23 de junho de 2015

WikiLeaks - Chirac, Sarkozy e Hollande: Três presidentes sob escuta

Os documentos obtidos pelo WikiLeaks e publicados pelo "Libération" revelam que a NSA, pelo menos a partir de 2006 a maio de 2012, espionou Jacques Chirac, Nicolas Sarkozy e François Hollande.

Amaelle Guiton, Alexandre Léchenet, Jean-Marc Manach e Julian Assange

Libération

Tradução / Diz um ditado popular na comunidade de inteligência que, em matéria de espionagem, não existem aliados – ou, pelo menos, que eles não são necessariamente amigos. "Não se espionam amigos", indignou-se Angela Merkel ao descobrir, em outubro de 2013, através de revelações do Spiegel, que a National Security Agency (NSA) havia grampeado seu celular. Uma seleção de documentos publicados por Libération e Mediapart, em colaboração com o WikiLeaks, revela que, na França, três presidentes sucessivos e alguns de seus colaboradores foram espionados, desde, pelo menos, 2006, durante o segundo mandato de Jacques Chirac, a maio de 2012, logo após a posse de François Hollande.

Os documentos obtidos pelo WikiLeaks – e reunidos numa sessão chamada "Espionagem Elysée" – consistem de cinco relatórios com análises da NSA, intitulados "Global SIGINT Highlights", ou seja, "destaques" das informações de origem eletromagnética, ou comunicações interceptadas. Todos são classificados como "Top Secret" e destinados aos responsáveis da NSA e da comunidade de inteligência dos EUA; apenas dois deles, os mais antigos, deveriam ser compartilhados com os "Five Eyes", a aliança das agências de inteligência dos Estados Unidos, Austrália, Canadá, Nova Zelândia e Reino Unido, enquanto os outros são de uso exclusivamente americano. De acordo com especialistas entrevistados pelo WikiLeaks, estes relatórios são gerados por um departamento identificado como Summary Services ("Serviços de Síntese").

"Seletores"

Podemos ler, por exemplo, como Jacques Chirac, em 2006, forçou seu candidato para o cargo de Vice-Secretário-Geral adjunto das Nações Unidas, e também que, de acordo com a NSA, o ministro das Relações Exteriores da época, Philippe Douste-Blazy, tinha uma "propensão (...) a dar declarações imprecisas ou inoportunas". Os relatórios também afirmam – não surpreendentemente – que Nicolas Sarkozy se via, em 2008, como "o único homem capaz de resolver a crise financeira”. E se queixou em 2010, do "recuo de Washington sobre a sua proposta de acordo de cooperação bilateral sobre informação", acordo que os dois interlocutores mencionados na nota, o embaixador da França em Washington Pierre Vimont e o conselheiro diplomático Jean-David Levitte, atribuíam precisamente ao "desejo dos Estados Unidos de continuar espionando a França"...

O memorando mais recente data de 22 de maio de 2012 – depois do estabelecimento de um protocolo de troca de informações entre a francesa Direção Geral da Segurança Externa (DGSE) e a NSA, que remontaria, de acordo com o Le Monde, ao fim de 2011. Este memorando relata "reuniões secretas" para discutir a possível saída da Grécia da zona do euro, mas também mostra a preocupação de Jean-Marc Ayrault com a reação de Angela Merkel se ela tomasse conhecimento de uma reunião entre o novo presidente e a oposição alemã.

Na verdade, mesmo classificado como altamente confidencial, o conteúdo das notas não revela segredos de Estado. Mostra, de qualquer forma, o interesse demonstrado pela NSA pela França. Assim, o outro tipo de documento obtido por WikiLeaks é igualmente surpreendente. Trata-se de um trecho de um banco de dados da NSA que menciona uma série de números de telefone, fixos e celulares, identificados como "seletores". Em outras palavras, com base em uma coleta massiva de informações, a agência identifica alvos que motivam consequentes investigações precisas de conteúdos. Tudo em função de "necessidades de informação" formalizadas a partir de 2002, sobre questões de política interna ou sobre assuntos econômicos.

"Novas possibilidades de coleta"

Nesta lista, que de acordo com verificações data de 2010, Libération pôde identificar os números de celulares de membros do executivo – o presidente Nicolas Sarkozy, os Secretários de Estado para Assuntos Europeus e para o Comércio Jean Pierre Jouyet e Pierre Lellouche – mas também alvos mais amplos: o telefone geral do Ministério das Finanças e do Ministério da Agricultura, assim como o posto no Palácio do Eliseu do Centro de transmissões do governo, ligado à Secretaria Geral da Defesa e Segurança Nacional (SGDSN). Este serviço é responsável especificamente pela proteção das comunicações do executivo, assim como pelo serviço de ligações diretas do governo, o "telefone vermelho". Não há indícios, no entanto, de que as ligações protegidas tenham sido comprometidas.

Entre os outros nomes, a lista reflete uma identificação bastante precisa dos interlocutores. Os telefones celulares de conselheiros do Presidente, como o secretário-geral do Eliseu na época, Claude Guéant, ou Jean-David Levitte, também estão listados. Contactados pela reportagem, nenhum dos dois se diz surpreso. O primeiro julga o procedimento "inadmissível". O segundo filosofa: "Sempre parti do princípio de que era escutado, e não apenas por nossos amigos e parceiros americanos”.

Há também membros do gabinete e da administração do Ministério das Relações Estrangeiras – como o porta-voz da época, Bernard Valero, e Laurence Tubiana, funcionária do Ministério que foi responsável, em 2009, pelas negociações da Conferência do Clima em Copenhague. Ao contrário dos outros, esta última não era alvo do setor responsável por interceptar as comunicações europeias, o "S2C32" (já identificado no escândalo Merkel), mas de um serviço encarregado especificamente de "melhorar o acesso aos alvos", "aumentar os esforços de segmentação e exploração" e "desenvolver novas possibilidades de coleta". Em resumo, estudar como seria possível piratear seu telefone, ou mesmo instalar programas espiões em seu computador.

Esta seleção de documentos revela apenas uma parte das atividades da NSA de espionagem de líderes franceses: não há como saber a quantidade de relatórios de escutas enviados aos dirigentes da NSA e os presidentes também adotam precauções para abordar as questões mais delicadas – reuniões bilaterais ou comunicações criptografadas. Mas os documentos confirmam, em todo caso, a que ponto os Estados Unidos se interessam pelos detalhes das comunicações de dirigentes de países aliados. Em outubro de 2013, o deputado socialista Jean-Jacques Urvoas, relator do projeto de lei sobre a informação, afirmou nas páginas do Le Monde que "os Estados Unidos não têm aliados, têm alvos ou vassalos”.

Zona cinzenta

Resta agora saber se essas práticas continuaram para além da data dos últimos documentos que publicamos em colaboração com o WikiLeaks. Procurada por Libération e Mediapart, a assessoria de François Hollande garante que, no momento da visita oficial do presidente em Washington, em fevereiro de 2014, "houve o compromisso [por parte de Obama] de não mais praticar escutas indiscriminadas de órgãos de estado de países aliados". Igualmente procuradas, nem a NSA nem a Casa Branca haviam respondido até terça à noite.

A espionagem de países estrangeiros é a última "zona cinzenta" da informação e inteligência – na França, é, aliás, o ponto cego o projeto de lei sobre a informação, que deve ser adotado esta semana. Em abril, uma resolução da Assembleia parlamentar do Conselho Europeu recomendava a criação de um "código de inteligência multilateral”. Algo que parece ainda muito longe.

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