2 de maio de 2015

Subir na cama com a al-Qaeda

Daniel Lazare

Consortium News

Tradução / Depois de anos mentiras, o governo Obama afinal falou clararmente sobre seus objetivos na Síria: na luta para derrubar Bashar al-Assad, o governo Obama está aliado à Al-Qaeda. Foi o que ficou evidente desde que Jisr Ash-Shughur, pequena cidade no nordeste do país, caiu em 25 de abril de 2015, invadida por uma coalizão apoiada por Arábia Saudita e Turquia, constituída da Frente Al-Nusra, do grupo Ahrar al Sham e de vários outros grupos menores, “moderados”.

A Frente Al-Nusra, apoiada por Arábia Saudita, Qatar e Emirados Árabes Unidos, é a afiliada oficial síria da al-Qaeda (Financial Times). O grupo Ahrar al-Sham, fortemente apoiado pelo Qatar, também é associado à al-Qaeda e também cooperou com o ISIS. Os outros grupos que partilham essas denominações, como a Divisão do Litoral [Coastal Division] e as Brigadas al-Ghab, são parte do chamado “Exército Sírio Livre” criado e mantido pelos EUA, e são tão supostamente antiterroristas quanto são declaradamente anti-Assad. E todos esses “pegaram carona” no ataque, para usar terminologia técnica do The Wall Street Journal, fazendo tudo que podiam para facilitar o avanço comandado pela Frente Al-Nusra.

Implica dizer que grupos mantidos pelos EUA ajudaram a al-Qaeda a tomar uma cidade secular. Mas ainda não é tudo que os EUA fizeram. Também forneceram mísseis guiados por célula ótica TOW© , que os rebeldes usaram para destruir dezenas de tanques do exército regular sírio e outros veículos, como se vê em vídeos divulgados nas redes sociais. Um terrorista pró-EUA de nome Fares Bayoush disse ao The Wall Street Journal que os TOWs “alteraram o equilíbrio de poder”, dando aos terroristas salafistas a vantagem de que precisavam para desalojar o exército do estado sírio, instalado na cidade.

Com a Síria acusando os militares turcos de estarem fornecendo “apoio logístico e de fogo” aos terroristas, tudo sugere que os terroristas tenham transportado os mísseis através da fronteira turca, a menos de 15 km a oeste de Jisr Ash-Shughur. Não se sabe se os mísseis TOWs foram usados pela Frente Al-Nusra ou por outra das facções de terroristas pró-EUA. Mas não há dúvida alguma quanto à origem dos mísseis.

No final de 2013, a Arábia Saudita foi entusiasmadamente às compras, e comprou mais de 15 mil mísseis Raytheon antitanques, ao preço total de mais de US$ 1 bilhão. A compra despertou desconfianças, dado que os mísseis TOWs são usados principalmente contra tanques e outros blindados, ameaça que os sauditas nunca mais tiveram de enfrentar desde a queda de Saddam Hussein.

Agora, tudo se esclarece. Em armas contra supostos avanços xiitas no Iraque, Síria, Líbano e Iêmen, os arquissunitas de Riad compraram os mísseis com a intenção de repassá-los aos salafista sírios, na esperança de conseguir reverter a maré xiita.

Regulamentos americanos proíbem essas transferências de armas para terceiros, mas até agora Washington não deu um pio. A política dos EUA tem sido armar rebeldes moderados, sempre sob a condição de que nada tivessem a ver com a al-Qaeda. Também nesse quesito, os americanos mantiveram-se calados.

Um alto funcionário do governo admitiu para o Washington Post que a Casa Branca está “preocupada por a al-Nusra ter assumido o comando”. Mas disse que o governo sabe que “por causa das realidades no campo de combate, onde a oposição mais moderada é obrigada a coexistir” com grupos terroristas, ocorrerá alguma cooperação. Disse também que o governo “não é cego para o fato de que é em dada medida inevitável” que as armas dos EUA acabem mesmo em mãos de terroristas. Mas tudo que podia dizer em resposta é que “com certeza não deixaremos de discutir a questão com nossos parceiros”.

O governo Obama, em outras palavras, sabe que seus clientes estão aliados com a al-Qaeda; e sabe que armas americanas estão chegando aos terroristas. E tudo que pode dizer é que [algum dia] pode vir a levantar a questão com os “parceiros” terroristas. Por enquanto, o governo Obama está completamente incorporado à ofensiva chefiada pelos terroristas da Frente al-Nusra.

É como se o 11/9 nunca tivesse acontecido. Mas, em vez de protestar contra o que é, de fato, um ataque conjunto Estados Unidos-al-Qaeda, o Departamento de Estado só faz ou manter silêncio discreto, ou elogiar a altas vozes os avanços dos terroristas da Frente al-Nusra como “a melhor coisa que poderia acontecer numa crise no Oriente Médio”, para citar Walter Russell Mead, em The American Interest.

Lina Khatib, diretora do Centro Carnegie para o Oriente Médio em Beirute, foi igualmente entusiástica: “o pragmatismo da al-Nusra e a evolução em curso mostram que [a Frente] pode vir a se aliada na luta contra o Estado Islâmico”, escreveu. “... Embora nem todos gostem da ideologia da al-Nusra, há um sentimento crescente no norte da Síria que é a melhor alternativa em campo – e aquela ideologia é um pequeno preço a pagar por considerável retorno”.

Um sentimento crescente entre os quais - alauítas e cristãos que, com razão, veem a al-Qaeda como uma ameaça genocida? Há cerca de uma dezena de anos, se alguém sugerisse uma aliança dos Estados Unidos com a al-Qaeda, fossem quais fossem os termos, candidatava-se a ser linchado. Agora, especialistas em política externa dos EUA, feito Mead e Khatib, sentem-se livres para militar a favor dessa aliança, sem medo de serem contraditados.

Por quê? Porque as relações entre EUA e al-Qaeda há muito tempo são muito mais ambíguas do que a política externa dos EUA (os dois partidos e toda a imprensa) gostariam que os americanos comuns conhecessem e compreendessem. Não apenas os EUA uniram-se aos sauditas como parteiros do moderno movimento jihadista durante a guerra contra a Rússia soviética no Afeganistão, como também, depois do 11/9, o governo Bush trabalhou aplicadamente para encobrir os laços muito próximos que havia entre Osama bin Laden e os antigos aliados sauditas dos EUA.

Cidadãos sauditas, inclusive membros da família bin Laden, foram ajudados a sair dos EUA, nos dias seguintes ao ataque às torres gêmeas, praticamente autorizados pelo FBI. Uma seção crucialmente importante, de 28 páginas, do relatório conjunto do Congresso sobre o 11/9, desapareceu; e um investigador da comissão foi demitido, por tentar examinar a questão do financiamento saudita [Ver Philip Shenon, The Commission: The Uncensored History of the 9/11 Investigation (New York: Twelve, 2008), pp. 109-11].

Bush e Cheney “recusaram-se a levantar o sigilo de qualquer coisa que tivesse algo a ver com a Arábia Saudita”, lamentou depois o ex-Secretário da Marinha, John F. Lehman, membro da comissão de investigação. “Tudo que tivesse a ver com os sauditas, por alguma razão, foi tratado como informação maximamente sensível”. [Ibid., 185-86.]

O governo Bush só fazia tentar “descobrir” laços entre bin Laden e Saddam Hussein – que, é claro, nunca existiram – e, ao mesmo tempo, trabalhava freneticamente para suprimir a grande quantidade de elementos que comprovavam as relações entre a al-Qaeda e a Casa de Saud.

Enquanto se prometia “passar fogo” em bin Laden, o real interesse de Bush era derrubar Saddam. No final, a política dos EUA para a al-Qaeda acabou por se revelar bem pouco diferente da política de Riad: hostilidade quando os terroristas ousavam bombardear a pátria-mãe, mas tolerância e até aprovação e estímulos, quando as atividades dos terroristas acompanhavam as metas da política externa dos Estados Unidos.

Enquanto o ISIS, desdobramento brutal da Al-Qaeda, limitou-se a infernizar o regime de Damasco, os EUA mantiveram-se firmemente com a cabeça virada na direção oposta para nada ver das atrocidades. Só quando o Estado Islâmico deixou o nicho original e atacou gente de Washington em Bagdá, então, afinal, os EUA mostraram-se muito ofendidos.

Mas onde funcionários do governo dos EUA sentiram-se antes obrigados a manter ocultas as relações com a al-Qaeda, o passo acelerado dos eventos no Oriente Médio começa a permitir que falem mais abertamente. Com os preços do petróleo em queda livre, e um rei linha dura chegando ao trono em Riad, um primeiro-ministro igualmente obcecado e linha-dura foi reeleito em Israel. No momento em que os EUA contam com a assinatura de acordo nuclear inédito e sem precedentes, para melhorar suas relações com o Irã.

Efeito de tudo isso, foi que as regras foram reformuladas, embora não exatamente como o povo dos EUA esperava. Onde o iminente acordo com o Irã levou rapidamente à especulação de que estaria em andamento “o realinhamento mais fundamental da política externa dos EUA numa geração”, a realidade seria o contrário disso, como Republicanos e Democratas corriam a garantir aos seus parceiros estratégicos, repetindo que a velha aliança continuava intocada.

Com isso, o controle férreo que Netanyahu tinha sobre o Congresso dos EUA apenas aumentou, enquanto a Arábia Saudita e outros estados árabes do Golfo receberam carta branca para fazerem o que bem entendessem contra o “crescente” xiita de Sanaa até Beirute que supostamente os ameaçaria.

Pouco mais de um mês depois de sua ascensão ao trono, o rei Salman reuniu-se com o Primeiro-Ministro turco, Recep Tayyip Erdogan, e acertou com ele que aumentaria o apoio aos rebeldes sunitas sírios, incluindo os grupos que tivessem laços com a al-Qaeda, os quais, antes, eram “proibidos”. Em vez de continuar a boicotar aqueles grupos, como os EUA queriam, a nova abordagem passava a ser apoiar a Frente al-Nusra e outras forças semelhantes, sob o argumento de que seriam as únicas capazes de dar conta do recado

O resultado fez-se ver poucas semanas adiante, quando al-Nusra e Ahrar al Sham anunciaram a formação de uma nova coalizão de nome “Exército da Conquista” [Army of Conquest (Jaysh al Fateh)] que incluiria também vários pequenos grupos islamistas. No final de março de 2015, a nova coalizão tomou Idlib, cerca de 50 km a nordeste de Jisr Ash-Shughur. No final de abril de 2015, armados com os mísseis TOWs fabricados nos EUA, tomaram Jisr Ash-Shughur.

Ansioso para blindar suas relações com os sauditas, ante o iminente acordo com o Irã, o governo Obama não se atreveu a objetar. A mesma lógica prevaleceu quando a Arábia Saudita lançou um ataque aéreo contra o Iêmen no dia 25 de março de 2015, em um momento no qual as negociações com o Irã entravam em alta rotação. Se Riad sentia que não lhe restava outra escolha que não fosse destruir o Iêmen, o mais pobre dos países do Oriente Médio, com raids noturnos e bombardeando escolas e hospitais... os EUA tampouco fariam qualquer objeção.

Como observou um funcionário do Departamento de Estado, “é importante que os sauditas saibam que temos um braço envolvendo os ombros deles”. Mais de mil iemenitas morreram em consequência desse “gesto”, cerca de 300 mil iemenitas tiveram de abandonar suas casas e fugir, enquanto a al-Qaeda na Península Árabe tirou vantagem do caos reinante para assumir o controle do porto de al Mukalla no leste do país e boa parte da província de Hadramawt em torno do porto.

Mas em situações em que, em outros tempos, os EUA usaram drones contra a al-Qaeda, sem se preocupar com o dano colateral entre a população civil local, dessa vez Washington parece acintosamente indiferente. Se os sauditas não se preocupam com mais esse avanço da al-Qaeda, por que os EUA se preocupariam?

Ao tempo em que essas políticas estão empurrando Síria e Iêmen rumo ao colapso, e gerando uma onda enorme de refugiados, o único consolo é que os sauditas também podem estar ruindo sob a excessiva pressão. Com seus terrenos montanhosos e profundas divisões tribais, o Iêmen há muito tempo é um caso de estudo de caos controlado. Mas Riad parece ter feito tudo o que pôde para tornar a situação ainda pior.

Como observaram diplomatas dos EUA, a insurgência houthi, que agora parece dividir o país ao meio, não começou sozinha. Ao contrário, começou por uma onda de propaganda wahhabista paga pelos sauditas, que agitou os piores medos da minoria xiita iemenita, e empurrou os houthis para a trilha da guerra. Como se pode ler em um telegrama secreto do Departamento de Estado em 2009, o salafismo promovido pelos sauditas “disseminou-se rapidamente no Iêmen ao longo das duas últimas décadas”, o que levou os houthis a sentirem-se “cada vez mais ameaçados”.

Na província de Sa’ada, no norte do Iêmen, onde antes se dizia que a província era “tão xiita que até as pedras são xiitas”, os moradores passaram a sentir-se sitiados, cercados por um número crescente de escolas e mesquitas sunitas-salafistas construídas com dinheiro dos ricos petro-xeiques sauditas.

O crescente sectarismo saudita insuflou o sectarismo houthi e empurrou o país para guerra civil total. Até diplomatas americanos criticaram os sauditas por tentar impor uma solução militar contra os houthis, em vez de buscar uma solução política.

Como o embaixador Stephen Seche dos EUA escrevia em novembro de 2009, Riad estava transferindo tanta ajuda militar para o presidente Ali Abdullah Saleh do Iêmen – atualmente, ironicamente, aliado dos houthis – que “é inevitável que as armas acabem no Iêmen, naquele florescente mercado negro de armas” (...). Dali, ninguém sabe onde as armas reaparecerão, e podem reaparecer até em mãos de grupos extremistas dedicados a atacar interesses ocidentais no Iêmen – como também, ironicamente, na Arábia Saudita e países vizinhos do Golfo”.

“É imperioso que o Departamento [de Estado]”, Seche continuava, “faça saber àqueles 'amigos do Iêmen' que eles estão trabalhando contra o objetivo que anunciam – de obter um Iêmen estável e seguro, com a quantidade imensa de dinheiro e ajuda militar que dão ao país”. Excelente conselho que, infelizmente, caiu em ouvidos moucos. Em vez de menos, os sauditas optaram por mais militarização – com as consequências desastrosas tão claramente previstas.

Mesmo assim, há sinais de que os sauditas podem ter abocanhado mais do que conseguem mastigar. Riad, por exemplo, anunciou inicialmente que o Paquistão estaria entre os dez estados de maioria sunita que participariam na operação anti-houthis. Mas quando Riad explicou que os soldados xiitas não seria bem-vindos, Islamabad colocou o pé atrás.

Com os xiitas representando 20% da população paquistanesa, a discriminação imposta pelos sauditas teria disparado tensões religiosas, e posto o país em guerra civil semelhante à que o Líbano conheceu. 

Ao mesmo tempo em que pouco fizeram contra o avanço dos houthis, os raides e bombardeios noturnos puseram à vista a incapacidade do reino para guerrear em terra. Fortes no ar, os sauditas não passam de tigres de papel onde se decidem as guerra: no chão.

Verdade é que o recente expurgo promovido pelo rei Salman, o mais amplo em décadas, pode ser sinal de que a insatisfação cresce nas fileiras da realeza, dado que se sabe que o príncipe Muqrin Bin Abdul Aziz, a mais importante vítima do expurgo, é conhecido por criticar a guerra contra o Iêmen. Quanto mais a intervenção militar vai-se afundando num beco sem saída, mais a dissidência se intensifica – e se há coisa que a autocracia absoluta saudita não pode tolerar, é dissidência política.

Por fim, há a prisão recente de 93 alegados membros do ISIS, acusados de planejar ataques à embaixada dos EUA e outros alvos. Se as acusações se comprovarem verdadeiras – o que é sempre um grande “se”, no que tenha a ver com a Arábia Saudita – será mais um indício de que, apesar de gastar bilhões para erguer uma barreira eletrônica high-tech de contenção ao longo de sua fronteira norte, o reino saudita continua vulnerável, sem conseguir manter longe o ISIS.

Não importa o quanto confabulem com a boa Al-Qaeda, continuam a ter problemas com a má. Com Abu Bakr al-Baghdadi prometendo exterminar até os 15% de xiitas que há na Arábia Saudita, tão logo chegue ao poder, o sinal é claro de como o extremismo religioso se aprofunda rapidamente, numa atmosfera do sectarismo o mais inflamável, que a Casa de Saud tanto fez para promover.

O resultado é uma colisão pelos quatro lados que está em preparação há anos. Lutando para manter coeso o seu raquítico império no Oriente Médio, Obama não consegue dizer não ao rolo compressor saudita. E, porque não pode dizer não aos sauditas, tampouco pode dizer não a parceiros dos sauditas, como a Al-Qaeda. Os EUA estão outra vez na cama com os mesmos terroristas que já dois presidentes durante quatro mandatos presidenciais juraram controlar e afastar.

Daniel Lazare é o autor de vários livros, incluindo The Frozen Republic: How the Constitution Is Paralyzing Democracy (Harcourt Brace, 1996).

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