7 de junho de 2015

O declínio mundial das reservas cambiais estrangeiras

Prabhat Patnaik

Peoples Democracy

Tradução / Se alguém somar as reservas cambiais estrangeiras de todos os países do mundo, incluindo no termo "reservas" o que estes países mantêm na forma de ouro, US dólares, outras divisas de reserva, Direitos Especiais de Saque do FMI e também ativos líquidos tais como Títulos do Tesouro (Treasury Bills) a curto prazo do governo estadunidense, então a soma total em agosto de 2014 chega a US$12,03 bilhões. Aproximadamente dois terços deste montante é detido por países em desenvolvimento, cuja acumulação de reservas começou a aumentar após a crise financeira asiática do fim dos anos noventa. De fato, em grande medida devido a este aumento, a magnitude das reservas cambiais estrangeiras aumentou cinco vezes entre 2004 e 2014 para o mundo como um todo. Entretanto, desde então tem havido um declínio na magnitude total das reservas cambiais estrangeiras. Em março de 2015 esta magnitude declinou para US$11,6 bilhões, o que, embora de modo algum uma gota insignificante, ainda assim representa uma gota. E além disso esta gota não é alguma ocorrência acidental, um mero acaso; representa uma tendência que tem implicações muito graves para a economia capitalista mundial.

Uma parte do declínio deve-se sem dúvida a um puro "efeito-preço". Uma vez que o valor do Euro e outras divisas de reservas está a declinar em termos de dólar US, haveria algum declínio no valor das reservas totais quando medimos tudo em termos de dólar. Mas isto não explica todo o declínio observado. Além disso, a própria queda no valor do Euro e de outras divisas de reservas em termo de dólar revela-se o resultado do mesmo fator que também explica, independentemente do "efeito-preço", o declínio em reservas. O que é este fator?

Considere-se, para clareza de entendimento, um mundo muito simples onde haja somente dois segmentos: um país com divisa de reserva e o "resto". Num mundo assim há dois meios pelos quais a magnitude das reservas pode aumentar: um, se o país da divisa de reserva tiver um déficit em conta corrente na balança de pagamentos com o "resto" a qual paga proporcionando documentos de dívida (IOUs) que são mantidos por estes últimos como reservas. Agora, o principal país da divisa de reserva do mundo, os EUA, tem na verdade estado a incorrer um persistente déficit de conta corrente na sua balança de pagamentos o qual tem contribuído para o crescimento das reservas de cambiais do mundo. Mas o recente declínio nas reservas cambiais estrangeiras não pode ser explicado por este fator, uma vez que os EUA não desenvolveram subitamente um excedente da conta corrente. Por outras palavras, o comércio ou explicações com base na conta corrente simplesmente não funcionam neste caso.

A outra razão pela qual as reservas de câmbio estrangeiro podem elevar-se ou cair fica a dever-se a movimentos privados transfronteiriços de capital. No nosso caso simples, se os detentores da riqueza das reservas de divisas do país disserem: ao invés de manter esta divisa em casa como depósitos nos seus próprios bancos decidirmos trocá-las pelas divisas do "resto", as quais o banco central destes permite a uma taxa de câmbio fixa, e mantivermos esta divisa do "resto" como depósitos nos bancos da primeira, então as reservas mundiais de câmbio estrangeiro teriam de subir. A divisa de reserva que era mantida em bancos privados do país da divisa de reserva, e assim não era contada como reservas de câmbio estrangeiro, agora passa a ser detida pelo banco central do "resto" e conta como reserva de câmbio estrangeira, em virtude das decisões de detentores de riqueza privada. Em exata analogia, se detentores de riqueza, quer sejam ou não pertencentes ao país da divisa de reserva, decidirem mudar a sua riqueza para fora do "resto" e, em vez disso, passarem a ser detentores de títulos no país da divisa de reserva, então a magnitude das reservas de câmbio estrangeiras à escala global cairia.

O súbito declínio das reservas de câmbio estrangeiras é o resultado desta decisão de escolha de ativos por parte dos detentores de riqueza mundiais. É uma consequência não daquilo a que os economistas chamam decisões de "fluxo", relativas a déficits e/ou excedentes comerciais ou de balança corrente, mas de decisões de "stock", atinentes à escolha, por parte dos detentores de riqueza, da forma como preferem manter a sua riqueza.

Regresso massivo dos investidores aos EUA

Mais especificamente, o que se está a passar na economia mundial hoje em dia é que os detentores de riqueza estão a transferir esta para os EUA, mantendo-os sob a forma de ativos denominados em dólares, enquanto antes aqueles estiveram a mudar para ativos espalhados pelo mundo, fora dos EUA. Na Índia sabemos bem disso através do aumento massivo das nossas reservas de câmbio estrangeiras, as quais foram construídas não em virtude de quaisquer excedentes de balança corrente, como aconteceu na China (porque de fato, e pelo contrário, nós tivemos déficit), mas por causa das chegadas de fluxos financeiros à Índia através dos Investidores Estrangeiros Institucionais (IEIs), atraídos pelos retornos elevados (inclusive ganhos financeiros) que a economia indiana tem vindo a oferecer.

Em suma, estamos perante uma mudança no padrão dos fluxos de capital autônomos, com os detentores de riqueza regressando aos EUA. Todos os fenômenos que observamos no presente, como por exemplo um declínio na magnitude nas reservas de câmbio mundiais; uma apreciação do valor do dólar relativamente a outras moedas importantes à escala mundial (a ponto de o governador do Banco de Reserva da Índia poder consolar-se com base no fato de a Rupia não se ter comportado tão "mal" como várias outras moedas); o "efeito-preço" nas reservas de câmbio que mencionamos acima, o que faz o valor daquelas descer ainda mais quando medido em dólares; as atribulações do Euro, que está a perder severamente para o dólar; o colapso do preço dos ativos na China na Índia e alhures; todos estes fenômenos são explicáveis em termos da escolha de ativos por parte dos detentores mundiais de riqueza, nomeadamente o fato de eles estarem a refluir em massa para os EUA. Mas a questão permanece: porque é que ocorre o referido refluxo para os EUA?

Uma razão óbvia para isso é o fim anunciado do "facilitamento quantitativo" ("quantitative easing") por parte da Reserva Federal (Fed). Aquela andou a bombear enormes montantes de dólares na economia dos EUA, com o propósito de manter próximas de zero não apenas as taxas de juro de curto prazo, mas também as de longo prazo, de forma a estimular a economia. E estes dólares espalharam-se por todo o mundo, à procura de oportunidades de "investimento" lucrativas. Agora o Fed decidiu acabar com este "facilitamento quantitativo" e sugeriu mesmo que as taxas de juro nos EUA iriam aumentar nos próximos dias, o que torna o refluxo em massa dos investidores aos EUA fácil de compreender.

É necessário acrescentar a isto um fator que é simultaneamente uma causa e uma consequência do mencionado refluxo massivo. No caso das bolhas do preço dos ativos, à medida que elas vão crescendo, o crescimento torna-se causa de maior crescimento subsequente, o que aliás faz delas precisamente "bolhas". Da mesma forma, se por alguma razão ocorre um colapso, então este tende a reforçar-se a si mesmo. Um crescimento esperado das taxas de juro nos EUA, por exemplo, estimulando umas quantas saídas iniciais de fundos da Índia, induz mal-estar nos mercados bolsistas neste país, levando a descidas no preço dos ativos. E isto, por sua vez, estimula uma subsequente fuga de fundos das bolsas indianas, os quais se escapam para investimentos nos EUA, o que por sua vez induz uma descida subsequente dos preços dos ativos bolsistas indianos, e assim sucessivamente. Os colapsos das bolhas de preços na Índia e na China são ambos uma causa da deslocação dos detentores de riqueza para ativos nos EUA, mas são igualmente gerados inter alia pela dito deslocamento.

Este deslocamento, todavia, irá agravar ainda mais a crise capitalista mundial. Pode pensar-se que, em virtude do declínio das outras divisas face ao dólar, os países respetivos seriam ajudados através da expansão das suas exportações; mesmo sendo isso uma verdade, dado que a referida expansão das exportações ocorreria à custa dos EUA, não existiria qualquer aumento necessário na procura mundial como um todo e portanto não haveria alívio para a crise do mundo capitalista tomado em bloco. Adicionalmente, e por muito que no passado esses efeitos das desvalorizações cambiais se tenham realmente feito sentir, a saída de fundos especulativos estimulada pela dita desvalorização (e antecipando desvalorizações ulteriores) pode tornar-se uma torrente impetuosa, induzindo uma aguda crise financeira nestes países. Para evitar as consequências de tal eventualidade, os países adotariam então medidas de contração, não apenas na esfera fiscal, onde em todo o caso a "austeridade" campeará, mas mesmo na esfera monetária, onde as taxas de juro serão drasticamente elevadas para impedir a fuga de fundos. Uma desvalorização cambial, nesse caso, paradoxalmente gera uma resposta tal ao nível das políticas econômicas que induz uma contração na economia. E se isto ocorre no resto do mundo como um todo, então ocorrerá uma contração geral deste segmento, por causa da fuga em massa dos detentores de riqueza para os EUA.

Simultaneamente, nos próprios EUA o aumento da taxa de juro que o Fed promete efetuar aniquilará qualquer recuperação que tenha ocorrido. Considerado o mundo na sua totalidade, por conseguinte, a perspetiva é de um aprofundamento da crise. Noutros termos, a subida das taxas de juro nos EUA provocará necessariamente uma subida das taxas de juro no resto do mundo, o que tenderá a acentuar a recessão mundial. Dado que os meios fiscais visando o estímulo à economia mundial estão postos de lado na corrente era de "austeridade", não existem fatores obstaculizando a tendência para o acentuar da recessão.

Conservadorismo ideológico

Mas então defrontamos uma questão que tem de ser respondida: porque é que essa atitude política é adotada? Radicais americanos tendem a acusar o Partido Republicano por esse fato, atribuindo a tal atitude política à alegada estupidez e aos preconceitos daquele partido. E é verdade que o aumento da taxa de juro que o Fed anunciou ir levar a cabo, oficialmente como medida de prevenção da inflação, é bastante indesejável neste momento, até porque a inflação nos EUA está muito abaixo dos 2 por cento correspondentes ao "objetivo-inflação" do próprio Fed. Existe aqui, portanto, inquestionavelmente um elemento de conservadorismo ideológico subjacente às medidas que estão a empurrar a economia mundial para o aprofundamento da recessão.

Ao mesmo tempo, porém, não devemos limitar a acusação ao tal conservadorismo ideológico. O fato é que a enorme acumulação de riqueza sob a forma financeira, a qual alguns autores designaram como "financeirização", o poder dos interesses prestamistas, cresceu duma forma tal, sem precedentes em toda a história do capitalismo, e com ele também o poder da fobia da inflação, que faz descer o valor "real" do dinheiro e dos ativos financeiros denominados em termos monetários. Atribuir-se a importância que se atribui à redução da inflação é um reflexo disto mesmo. E a truncagem da recuperação que mal arrancou, por medo de que ela possa causar inflação, também é um reflexo disso mesmo.

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