12 de junho de 2015

G7: Divisas para proteger, países para bombardear

Salve-se o número um e danem-se as consequências

Vijay Prashad

CounterPunch: Tells the Facts and Names the Names

Tradução / Os membros do G7 acabam de concluir sua 41ª reunião de cúpula. Os líderes do Canadá, França, Alemanha, Itália, Japão, Reino Unido e Estados Unidos se reuniram em um grande palácio bávaro, o Schloss Elmau. Era um local adequado para os mestres do universo.

Eles afirmam que a manutenção da ordem mundial é a sua ocupação. Na verdade, o que eles estão mais interessados ​​em na preservação de seu poder a qualquer custo.

A primeira reunião do G7 aconteceu em 1974 no Castelo de Rambouillet – grande castelo feudal na França. O objetivo daquela reunião era que os estados do G7 encontrassem estratégia comum para enfrentar o cartel de petróleo da Organização dos Países Produtores de Petróleo (OPEP) e para a Nova Ordem Econômica Mundial (NOEM).

A OPEP tinha limitado a oferta, para elevar os preços do petróleo cru, o que ameaçava o crescimento econômico nos países industrializados avançados. A NOEM havia sido aprovada na Assembleia Geral da ONU, com apoio dos estados do Terceiro Mundo.

E exigia-se pois uma nova arquitetura econômica e política internacional para beneficiar as nações mais pobres. O G7 foi criado para quebrar as duas coisas, a OPEP e a NOEM. Em larga medida, conseguiu.

Engolir o mundo

Depois da extinção da URSS em 1991, o G7 incluiu a Rússia em sua órbita, e em 1994 converteu-se em G8. A questão então era criar suficiente consolidação que impedisse a emergência de um novo polo econômico e político no planeta – representado pelo crescimento da China.

Com a crise financeira mundial em 2007, o ocidente esfarrapado virou-se na direção do bloco dos países BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), em busca de liquidez financeira.

A promessa foi que se esses estados, principalmente a China, oferecessem fundos ao sistema financeiro mundial, o G8 seria suspenso em favor de um G20. A China aceitou. A promessa de esvaziar o G7 foi rapidamente posta de lado, no instante em que os bancos sentiram-se seguros. O G20 foi adiado.

A confiança cresceu no ocidente depois da intervenção da OTAN na Líbia, em 2011. Hoje se vê que não apenas o sistema financeiro foi salvo, mas o intervencionismo “humanitário” também ofereceu legitimidade suficiente ao ocidente para usar sua força militar superior e passar a “governar” o planeta.

A pressão do ocidente contra o Irã a partir de meados dos anos 2000 intensificou-se, quando as tensões com a Rússia vieram afinal à luz em torno da Síria e da Ucrânia. O G8 suspendeu a Rússia, como membro, em 2014. Na mais recente reunião do G7, a Rússia foi alvo da retórica mais ensandecida. O Presidente dos EUA, Barack Obama perguntou sobre o presidente da Rússia, Vladimir Putin: "Será que ele continua a destroçar a economia de seu país e a manter o isolamento da Rússia, movido por um mais orientado desejo de recriar as glórias do império soviético?"

Se o império soviético já vai longe, há muito tempo, a ambição ocidental de vir a comandar a política mundial permanece intacta. Contradições na política do G7 afetam a Europa muito mais do que afetam os EUA. Dois grandes fornecedores de energia para a Europa ocidental – Irã e Rússia, estão sob as sanções promovidas pelos EUA através do G7; e a Líbia, outro grande fornecedor de energia, foi completamente destruída, literalmente, na guerra da OTAN e na sequência.

É a Europa que se vê obrigada a suportar os mais pesados custos dos excessos do G7. A chanceler alemã Angela Merkel, poderia perfeitamente perguntar a seu colega Obama se o que ele mais deseja é destruir a economia da Europa, movido pela malfadada ambição de perpetuar a hegemonia dos EUA.

O G7, como eu descobri durante as pesquisas para meu livro sobre o grupo, só muito raramente divulga seus principais debates.

Os pronunciamentos públicos nos anos 1970s foram gestos sobre estabilidade e ordem. No privado, os governantes discutiram em termos bem práticos o que fazerem para mais açoitar a OPEP e o bloco do Terceiro Mundo por todos os meios necessários, inclusive gerando instabilidade.

Só bicos, nada de ação

Na mais recente reunião, os mestres do universo prometeram deixar para trás os combustíveis fósseis até o final do século XXI (dentro dos próximos 85 anos); e acabar com a pobreza no mundo, até 2050. Não havia programa de ação, apenas promessas vazias.

O que foi discutido em privado teria sido de muito mais interesse, mas vamos ter que esperar algumas décadas para ler as transcrições das reuniões privadas.

Na antessala, esperando que lhe concedessem uma audiência, estava o Primeiro-Ministro do Iraque, Haider al-Abadi. Disseram a ele que o G7 “concordou em trabalhar junto para continuar a combater o terrorismo”. Como farão tão coisa? O G7 não tem nem a mais pálida ideia. "Ainda não temos estratégia completa", disse Obama na conclusão da reunião, "porque isso exige compromissos a serem assumidos pelos iraquianos."

Já faz um ano que os EUA e seus aliados – apoiados pelo G7 – bombardeiam sem parar o Iraque e a Síria, mas, pelo que agora se vê, sem qualquer tipo de estratégia. "Ainda não temos plano finalizado, porque os iraquianos ainda não nos deram plano algum", disse Obama.

Os mestres do universo exigem para si o direito de determinar todos os assuntos planetários, de usar força militar como bem entendam, e ainda mostram desprezo absoluto pelos seus aliados subordinados.

Obama se afastou de Abadi, que parecia estar ansioso para dizer mais. Obama começou um conversa animada com o Primeiro-Ministro da Itália, Matteo Renzi, e com a Presidente do FMI, Christine Lagarde. Abadi ficou sozinho. Ninguém prestou atenção a ele. Acabou por se afastar. Parece que não percebeu que foi descartado quando Obama se afastou.

Os mestres do universo estavam ocupados um com o outro. Eles têm divisas para proteger e países para bombardear.

Vijay Prashad é o editor-chefe da LeftWord Books, Delhi, Índia. Ele é o autor de No Free Left: the Futures of Indian Communism.

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