6 de maio de 2015

Os ricos ficam mais ricos

Bolha Titanic alimentada pela blitz de recompra de ações

Mike Whitney

Counterpunch: Tells the Facts and Names the Names

Tradução / Por que as ações continuam sempre em alta, agora que o dinheiro especulativo voou para outras paragens e a economia dos EUA estagnou?

De acordo com Marketwatch:

Pela oitava semana em sequência, fundos mútuos de longo prazo viram mais dinheiro saindo de ações americanas para ações internacionais, segundo o Investment Company Institute... Para a semana que terminou em 22 de abril de 2015, saíram US$ 3,4 bilhões de fundos mútuos de longo prazo... No ano, até aqui, a saída líquida para ações americanas é de US$ 13,79 bilhões, e a saída para ações internacionais é de US$ 41,12 bilhões. 
Esses números contudo não incluem fundos cambiais. Só em abril, fundos mútuos e fundos cambiais focados em ações internacionais tiveram influxo de US$ 31,8 bilhões líquidos, e saída de US$ 15,4 bilhões, de acordo com o TrimTabs Investment Research. (“Why U.S. stocks are near highs even as fund investors flee”, Marketwatch).

Assim sendo, se os pequenos investidores estão mudando o dinheiro deles para Europa e Japão (para aproveitar as vantagens do “quantitative easing”, e os sinais vitais da economia dos EUA continuam indetectáveis (o PIB do primeiro trimestre chegou ao fundo do abismo dos 0,1%), nesse caso por que as ações continuam a apenas 2% do pico mais alto de todos os tempos?

Resposta: recompras de ações.

A política monetária super-acomodatícia do Fed de Bernanke criou um ambiente no qual os patrões grandes empresas podem tomar emprestado caminhões de dinheiro pagando as taxas mais baixas da história, e, a seguir usam o mesmo dinheiro para comprar ações de suas próprias empresas. Quando uma empresa reduz o número de ações no mercado, o preço da ação sobe, o que gera recompensa para ambos, para a empresa e para os acionistas. Claro que esse inchaço de preços nada acrescenta à produtividade da companhia ou a suas possibilidades de crescimento. De fato, o processo mina ganhos futuros, porque acrescenta mais números vermelhos no balanço. Mas esses “negativos” nunca são considerados na tomada de decisões, focada exclusivamente em ganhos de curto prazo. Tomem aí uma dose de Morgan Stanley, via Zero Hedge:

Em 2014, as [empresas que aparecem no índice das 500 maiores de Stanley and Poor] S&P 500 recompraram, em números líquidos, o equivalente a ~US$ 430 bilhões em ações comuns e gastaram outros ~US$ 375 bilhões para pagar dividendos. O capital total que voltou aos acionistas foi apenas um pouco inferior aos ganhos anuais reportados. No front da renda fixa, o mercado de ações de empresas com grau de investimento viu um recorde de US$ 577 bilhões de emissão líquida em 2014. Embora os universos de ações e obrigações não se correspondam 100%, entendemos que esses números revelam uma história bem simples, mas importante. As corporações americanas têm, essencialmente, emitido níveis recordes de ações e usado uma parte significativa de seus ganhos e reservas de caixa para recomprar níveis recordes de ações comuns. (“Buyback bonanza, margin madness behind U.S. equity rally”, Zero Hedge).

Quer dizer: as empresas estão tomando emprestado centenas de bilhões de dólares dos investidores, pelo mercado de ações. Estão usando esse capital barato para recomprar ações delas mesmas, para conseguir mandar para as alturas a recompensa [“bônus” por desempenho] devida aos executivos, e ganhar muito dinheiro à custa dos investidores. Ao mesmo tempo, vão enfraquecendo a estrutura de capital da empresa, carregando-a com mais dívidas. (Vale a pena observar que “empresas não financeiras com alto grau de investimento” estão hoje mais alavancadas do que estavam em 2007 antes do crash).

Esta farra ensandecida de recompra ficou tão louca, que recompras realmente excederam os lucros em dois trimestres em 2014. Aqui está a história de Bloomberg:

[As empresas que aparecem no índice das 500 maiores de Stanley and Poor] realmente amam seus acionistas... O dinheiro que voltou aos donos de ações excedeu os lucros no primeiro trimestre e pode exceder também no terceiro. A proporção do fluxo de dinheiro usado para recompras quase dobrou ao longo da última década, segundo Jonathan Glionna, diretor de pesquisa de estratégia de ações dos EUA em Barclays Plc. 
As recompras ajudaram a alimentar uma das altas mais fortes dos últimos 50 anos, com as ações mais recompradas ganhando mais de 300% desde março de 2009. (“S&P 500 companies spend almost all profits on buybacks”, Bloomberg)

Mas talvez estamos sendo pessimista demais. Talvez as ações teriam subido de qualquer maneira devido a ganhos e melhorias recordes na economia. Isso é possível, não é?

Não. Não de acordo com Morgan Stanley, pelo menos. Confira:

Desde 2012, mais de 50% do aumento nos Ganhos por Ação [Earnings Per Share, (EPS)] nas [empresas] S&P 500 foi puxado por recompras, e o crescimento sem as recompras tem sido de meros 3,3% anualizado.

“Mais de 50%!” Aí está o resumo do seu mercado, em uma expressão condenatória. Sem recompras significa sem qualquer crescimento no mercado de ações em cinco anos. Ponto final. Parágrafo. Não fosse pela engenharia financeira e o dinheiro fácil do Fed, as ações estariam no mesmo ponto em que, no geral, está toda a economia: girando em volta do buraco do ralo. É isso.

O mais frustrante de todo esse atual fenômeno é que o Fed sabe exatamente o que se passa, mas vira a cabeça e olha para outro lado. Assim, enquanto a bolha das ações cresce, o gasto de capital [Capital Expenditure (CAPEX)] – que é o investimento em produtividade e crescimento futuros – continua a deteriorar-se, o PIB desaba para zero e a demanda vai se tornando cada vez mais fraca. Isso não deveria justificar uma reavaliação da política?

Deus, não. O Fed está decidido a continuar agarrado à mesma política manca, até que o inferno congele. Se funciona ou não é totalmente irrelevante. Agora considere essa informação, que nos deixa de olhos esbugalhados, de Wolf Street:

A GE, para encobrir uma perda líquida de US$ 13,6 bilhões e entradas declinantes no primeiro trimestre, disse, em 10 de abril de 2015, que vai recomprar US$ 50 bilhões das próprias ações. (“Record financial engineering will goose stocks: Goldman”, Wolf Street)

Não sei dizer quantas vezes tenho lido notícias semelhantes nos últimos dois anos. As receitas da empresa estão encolhendo, eles estão perdendo dinheiro a rodo, e o que eles fazem?

Eles anunciam que vão comprar de volta 50.000 milhões dólares de suas próprias ações.

Que piada. E não pára por aí. As políticas do Fed também dispararam um frenesi de atividade nos empréstimos marginais. Esta é a partir da CNBC::

A dívida marginal da Bolsa de Valores de NY [New York Stock Exchange NYSE] bateu todos os recordes em março de 2015, segundo dados recentemente distribuídos... A dívida marginal da NYSE alcançou US$ 476,4 bilhões, depois de chegar aos US$ 464,9 bilhões no final de fevereiro de 2015. (Atenção: Esse valor é US$ 95 bilhões superior aos números de 2007, no auge da bolha).

Surge uma dívida marginal quando os investidores tomam empréstimos para comprar ações. Se um investidor compra US$ 100 em ações, com US$ 50 em capital, esse indivíduo tem US$ 50 de dívida marginal. Dado que a dívida marginal provê alavancagem, ela amplifica os ganhos, mas também aumenta o risco para o investidor. (“What record-high margin debt means for stocks”, CNBC).

Mais empréstimos tomados, mais riscos, mais instabilidade financeira. E aí está tudo que o Fed tem feito. Se as taxas estivessem neutras, os preços se normalizariam e os altos executivos não estariam metidos nessa temerária roleta-russa. Em vez disso, é mandar às favas a prudência; continuar a pilhagem do endividamento até que todo o mercado desabe, direto ao poço, como aconteceu há seis anos. Na verdade estamos nessa trajetória. Segundo [pesquisa do] TrimTabs Investment Research, "... as recompras em fevereiro alcançaram US$ 104 bilhões, o maior número mensal desde quando começou esse acompanhamento, há vinte anos.

A verdade é que as coisas estão piorando, não melhorando. Resumo da história: o Fed levou os EUA à beira do precipício, mais uma vez, e o mais leve toque para cima nas taxas de juros empurrará o país, em queda livre.

Mas, por quê? Por que o Fed só faz “conduzir” o país de uma catástrofe financeira, até a seguinte?

Essa é a pergunta que os economistas Atif Mian e Amir Sufi respondem muito convincentemente, com um único e singelo gráfico. Confira:

"Esta é a proporção dos ativos financeiros, em relação à distribuição nacional da riqueza." Dados tirados da 2010 Survey of Consumer Finances do Fed.


“Os 20% mais ricos detêm mais de 85% dos ativos financeiros em toda a economia. É claro, portanto, que os ganhos diretos do capital vão só para os lares mais ricos dos EUA”. (Capital Ownership and Inequality, House of Debt).

Por que o Fed cria uma bolha após a outra?

Agora você sabe.

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