12 de maio de 2015

Israel enfrenta ameaça “estratégica” do BDS, diz ex-chefe da CIA

David Petraeus está preocupado com o “mal iraniano ao redor do mundo” após as sanções econômicas serem levantadas como parte de um acordo nuclear.

Elhanan Miller


Créditos: Chuck Burton/ AP.

Tradução / Israel enfrenta uma “ameaça estratégica” materializada na campanha internacional Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS), disse segunda-feira o ex-chefe da CIA David Petraeus.

Em conversa com a escritora britânica Emma Sky na rua 92 de Manhattan sobre as suas experiências como comandante das forças estadunidenses no Iraque em 2007 e 2008, Petraeus disse que Israel está experimentando atualmente “o seu melhor momento e o seu momento mais preocupante”.

Apesar da sua solidez financeira e de ter derrotado eficazmente o Hezbollah na segunda guerra do Líbano em 2006, e quase ter eliminado os atentados suicidas dentro das suas fronteiras com a construção de uma barreira de segurança, Israel está cada vez mais isolado do Ocidente devido à persistência do conflito com os palestinos.

“Observa-se uma preocupação crescente face à possibilidade de uma ‘intifada internacional’, o movimento BDS, que pode converter-se em uma nova questão estratégica que terá em algum momento de ser resolvida... A demografia é outro desafio”, disse.

Em 23 de abril deste ano Petraeus foi condenado por um tribunal federal da Carolina do Norte a dois anos de liberdade condicional e uma multa de 100.000 dólares, acusado de filtrar documentos classificados à sua biógrafa e amante Paula Broadwell. O ex-general de quatro estrelas demitiu-se do seu cargo de chefe da Agencia Central de Inteligência (CIA) quando o assunto foi tornado público em novembro de 2012, tema que se negou a abordar na referida conversação de segunda-feira.

Petraeus elogiou o acordo nuclear assinado entre o P5+1 e o Irão em 2 de abril para - potencialmente - reverter o programa nuclear militar do Irã e destacou as significativas diferenças entre as versões estadunidense e iraniana do acordo, apesar deste ter já atingido esse nível de formalização. Advertiu, contudo, sobre a deriva destrutiva que um Irã reforçado poderia assumir na arena global, uma vez assinado um acordo final.

“O levantamento das sanções significa que o Irã disporá de muito mais recursos. Voltará a inserir-se na economia global... terá muitos mais recursos para perseguir o mal em todo o mundo e isso me preocupa”.

“A República Islâmica já demonstrou as suas devastadoras ambições em países como Iraque, Síria e Iémen”, assinalou. A figura chave que atualmente está a levar a cabo a participação regional do Irã é o chefe da Força Quds da Guarda Revolucionaria, Qassem Soleimani.

Petraeus recordou uma conversa com o ex-presidente iraquiano Jalal Talabani, em 2008, em que este lhe transmitiu uma mensagem direta de Soleimani. O funcionário iraniano disse que exerce um controle total sobre a política exterior do Irã e pediu ao general estadunidense que contactasse com ele diretamente.

“Estava a dizer-me ‘não façam papel de tontos com esses diplomatas iranianos, tratem diretamente comigo’”, recordou Petraeus, mas insistiu em que se negou a fazê-lo.

Numa crítica mordaz à participação dos Estados Unidos no Iraque depois de 2003, o ex-general referiu uma série de deficiências importantes. Em primeiro lugar os Estados Unidos invadiram o Iraque em março de 2003 “sem nenhum conhecimento dos matizes” da estrutura política e social do país. Antes da guerra, Petraeus nunca se tinha entrevistado com um perito civil que tivesse algum conhecimento do país.

Em segundo lugar os Estados Unidos foram precipitados ao estabelecer novas estruturas de governo em lugar de utilizar as já existentes. O atraso na criação de uma nova burocracia para governar o Iraque depois de terem sido desmanteladas as instituições existentes do Estado - um processo conhecido como “desbaacização”- deixou o país “num estado de desordem que persistiu durante muito tempo” e isolou a sua população sunita.

“É imperativo o uso das organizações existentes sempre que tal seja possível”, disse Petraeus.

“Ao contemplar um empreendimento importante... deveríamos realmente perguntar... ‘uma operação ou uma política irá retirar os maus das ruas?’ Se a resposta é que surgirão mais maus do que os que já há na rua, então provavelmente deveríamos sentar-nos debaixo de uma árvore até que tal intenção desapareça”.

“Mas se pudéssemos responder a essa pregunta com honestidade”, continuou, “não teríamos licenciado os militares iraquianos sem que [eles] soubessem qual iria ser o seu futuro, não teríamos feito a “desbaacização” sem um processo pensado para a reconciliação. Estas políticas criaram dezenas de milhares, se não centenas de milhares, de homens iraquianos cujo único incentivo era opor-se ao novo Iraque em lugar de o apoiar no momento em que mais queríamos que todo o mundo apoiasse este novo empreendimento. Naturalmente que, com o tempo, acabamos lutando contra muitos deles”.

Apesar disso, Petraeus pediu uma maior participação dos Estados Unidos no Médio Oriente, em lugar da política de retirada do presidente estadunidense Barack Obama que, insinuou, apenas permitiu que o Irã ganhe terreno na região.

“Temos que participar e liderar independentemente do cansaço da guerra que conduzimos”.

Elhanan Miller é repórter de assuntos árabes para The Times of Israel.

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