3 de junho de 2015

A revolta dos negros israelenses

Do racismo anti-palestino ao racismo anti-etíope

Orient XXI

Michel Warschawski*

Tradução / Como toda o mundo sabe, não é fácil ser-se palestino num “Estado judeu”. Mas a recente revolta da população judia de origem etíope recorda que não basta pertencer a esta religião para não se ser discriminado. E que, mesmo sendo judeu, vale mais ser branco que negro numa sociedade dividida social e etnicamente, e na qual o racismo institucional está legitimado pelos principais ministros do novo governo de Benjamin Netanyahu.

Qualquer pessoa que se interesse um mínimo por Israel conhece o conflito palestino-israelense. Com frequência chegam notícias de que a minoria palestina de Israel – que durante muito tempo foi chamada de “árabe israelense” – está submetida a uma discriminação estrutural. Mas conhecem-se muito menos as divisões e as discriminações no seio da própria população judaica israelense.

É verdade que por ser Israel constitucionalmente um “Estado judeu”, o fato de se ser judeu confere um estatuto privilegiado em relação a todos os demais cidadãos, independentemente da sua situação social ou origem étnica. Está escrito claramente, num número limitado de leis, mas está sobretudo ancorado na prática das instituições governamentais cujo objetivo prioritário continua a ser, cerca de 70 anos após a criação do Estado de Israel, reforçá-lo como “Estado judeu e democrático”.

Dito isto, há que acrescentar que os privilégios outorgados aos judeus pelo “Estado judeu” são desigualmente distribuídos. Segundo um recente relatório da Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE)[1], Israel é o segundo país industrializado no qual o fosso entre ricos e pobres é maior. Fica bem longe aquela imagem de Israel como modelo de Estado social – inclusive socialista – e igualitário. De fato, a ofensiva neoliberal promovida por Netanyahu entre 2003 e 2005, no seu período de ministro de Finanças do governo de Ariel Sharon, foi de uma selvajaria sem precedentes entre as nações industrializadas. Comparado com ele, o precedente que marcara o governo britânico de Margaret Tacher (1979-1990) parece uma ação da Madre Teresa de Calcutá.

As divisões que atravessam a sociedade judaica israelense são ao mesmo tempo sociais e étnicas, estando ambas com frequência imbricadas: os mais ricos são de origem europeia, os mais pobres da “África-Ásia”, segundo o termo utilizado pelo Escritório Central de Estatísticas de Israel. No mais baixo da escala encontra-se a população judia originária da Etiópia.

Discriminação quotidiana

Se, no começo dos anos 70, Golda Meir podia ainda dizer que um “verdadeiro judeu” fala necessariamente o yiddish, a revolta dos Panteras Negras[2] e o despertar da população judia oriental, originária do mundo árabe e da bacia mediterrânea, puseram fim a tais discursos, ainda que as discriminações estejam longe de ter desaparecido. Mas, e a população judia negra?

Na época de Golda Meir bastava ser um pouco moreno para se ser tratado com desdém de schwartze (negro). Há que imaginar, então, o que é ter a cor de pele do povo da Etiópia ou da Eritreia. Significa em primeiro lugar ser-se regularmente espancado pelas forças da polícia nos bairros do sul de Tel-Aviv, em particular pela polícia guarda-fronteiras e pela unidade especial encarregada de caçar “os infiltrados”. Como pode um polícia racista estabelecer a diferença entre um cidadão etíope (judeu)3 e um imigrante que fugiu da Eritreia ou do Sudão do Sul? “Todos negros!” Portanto, não é casualidade que a principal razão das concentrações de protesto da população etíope nos últimos meses tenha sido a denúncia da violência policial. No seu relatório de maio de 2013, o Procurador Geral do Estado, Yossef Shapira, fez o seguinte balanço das discriminações sociais:

  • 18% das pessoas de origem etíope está no desemprego (a taxa de desemprego em Israel é de 5,6%);
  • 65% da juventude etíope vive abaixo do limiar da pobreza (51,7% das famílias);
  • a maioria dos estudantes do secundário não conclui os estudos;
  • mais de 20% não conclui o serviço militar devido ao que o Exército qualifica de “comportamento particularmente mau”.

Mesmo tendo o Estado criado toda uma série de mecanismos para melhorar a situação, em particular nos centros de ensino médio, o balanço do Procurador é taxativo: todos fracassaram.

Um dos paradoxos da sociedade israelita – mesmo ocorrendo também em muitos outros países – é que há muitas pessoas de origem etíope na polícia de fronteiras e nos serviços penitenciários, funções que não precisam de nenhum nível de educação. Mas mesmo com a autoridade que o uniforme representa, são com frequência agredidos, tanto nos checkpoints quanto nas prisões, tanto mais que a maioria destas pessoas são frágeis fisicamente. Eu mesmo recordo de presos da penitenciária de Ma'assiyahu que chamavam o seu carcereiro de origem etíope nestes termos: “Vem cá, negro, imediatamente!”

A igualdade é um combate

No entanto, desde há alguns anos somos testemunha de uma viragem: nasceu uma nova geração, que cresceu em Israel, fez o seu serviço militar e sobretudo adquiriu um sentido de reivindicação e de luta. Ser tratados como menos que nada já não é tão habitual quanto na época dos seus pais. Mesmo continuando fortemente unidos às suas tradições, os e as jovens etíopes sentem-se israelitas e querem ser vistos e tratados como tal. Não é por acaso que uma das palavras de ordem mais repetidas durante a grande manifestação de Tel-Aviv de 3 de maio de 2015 foi: “Somos judeus!” Alguns não duvidavam, mesmo, em acrescentar: “e não árabes”. Com frequência, nos debates, esta juventude israelita de origem etíope – é assim que querem ser definidos – argumentam com o seu serviço militar, ou mesmo os seus “atos de guerra” nos territórios palestinianos ocupados.

O espancamento por polícias de um soldado etíope em uniforme foi um dos elementos detonantes das últimas manifestações. Se tivessem um mínimo de conhecimento de Israel, teriam podido aprender, da experiência dos drusos e dos beduínos, que o serviço militar em Israel não é em caso algum uma promessa de escapar à discriminação. A igualdade é uma luta, em Israel como noutros lados, mesmo quando se é judeu no “Estado dos judeus”.

“Somos tratados como árabes”

As manifestações da população etíope foram reprimidas pela polícia com uma violência exagerada, tratando-se de manifestações de pessoas judias. “Têm-nos tratado como árabes”, repetiram os e as manifestantes a quem os quisesse ouvir. Há que reconhecer que não se tinham comportado como anjinhos, rompendo o estereótipo do “simpático” etíope, não duvidando em atacar a polícia para libertar um dos seus colegas.

Se a polícia reagiu anunciando a acusação dos manifestantes detidos por atos violentos contra as forças da ordem, o governo, por sua vez, decidiu instalar uma comissão cujo mandato é fazer propostas para a melhoria das condições de vida da população de origem etíope. Para esta comissão foram cooptados alguns notáveis da comunidade, em particular qais – os rabinos etíopes – que, por outro lado, o Grande Rabinato de Israel não reconhece.

É no entanto pouco verosímil que a nova geração de etíopes se reconheça nesses notáveis, e tudo indica que a sua revolta vai prosseguir. Extirpar o racismo antinegro da sociedade israelita, e em primeiro lugar da sua polícia, é um combate a longo prazo que não se pode separar do combate que travam os palestinianos israelitas pela igualdade. A convergência das lutas pela igualdade é uma necessidade. Em Israel, é revolucionária.

Notas:

[1] Le point sur les inégalités de revenus. Le creusement des inégalités touche plus particulièrement les jeunes et les pauvres, 2014.

[2] O movimento Panteras Negras israelita foi um movimento de protesto contra as discriminações sofridas pelos judeus mizrahim (orientais). Foi fundado em 1971, próximo de Jerusalém, seguindo o modelo do movimento afroamericano Black Panthers.

[3] O termo falasha, que significa exilado ou imigrante em amárico, é utilizado com frequência para designar a população israelita de origem etíope, mas não por essa população que, considerando-o pejorativo, usa em vez dele o termo Beta Israel (a casa de Israel). Este último termo tende a ser substituído em Israel por “judeus etíopes” ou, mais simplesmente, por etiopim (etíopes).

* Jornalista israelense e ativista de esquerda, é fundador e presidente do Alternative Information Center (AIC). Livro mais recente (com Dominique Vidal): Outro Israel é possível, les éditions de l’Atelier, 2012.

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