25 de maio de 2015

"Operação impensável": aliados tinham malícia secreta

Yuriy Rubtsov

Strategic Culture Foundation

Tradução / No final de maio de 1945 Josef Stálin ordenou que o Marechal Georgy Zhukov deixasse a Alemanha e fosse para Moscou. Ele estava preocupado com as ações do aliados britânicos. Stálin disse que as forças soviéticas desarmavam os alemães e os enviavam a campos de prisioneiros; mas os britânicos, não. Em vez de desarmar e prender os alemães, os britânicos estavam cooperando com eles e lhes permitiam manter a capacidade de combate. Stálin acreditava que havia planos para usá-los mais tarde. Ele enfatizou que era uma violação direta do acordo intergovernamental, que determinava que as tropas que se rendessem deviam ser imediatamente dissolvidas. A inteligência soviética pôs as mãos (e os olhos) no telegrama secreto que Winston Churchill enviou ao marechal-de-campo Bernard Montgomery, comandante das forças britânicas. Ele instruiu a recolher as armas e mantê-los em prontidão para serem devolvidas aos alemães, caso a ofensiva soviética continuasse.

Seguindo instruções de Stálin, Zhukov condenou duramente as atividades dos britânicos no Conselho de Comando dos Aliados (União Soviética, EUA, Reino Unido e França). Disse que a história registrava poucos exemplos de tamanha traição e descaso com compromissos assumidos entre nações que tinham, ou se haviam comprometido a ter, status de aliadas. Montgomery rejeitou a acusação. Poucos anos depois admitiu que recebeu ordens para fazer exatamente o que Zhukov acusou os ingleses de terem feito e que as executou. Ele teve que cumprir a ordem como um soldado.

Uma batalha feroz grassava nas proximidades de Berlim. Em sua época Winston Churchill disse que a Rússia Soviética tornou-se uma ameaça mortal para o mundo livre. O primeiro-ministro britânico queria que se criasse uma nova frente no leste, imediatamente, para conter a ofensiva soviética. Churchill vivia obcecado pela ideia de que, depois de derrotado o exército nazista alemão, a União Soviética surgia como nova ameaça.

É por isso que Londres queria que Berlim fosse tomada por forças anglo-americanas. Churchill também queria que os americanos libertassem a Checoslováquia e Praga com a Áustria controlada pelos aliados, todos sob as mesmas condições.

Já em abril de 1945, Churchill deu instruções para que o Grupo de Planejamento Conjunto das Forças Armadas Britânicas planejasse a "Operação impensável", nome de código de dois planos relacionados de um conflito entre os aliados ocidentais e a União Soviética. Os generais receberam ordens para traçar meios para “impor à Rússia a vontade dos EUA e do Império Britânico”. A data hipotética marcada para o início da invasão, pelos aliados, da Europa hipoteticamente tomada pelos soviéticos, seria 1º de julho de 1945. Nos últimos dias da guerra contra a Alemanha de Hitler, Londres deu início a preparativos para apunhalar a União Soviética pelas costas.

O plano previa guerra total para ocupar as partes da União Soviética que tiveram significado crucial para o esforço de guerra, e assestar assim golpe decisivo, que tiraria das forças armadas soviéticas a capacidade para se defender.

O plano incluía a possibilidade de as forças soviéticas recuarem com profundidade para dentro do próprio território, tática que havia sido usada em guerras anteriores. O Alto Comando Britânico considerou esse plano militarmente irrealizável, porque as forças soviéticas superavam as forças aliadas na proporção de três para um – na Europa e no Oriente Médio, onde o plano previa que se travassem os combates. As unidades alemãs entravam nessa conta como tentativa de equilibrar a correlação de forças: por isso Churchill precisava tanto que os prisioneiros alemães continuassem em prontidão para combater.

O Gabinete de Guerra declarou: "O Exército Russo desenvolveu um Alto Comando capaz e muito experiente. O exército é incomensuravelmente mais forte, vive e se movimenta em escala muito mais leve de manutenção que qualquer exército ocidental, e usa táticas firmes, baseadas sobretudo na pouca importância atribuída às baixas, para alcançar o objetivo. O equipamento foi rapidamente aprimorado durante a guerra e hoje é bom. Sabe-se o suficiente sobre esse desenvolvimento, para dizer com certeza absoluta o exército soviético não é inferior aos das grandes potências. A facilidade que os russos mostraram para desenvolver e aprimorar equipamento e armas existentes, e para produzi-los em massa foi realmente impressionante. Já se sabe até que houve casos de os alemães terem copiado traços básicos do armamento russo." Os planejadores britânicos chegaram a conclusões pessimistas. Disseram que qualquer ataque seria “imprevisível” e que a campanha seria “longa e cara”. Na verdade, o relatório dizia: "Se estamos a embarcar em guerra com a Rússia, temos de estar preparados para estar comprometidos com uma guerra total, que seria longa e onerosa." A superioridade numérica das forças terrestres soviéticas deixavam pouca chance de sucesso. A avaliação, assinada pelo Chefe do Estado-Maior do Exército em 9 de junho de 1945, concluiu: "Seria além do nosso poder alcançar um sucesso rápido, mas sempre limitado, e estaríamos comprometidos em uma guerra longa, contra todas as probabilidades de sucesso. Estas probabilidades, além disso, se tornariam fantasiosas se os americanos ficassem cansados e indiferentes e se deixassem arrastar pelo ímã da guerra no Pacífico."

O primeiro-ministro recebeu o rascunho do plano no dia 8 de junho de 1945. Por mais que o enfurecesse, Churchill teve de se conformar, diante da evidente superioridade do Exército Vermelho. Mesmo com uma bomba nuclear no inventário das forças armadas dos EUA Harry Truman, o novo presidente norte-americano, tinha de ter isso em conta.

Em uma reunião com o Ministro das Relações Exteriores da URSS, Vyacheslav Molotov, Truman pegou o touro pelos chifres. Fez uma mal disfarçada ameaça de que se poderiam aplicar sanções econômicas contra a União Soviética. Em 8 de maio de 1945, o Presidente dos EUA ordenou que se reduzissem significativamente, sem qualquer notificação prévia, a venda e a entrega de suprimentos. Chegou a ponto de fazer retornar às bases americanas todos os navios que estavam a caminho da URSS. Algum tempo passou, e a ordem foi cancelada, ou a URSS não entraria na guerra contra o Japão, algo que os Estados Unidos precisavam muito. Mas o relacionamento bilateral foi danificado. O memorando assinado pelo secretário interino de Estado Joseph Grew em 19 de maio de 1945 declarou que a guerra com a União Soviética era inevitável. Ordenava “endurecer posições” nos contatos com a URSS. Segundo Grew, recomendava-se iniciar imediatamente os combates, antes que a URSS conseguisse recuperar-se da guerra e restaurar seu vasto potencial militar, econômico e territorial.

Os militares receberam um impulso dos políticos. Em agosto de 1945 (a guerra com o Japão não havia terminado), o mapa dos alvos estratégicos dentro da URSS e Mandchúria foi apresentado ao general L. Groves, chefe do programa nuclear dos EUA. O plano indicava 15 das maiores cidades da URSS: Moscou, Baku, Novosibirsk, Gorky, Sverdlovsk, Chelyabinsk, Omsk, Kuibyshev, Kazan, Saratov, Molotov (Perm), Magnitogorsk, Grozny, Stalinsk (provavelmente, Stalino – a atual Donetsk) e Nizhny Tagil. Cada alvo vinha acompanhado de descrições: geografia, potencial industrial e alvos principais a atingir. Washington abriu uma nova frente. Desta vez contra o seu aliado.

Londres e Washington imediatamente esqueceram que haviam combatido lado a lado, ombro a ombro, com a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, bem como os compromissos de acordo que haviam assumido nas conferências de Yalta, Potsdam e São Francisco.

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