23 de junho de 2015

Esta "elite", cujos cidadãos tem todas as razões para desconfiar

Daniel Vanhove


Tradução / Os dias, as semanas, os meses, os anos passam e assemelham-se... Poderíamos mesmo acrescentar, séculos passam e também são semelhantes... São sempre os mesmos que ganham e os mesmos que perdem... De um lado os que dominam, do outro os dominados. A história parece imutável, a este nível. Hoje em dia a principal diferença reside na informação. Em tempos, era difícil de aceder, agora é superabundante ao ponto de muitos se perderem e acabarem por tudo misturar... o que nos permite (quase) dizer que estes não estão melhor informados que antes. A quantidade aí está, sem dúvida, mas com uma perda de qualidade óbvia... Como qualquer outro produto, neste mundo "mercantilizado" ao exagero, a informação tornou-se objeto de consumo...

Há poucos dias, a sra. Lagarde, diretora executiva do FMI, a funcionária internacional mais bem paga do mundo, com um salário de cerca de 500 mil dólares por ano (ou seja, quase 32 mil euros/mês) do qual não paga impostos (!) em conformidade com as artigos 34º e 38º da Convenção de Viena de 1961 sobre relações diplomáticas, esteve em Bruxelas no quadro das Grandes Conferências Católicas. Além de questões que se podem colocar sobre a presença da diretora do FMI em tais conferências, o mais incrível reside sem dúvida no conteúdo do discurso feito pela sra. Lagarde. Sem pestanejar, ela asseverou que "todos ganharão com uma redução das desigualdades excessivas". O público na conferência "católica" ouviu estas máximas "piedosamente" sem que alguém tenha tentado infligir a esta senhora o único tratamento que ela merece, ou seja, lançando-lhe um pastelão! Perguntamo-nos se estamos a sonhar (ou antes num pesadelo) ao ouvi tais declarações. E como não reagir!? Que ela comece, portanto, por rever o seu salário e os da sua comitiva...

A sra. Lagarde enumerou uma quantidade de boas intenções, sugerindo ainda que: "Nossos estudos mostram que, contrariamente às ideias vulgarizadas, os benefícios de um aumento do rendimento, vêm dos de baixo e não dos do topo". Não sabemos em quem ela pensava nestas "ideias vulgarizadas"'... Quanto a nós, do povo, nós o sabemos há muito e não tínhamos necessidade que a diretora do FMI viesse com esta tirada. Teria a sra. Lagarde encontrado a direção certa para cortar no bom sentido? Mas, sinceramente, haverá um cargo no mundo que mereça aquele pagamento, para não mencionar todas as vantagens que o acompanham? A resposta deve ser clara: nenhum! (ver Christine Lagarde : "Tout le monde gagnera à une réduction des inégalités excessives")

O mais interessante da história é ver com que tenacidade, com que ressentimento a mesma diretora, tão bem intencionada quando se trata de dar lições de moral num ambiente "católico", procede de comum acordo com as altas instâncias internacionais (UE-BCE-FMI, a chamada "Troika") que puseram a Grécia de joelhos. Viver com 32 mil euros/mês sem pagar impostos e reivindicar para a Grécia esforços suplementares para os desempregados e aposentados, que tentam sobreviver com uns 500 € por mês é uma vergonha e uma impostura que mereceria ser de imediato destituída do cargo e entregar 95% do que tem recebido à custa dos mais pobres que veem tais números e ficam simplesmente paralisados na sua dramática situação, não sabendo muitos deles como terminar o mês. Para memória, lembremos que a taxa de suicídio aumentou de maneira endêmica na Grécia após as medidas de austeridade, defendidas pelas pessoas atacadas de autismo que nos governam.

E toda esta gente que gira entre cúpulas e reuniões especiais para ver como esgotam ainda mais os que já não tem quase nada, esses indivíduos arrogantes que se espanejam atrás dos seus mandatos imerecidos, esta elite de nutridos que abomina cada vez mais os povos não deve surpreender-se de ver a Europa transformar-se na cor castanha de que eles afirmam não entender as razões e fazer todo o possível para a combater. Eles são os primeiros responsáveis e com eles a comunicação social que controlam e manipulam. Raramente, sem dúvida, o mundo tem enfrentado tanta exibição de cinismo.

Alguns ainda podem resmungar que o principal problema da Europa é a imigração... é realmente a árvore que esconde a floresta. O grande problema da Europa (e da globalização em geral) é precisamente estas desigualdades que se tornaram intoleráveis entre os cada vez mais ricos e os cada vez mais pobres. Imigração maciça é uma das resultantes. Entre os patrões de grandes empresas que se concedem salários de uma indecência sem nome estes funcionários com salários excessivos, nunca responsáveis pelos seus vários erros, no entanto múltiplos, mas com a renovação dos seus mandatos assegurada neste jogo de dar e receber entre amigalhaços. Isto, enquanto os pensionistas, os desempregados, os jovens, os trabalhadores, cujas condições são precarizadas ao longo dos anos, a contradição é hoje enorme. Chegará o dia onde a revolta popular virá surpreende-los sob as suas janelas e eles sem dúvida vão se espantar, vivendo na sua bolha acética e sombria, feita de diretivas e decretos que não são do interesse do cidadão...

Atualmente, joga-se o destino da Grécia, os outros povos de países europeus vizinhos olham e compreendem pouco a pouco como esta elite organiza-se para despedaçar um país e enriquecer à sua custa. Porque é a Europa e seus banqueiros que enriquecem sobre as costas da população, fornecendo empréstimos a juros que noutras circunstâncias seriam qualificados de usurários...e vem dizer-nos em seguida, para "reduzir as desigualdades excessivas"... 

Que impostura a destes funcionários! Que parasitas! Isto verifica-se quase todos os dias. Não se estava a ver este jogo de víboras aquando da nomeação de J.-C. Junckers a seguir ao Sr. Barroso à frente da Comissão? Belo exemplo para os povos, com efeito nomear para a chefia da Comissão um dos feitores do paraíso fiscal chamado Luxemburgo! E pensam que a população não tem memória e não se lembra? Tomam-nos portanto além do mais por imbecís... Não satisfeitos em ter renunciado há muito a qualquer probidade, de não terem a mínima integridade pessoal, de estarem muitos deles metidos em sombrias tramoias e múltiplas fraudes, arrastam-se na baixeza para obter mais um lugar onde poderão ainda por mais alguns anos encher os bolsos... Eis a ideia que fazem das populações que pretendem gerir.

Em 27 de junho, em Montpellier, numa sessão dedicada ao partido Syriza, um responsável local explicou-nos que o que tinha permitido o sucesso deste partido "de esquerda", tinha sido o Pasok (partido social-democrata grego que faz parte do partido dos socialistas europeus e da Internacional Socialista – pois claro!) já não ser qualificado nem designado há longo tempo pelos Gregos como um partido "da esquerda". Enquanto noutros países europeus, os partidos socialistas que levam a cabo em concertação uma política neoliberal idêntica à da direita, são considerados como sendo de "esquerda", a confusão reina no seio da população. Para meditar...

Vive la vraie gauche de Syriza… vive la vraie gauche de Podemos… et de celles et ceux qui dans d’autres pays, leur emboiteront le pas et oseront lancer à cette Europe de technocrates et de financiers qui nous auront empoisonnés la vie pendant trop longtemps, le mot que Cambronne adressa aux Anglais qui les sommaient de se rendre et de capituler !

P.S.: Sra. Lagarde acaba de anunciar que, se solicitada pelas instâncias, se sente pronta para "servir" num novo mandato à frente do FMI, "esta bela casa", acrescentou ela...

Assim se vê a hipocrisia e a duplicidade no trabalho quando estes responsáveis confundem "servir" e 'servir-se"...

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