2 de junho de 2015

Mentalidade binária e política cega no Mar do Sul da China

Tom Plate

China Daily

Créditos: Nguyen Minh/ Reuters.

Tradução / A rivalidade entre grandes potências nem sempre tem de gerar atrito. A competição pode produzir excelência e até boas ideias novas. Um bom exemplo é o Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura (BAII).

Enquanto praticamente todos os países do mundo entusiasmaram-se com a ideia desde o início, os EUA não apenas se puseram a criticá-la, como também pressionaram seus aliados, tentando impedi-los de integrar-se ao novo banco. Porque a ideia não foi deles - foi ideia da China. E daí? Até o Reino Unido, com a sua chamada "relação especial" com os EUA, estava entusiasmado.

Provavelmente, outras boas ideias virão da China - certamente virá de lá alguma boa ideia para acalmar a tempestade no Mar do Sul da China. Então a razão reinará sobre as águas, e a disputa insana por recursos será devidamente contida nos canais da diplomacia.

Mas um grande obstáculo para o entendimento e apreço mútuo é a mídia americana. Sobre esta questão, a sua abordagem foi horrível – tendenciosa e ideológica.

Por que tanto insistem em pintar a China como se fosse algum peixe gigante do mal, como o monstro do filme Tubarão, e os EUA, como um golfinho risonho do bem? O mundo real é uma selva complexa; a vida real geopolítica não é esse tolo arranjo binário.

A China - nota-se, para efeitos de precisão histórica e de equidade - ratificou formalmente a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar para todas as nações há muito tempo, mas os EUA não ratificaram e a adiam o mais que podem. Ao longo dos anos os obstrucionistas no Senado dos EUA impedem a ratificação formal daquele acordo, sob o argumento de que a Convenção da ONU para a Lei do Mar pode vir a impossibilitar o livre trânsito de interesses dos EUA. Ora, a lei internacional existe para ser aceita e respeitada por todos os povos, não para ajudar alguns “favoritos” – e sempre os mesmos. Essa é a boa notícia.

A má notícia é que os EUA ainda insistem em tentar forçar a China e qualquer outro país a “respeitar a lei internacional”, mas só nos casos em que a “lei” vise exclusivamente a manter o status quo geopolítico. Essa é atitude que será muito difícil manter, em tempos em que toda a Ásia - não apenas a China - cresce drasticamente. Nações que ainda acreditam que continuarão a usufruir no século XXI o mesmo status que tiveram no século XX farão bem se reconsiderarem todas essas suas crenças.

Liderar, seja em Washington seja em Pequim, exigirá que ambas as capitais tenham clara compreensão uma da outra. Se a política chinesa se baseasse no pressuposto de que os EUA estariam em rápido declínio, a China erraria. Se a política americana pressupõe que a velha China tenha de ser contida no lugar que lhe competia, então alguém está viciado em pílulas para dormir pesados. A tarefa dos dois governos é acomodar a inevitabilidade da China, de modo a maximizar os interesses comuns de todos - e evitar a guerra.

As piores políticas americanas sempre serão as políticas da hipocrisia: opor-se a uma boa ideia, como é o BAII, por razões de interesse; e tentar impor às questões do Mar do Sul da China uma mentalidade analítica simplória, de Guerra Fria, que não dá conta da realidade contemporânea. Nesse ponto, os EUA têm muito com que se preocupar: qualquer envolvimento mais ostensivo dos EUA pode converter a questão do Mar do Sul da China em um confronto violento de superpotências, que ninguém quer.

Em vez de aumentar o próprio perfil no Mar do Sul da China, os EUA devem acalmar-se e mover-se com a máxima cautela, não importa quão supostamente santas são suas intenções. Bill Hayton, observador das questões asiáticas, em seu inestimável novo livro The South China Sea: The Struggle for Power in Asia cita um diplomata asiático muito respeitado: "Se você empurra uma superpotência contra outra, a dinâmica de superpotência domina a questão e marginaliza qualquer solução pacífica." Nisso, acertou perfeitamente.

O autor, um ex-editor das páginas editoriais do Los Angeles Times e fundador da Ásia Media International, é um distinto scholar dos Estudos da Ásia e do Pacífico da Universidade Loyola Marymount.

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