de mim e de meu comandante. Não investigávamos o alvo como me haviam ensinado durante o treinamento. Era meio assim: se eu vejo algo suspeito na janela, ou se essa casa está perto demais de nós, quero atirar. ‘Ok!’, dizia o comandante. Era a cadeia de decisão em nossa unidade.

Tínhamos metralhadoras calibre 50 e as 7-62, para as zonas abertas ou nas moitas próximas. Mas a arma mais eficaz era o morteiro. Quando um carro se mexia estando na minha mira, morteiro. Mirávamos em coisas, não pessoas. Nunca vimos seres humanos de perto, exceto pelos breves cessar-fogo de algumas horas. As pessoas acreditavam então que podiam voltar para casa em total segurança. Tinha idosos, mulheres, crianças… Não sabíamos o que fazer. Eles nos viam e continuavam a avançar. Tínhamos medo de atentados suicidas.

Cheguei a pegar a metralhadora para apontar ao lado deles, para assustá-los, pois também tínhamos medo. Mesmo os soldados de tendência política de direita ficavam arrasados pelos civis, presos entre eles e nós, entre nossos tanques e os combatentes do Hamas. A gente pensava: eles os levaram ao poder democraticamente, mas mesmo assim… Que se danem os combatentes. Sempre comparamos o Hamas com o Hezbollah libanês, que é visto como elite da elite. O Hamas são semiprofissionais, que mesmo assim nos causam medo.

Eu nunca vi um combatente do Hamas. Eles são muito sorrateiros, se deslocam dentro de túneis. Você entra em uma zona aberta, e de repente eles atiram contra você, por trás. Você se vira e não tem mais ninguém. Além disso tem os sentinelas nos telhados. Matei um deles. Sentinela é uma palavra em nosso dicionário militar, que define uma pessoa que pode te observar do alto e fala pelo telefone. O sentinela é um semi-combatente. Até uma velhinha pode ser. Era comum ver uma pessoa ao longe no telhado, falando ao telefone. Verificávamos junto ao comandante se não era dos nossos. Depois atirávamos um morteiro passados alguns minutos. Isso aconteceu muito em nossa zona pois estávamos em uma planície e tinha um bairro do Hamas logo em frente, no alto. A maior parte do tempo eu só via uma mancha preta, nunca os rostos, porque eu olhava de longe com o sol em frente. Mas não podíamos nos arriscar.

“Mirávamos em fazendas, prédios”

Não era permitido mirar nos prédios das Nações Unidas. Nem mesmo apontar o canhão na direção deles, era preciso levantá-lo para impedir um tiro acidental. O mesmo valia para o hospital ou para a usina elétrica e os chamados prédios internacionais, a menos que atirassem contra nós claramente a partir desses lugares. Seria então preciso pedir autorização antes de responder. Esses lugares se situavam de 2 a 4 km de nós.

Entramos na Faixa de Gaza no dia 19 de julho. Procuramos túneis do Hamas construídos entre Gaza e Israel. Também devíamos destruir a infraestrutura do Hamas e causar os maiores danos possíveis à paisagem, à economia, à infraestrutura, para que o Hamas pagasse o maior preço possível pelo conflito, e para que eles pensassem duas vezes no próximo conflito. Era dissuasão. Mirávamos em fazendas, prédios, postes de luz. Se houvesse prédios civis elevados, podíamos mirar neles. Oficialmente nos diziam que era preciso evitar vítimas civis, mas ao mesmo tempo, fazer o máximo possível de estragos. Eu era o único que me incomodava com aquilo. Os outros diziam: ‘Precisamos fazer isso, são eles ou nós, senão acabarão matando a gente, tudo bem…’ Era realmente triste. Estou tentando entender por que era assim. Talvez eu seja mais maduro que eles, ou talvez minha educação tenha influenciado. Muitos tentam não pensar, sobreviver dia por dia, apagar sua consciência.

À noite entramos na Faixa de Gaza, estava um caos, havia muitas conversas por rádio. Estávamos com medo e achamos que íamos levar um tiro. Mas não aconteceu nada. Após alguns dias atirando sem nunca receber um tiro, minha vigilância baixou. Um dia tentamos sair do tanque porque estávamos com um problema no motor. Em menos de um minuto várias balas voaram perto da minha orelha, e me joguei ao chão. Foi intenso, e depois mais nada durante vários dias. Na primeira semana saíamos só para mijar, depois começamos a reservar um tempo – 15 minutos – para fazer café. Dormíamos no tanque. Fazia um calor terrível, não tinha ar condicionado.

“Mirei contra o 11º andar com um morteiro”

Quanto amanheceu, depois que chegamos, por volta das 8h ou 9h, o comandante pediu que seis tanques se enfileirassem em frente a Al-Burej [ampla zona de habitação no centro da Faixa de Gaza]. Eu havia ajustado meu rádio para ouvir os outros tanques, cada atirador podia escolher seu alvo, ao acaso. Era meio assim: “Eu miro naquele prédio branco ali”. E era preciso esperar a contagem. Ninguém havia atirado contra nós nem durante, nem depois. O comandante chamou aquilo de ‘Bom dia, Al-Burej!’. Meio brincando, ele dizia que queria dar a eles o bom dia do exército. Oficialmente era dissuasão. Então disparamos contra prédios civis comuns, ao acaso. Diziam que Al-Burej era um ninho de vespas do Hamas, que seria suicídio entrar ali. Controlávamos com fogo. Todo dia, a cada meia hora, um tanque parava em frente e atirava. Quando um dia um de nossos soldados foi morto por um tiro de morteiro, o comandante disse que devíamos nos vingar, em homenagem a ele. Nós nos posicionamos, escolhi ao acaso um prédio a cerca de 3 ou 4 quilômetros, perto do mar, e mirei no 11º andar com um morteiro. Talvez tenha morrido gente.

Durante todo esse tempo ficamos estacionados principalmente em uma zona rural em torno do vilarejo de Juhor ad-Dik, com muito verde, fazendas e muitas árvores. Quando partimos só restavam uma ou duas construções de pé. Eles pegaram o buldôzer blindado, o D-9, e trabalharam essa área 24 horas por dia, sete dias por semana, para transformá-la em deserto. O D-9 serve primeiro para abrir caminho para os tanques, para limpar os obstáculos, as eventuais armadilhas de bombas. Disseram que queriam nivelar essa área para ter uma capacidade de observação para a próxima vez.

Entramos no máximo a cerca de 3,5 km para dentro da Faixa. A gente se dividia e partia em missões de poucas horas, na direção do sul e de Al-Burej, ou senão ao norte ou a oeste. Vi um túnel de ataque do Hamas. Ele era tão largo que podíamos praticamente entrar com um tanque dentro. Também vi um pequeno túnel em Juhor ad-Dik, embaixo de um prédio que havia abrigado uma farmácia da Cruz Vermelha. O prédio foi destruído. Ficamos cerca de duas semanas e meia dentro da zona. A maior parte do tempo os tanques percorriam os arredores. Tínhamos muito medo de eventuais incursões do Hamas, como aconteceu em outros lugares.

Durante toda a operação, os atiradores [dentro dos tanques] ficavam radiantes de poderem atirar morteiros, pois jamais podíamos fazer isso em tempos normais, pois custa caro demais. Só fiz isso seis ou sete vezes durante meu treinamento. Lá era uma boa oportunidade para todos verificarem suas habilidades. Ficávamos exaltados com aquilo porque era nossa vez de brilhar. Durante toda a operação, tive de atirar 20 ou 25 morteiros, e os outros duas vezes toda semana. Eu via os civis por trás daquilo. Nossas discussões eram uma guerra de egos.

“Quando deixei Gaza, eu estava amargurado e triste”

Na terceira semana, aconteceu de estarmos postados em um lugar de onde se via a rota Salaheddine, a grande artéria que atravessa a Faixa do norte ao sul. As pessoas circulavam ali pois ela estava fora da zona de combate. Éramos em três tanques. Pensamos: Ok, vamos ver quem consegue atingir um veículo ou uma bicicleta. O comandante disse: ‘Ok, me deem um motivo de orgulho!’ Apostamos entre nós, mas era difícil demais, ninguém conseguiu. Meu tanque era dos anos 1980, ele não consegue atingir alvos que se desloquem rápido. Eu precisava calcular tudo em minha cabeça em cinco segundos para antecipar a trajetória. E eu só via parte da estrada. Havia um ciclista lá. Miramos nele com uma metralhadora calibre 50, uma arma nada precisa. Atirei ao lado e em frente dele. Eu não a ajustei de fato. Ele se mandou tão rápido, mais rápido que o [Lance] Armstrong, que todo mundo riu. É o episódio do qual mais sinto vergonha.

Quando deixei Gaza, eu estava amargurado e triste com aquilo que aconteceu. Mas estava aliviado de voltar à vida civil. A maior parte das pessoas da minha companhia são de direita. Eles consideram a Breaking the Silence como uma organização antissionista. ‘Crimes de guerra’? Talvez não chegue a tanto. Mas tenho a sensação de ter feito coisas amorais, no plano internacional. Mirei em alvos civis, às vezes só por prazer.

Tentei falar sobre isso. Mas em meu ambiente ninguém quer ouvir tudo isso, sobre essas coisas ruins. ‘Você é um herói, fez o que devia fazer…’ Não é o exército que eles conhecem, ‘o mais moral do mundo’. Em Israel, todo mundo vai para o exército, e ele faz parte de nós. É algo pessoal. Meus pais me disseram a mesma coisa. ‘Você fez o que devia fazer, estamos contentes que tenha voltado.’

Lá todo o sistema de valores era invertido. As pessoas nas ruas me diziam que sou um herói. Eu só ficava sentado em um tanque o dia inteiro. Eu me acostumei com essa presença, a atirar. Você pega um homem livre e o transforma em escravo: ao final de alguns anos, ele se acostuma. É como um passeio no parque.

Eu não tinha janela. Meu mundo em Gaza era uma caixa de 20 centímetros. Eu via tudo através de um visor, de uma cruz por cima de cada estrada, de cada prédio. Ainda tenho as noções de bem e de mal. Quando atirei contra prédios civis ou contra o ciclista, eu tinha a ciência de estar fazendo algo ruim, mas sentíamos que podíamos fazer tudo, que não havia lei. Dentro dos limites da lógica militar. É claro, não estuprar crianças ou matar uma família inteira só porque ela estava lá…. Mas poder destruir um prédio vazio, sim. Atirar contra uma estrada, sim. Se matamos algumas pessoas, teremos inimigos. Mas é só.”

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