19 de junho de 2015

Terrorismo racista é tão antigo quanto a América

Brit Bennett

The New York Times

Tradução / Minha avó contava sobre os homens da Ku Klux Klan que andavam a cavalo pela noite na Luisiana. Ela os via com suas roupas brancas que brilhavam na escuridão como também via as pessoas negras que se escondiam nos pântanos para se escapar deles. Antes que ela chegasse ao mundo, durante a Reconstrução, os membros da Ku Klux Klan acreditavam que podiam assustar uma população negra supersticiosa e com uma liberdade recém-conquistada. Vestiam trajes aterrorizantes, porém não se escondiam totalmente – muitos antigos donos de escravos e alguns vizinhos podiam ser reconhecidos por baixo dos lençóis brancos. Eles eram exorcistas mascarados, uma maneira de manter o controle usando o terror. Além de matar e golpear os negros, muitas vezes afirmavam ser os fantasmas dos soldados confederados mortos.

É possível argumentar, então, que não existem fantasmas da Confederação, porque a Confederação ainda não morreu. As estrelas e as barras vivem orgulhosamente estampadas nas camisetas e nas placas dos carros; o símbolo por excelência da escravidão, a bandeira, ainda tribula sobre o Capitólio da Carolina do Sul. O assassinato não parou e como exemplo está a morte recente de nove pessoas de raça negra em uma igreja em Charleston. O suspeito, que é de raça branca e que na sexta-feira foi acusado de nove assassinatos, disse ao grupo de estudo bíblico que depois massacrou: “Tenho que fazê-lo... Vocês violam nossas mulheres e estão tomando nosso país e precisam ir embora”.

Os meios de comunicação estão sendo reticentes em classificar o tiroteio de Charleston como terrorismo, apesar do quão perturbador ser o eco da história do terrorismo em nosso país. O terrorismo americano originou-se com a finalidade de restringir o movimento e a liberdade dos recém-libertos americanos negros que, pela primeira vez, começaram a ganhar um pouco de poder político. O Ato da Ku Klux Klan foi uma das primeiras peças consideradas pela legislação antiterrorista dos Estados Unidos. Quando se promulgou a lei federal em 1871, nove condados da Carolina do Sul se colocaram sob a lei marcial e dezenas de pessoas foram presas. Os temores do pistoleiro de Charleston – homens negros que violam mulheres brancas, negros que tomam o país – são os mesmos temores que sentiam os membros da Ku Klux Klan, que utilizaram a violência e a intimidação para controlar as comunidades de negros libertos.

Mesmo com estes paralelismos, escutamos intermináveis especulações sobre os motivos do atirador de Charleston. A governadora, Nikki Haley, da Carolina do Sul difundiu uma mensagem de Facebook na qual dizia: “Ainda que não conheçamos todos os detalhes, sabemos que nunca vamos entender o que motiva alguém a entrar em um de nossos lugares de culto e tirar a vida de outra pessoa”. Apesar dos informes de que o assassino declarou seu ódio racial antes de disparar contra os membros do grupo de oração, seus motivos são inescrutáveis. Inclusive depois de serem divulgadas as fotos nas quais o suspeito vestia uma jaqueta adornada de bandeiras da Rodésia e da África do Sul durante a era do apartheid ou que estivesse junto a um automóvel com a placa da bandeira confederada – uma prova tangível de seu alinhamento com a ideologia violenta, segregacionista –, suas ações se mantiveram supostamente indecifráveis. Um tweet do Seattle Times (agora apagado) perguntava se no atirador se “concentra o mal ou é um doce menino”, The Wall Street Journal o qualificou “solitário” e o prefeito de Charleston o chamou de “canalha”, no entanto, as denominações aparentemente óbvias – assassino, terrorista, criminoso, racista – não aparecem em nenhuma parte.

Este é o privilégio da tez branca: se um terrorista é branco, seus atos de violência nunca serão vinculados a sua cor de pele. Um terrorismo branco tem motivos únicos e complexos; está além de toda compreensão. Pode ser um solitário perturbado ou um monstro. É um doente mental ou o mal personificado. O terrorismo branco existe unicamente como díade de extremos: ou ser humanizado até o ponto de despertar simpatia ou é quase tão monstruoso como um ser mitológico. De qualquer maneira, nunca é indicativo de um problema global que se relaciona com a cor da pele, nem está vinculado com uma sociedade racista. Ele só se representa a si mesmo. Um terrorista branco será definido de qualquer modo que permita qualificá-lo como uma anomalia, sem conexão com a longa história do terrorismo branco.

Sempre me chamou a atenção esta reticência não só para nomear o terrorismo cometido pelos brancos americanos, mas com relação ao próprio adjetivo “branco” nos atos de violência racial. Em um artigo recente do New York Times sobre a história dos linchamentos, as vítimas são descritas repetidamente como negros. Nenhuma só vez, no entanto, os protagonistas dos atos violentos descritos como o que são: brancos. Em troca, as turbas brancas dedicadas ao linchamento são simplesmente descritas como “um grupo de homens” ou “uma turba”. A raça das vítimas é relevante, mas de alguma forma a raça dos assassinos é incidental. Caso estejamos dispostos a admitir a cor da pele dos negros que foram linchados, por que não estamos dispostos a admitir que a raça é a razão pela qual foram linchados? No discurso após o ataque de Charleston, o presidente Obama mencionou a cor branca apenas uma vez – em uma citação do reverendo Martin Luther King Jr. que tenta fomentar a harmonia interracial. Obama reconheceu ambiguamente que “esta não é a primeira vez que as igrejas negras foram atacadas”, porém se omitiu de especificar as causas dos ataques a ditas igrejas. Usa um tempo verbal passivo que é o eco da mesma estranha imprecisão, a renúncia em nomear inclusive o terrorismo dos brancos, como se as igrejas negras fossem atacadas por uma força sem corpo; e não por gente real motivada por uma ideologia racista cujas raízes se estendem para além da fundação do país.

Entendo que seja cômodo guardar silêncio. Se não falarmos da violência branca, se ela não for reconhecida, se considerarmos que os terroristas brancos são santos ou demônios, não teremos que lidar com a realidade muito mais complicada da violência racial. Atualmente, o terror por razões raciais não se apresenta em capuzes brancos e roupões. Você pode ser alguém de 21 anos de idade, possuir muitos amigos negros no Facebook, contar piadas racistas inofensivas e cometer um ato atroz de violência racial. Não podemos nos separar dos monstros porque os monstros não existem. Os monstros foram sempre seres humanos.

Na imaginação contemporânea da América, o terrorismo é estrangeiro e tem a pele escura. Os terroristas não possuem motivações complexas. Não nos estimulamos, uns aos outros, a não emitir nenhum juízo até conhecer sua história no Facebook ou escutar as entrevistas de seus amigos. Psicólogos não são convidados para analisar o estado mental dessas pessoas. Sabemos de imediato por que matam. Em contrapartida, um terrorista branco é um enigma. Um terrorista branco não tem história, nem contexto, nem origem. Continua sendo para sempre uma incógnita. De sua existência não se fala. Vemos, mas fingimos não vê-los. É um fantasma que flutua na noite.

Brit Bennett é uma escritora que vive na Califórnia. Seu romance de estreia, “As Mães”, foi publicado pela Riverhead Books.

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