10 de setembro de 2013

10 razões imperiosas pelas quais você nunca pode confiar na mídia

Sophie McAdam

True Activist

Tradução / Uma sondagem em 2012 mostrou que a confiança na mídia dominante está aumentando e isto deveria preocupar a todos nós que valorizamos a verdade, integridade e liberdade de imprensa.

No entanto, uma análise divulgada recentemente pela PunditFact revelou que da totalidade de afirmações feita pela Fox News, apresentadores ou convidados, mais de metade eram completamente falsas. Ainda mais, apenas 8% podem ser consideradas “totalmente verdadeiras”.

Mas para qualquer pessoa que regularmente sintoniza o programa de notícias conservador, tal revelação não é nada de novo. PunditFact apenas confirmou o que muitos já se aperceberam há já algum tempo: A Fox News mente — muito.

Mas tenha em mente que não é apenas Fox que tende a tecer mais contos do que a verdade...

Porquê? Aqui estão 10 coisas perturbadoras que todos têm que saber sobre os gigantes da mídia global que controlam o nosso abastecimento de informação, exercendo um imenso poder sobre as pessoas — e até sobre o governo.

1. A grande mídia existe unicamente para dar lucro

Qual é o propósito da mídia dominante? Dizer que a imprensa existe para informar, educar ou entreter é como dizer que a função primordial da empresa Apple é fazer tecnologia que irá enriquecer as nossas vidas. Na verdade, a indústria da mídia de massas é igual a qualquer outra em uma sociedade capitalista: existe para obter lucro. Medialens, um site ativista britânico que critica o jornalismo comercial (ou corporativo), citou Marjorie Kelly, uma jornalista de negócios, dizendo que todas as empresas, incluindo aquelas que lidam com a mídia, existem apenas para maximizar dividendos dos seus acionistas. Isto é, disse ela, “ a lei da terra... aceita universalmente como quase divina, uma verdade inquestionável”. Sem agradar aos acionistas e ao conselho de administração, as empresas de mídia de massas simplesmente não existiriam. E uma vez que você entender isso, você nunca mais vai ver as notícias da mesma forma novamente.

2. Os anunciantes ditam os conteúdos

Então como é que a persecução do lucro afeta as notícias que consumimos? As corporações de mídia obtêm a maioria do seu lucro (tipicamente à volta de 75%) através de publicidade, significando que são os próprios anunciantes que ditam os conteúdos — não os jornalistas, e definitivamente não os consumidores. Imagina que és o editor de um jornal de sucesso de grande circulação ou de um canal de TV com grande audiência. Atrais receitas de grandes marcas e empresas multinacionais tais como a BP, Monsanto e UAE Airlines. Como podes tratar de tópicos importantes tais como alterações climáticas, alimentos geneticamente modificados ou derramamentos desastrosos de petróleo de uma maneira honesta para a tua audiência e favorável aos teus clientes? A resposta simples é que não podes. Isto pode explicar por que Andrew Ross Sorkin do New York Times — patrocinado pelo Goldman Sachs — está tão disposto a defender uma empresa desonesta. Andrew Marr, um correspondente político da BBC, sumariza o dilema na sua autobiografia: “A questão principal é se a publicidade limita e altera a programação das notícias. Sim, claro. É difícil fazer com que as quantias de dinheiro continuem a subir quando estás dando patadas às pessoas que passam os cheques.” Não é preciso dizer mais nada...

3. Bilionários & monopólios dos mídia ameaçam o verdadeiro jornalismo

A monopolização da imprensa (menos indivíduos ou organizações controlando um número maior de quota da mídia de massas) está aumentando ano a ano, e isto é um enorme perigo para a ética de imprensa e diversidade. As posições pessoais político-neoliberais do magnata da mídia Rupert Murdoch estão refletidas nos seus 175 periódicos e apoiadas por comentadores (veja Fox news) nos 123 canais de TV que ele detém somente nos Estados Unidos. Quem quer que não esteja preocupado com a visão deste homem do mundo, consumida por milhões de pessoas pelo mundo inteiro – dos Estados Unidos até ao Reino Unido, Nova Zelândia até Ásia, da Europa até Austrália — não está a pensar seriamente sobre as consequências. É um grotesco monopólio totalmente abrangente, não deixando qualquer dúvida que Murdoch é um dos homens mais poderosos no mundo. No entanto, tal como o escândalo das escutas telefônicas do News International mostrou, ele, seguramente, não será a mais honrada ou ética. Tampouco é Alexander Lebedev, um ex-espião do KGB e político que comprou o jornal britânico The Independent em 2010. Com os dedos de Lebedev em tantos “bolos” (o oligarca bilionário está em tudo, desde bancos de investimentos a companhias de aviação), podemos verdadeiramente esperar desta publicação, que foi outrora muito respeitada, a continuação de uma cobertura noticiosa na mesma linha? Obviamente que não: este jornal trazia sempre uma faixa na sua capa declarando-se “livre de influências político-partidárias, livre de influências proprietárias”, mas curiosamente desapareceu em setembro de 2011.

4. A imprensa corporativa está em conluio com o governo

Para além do óbvio, um dos fatos mais perturbadores que emergiu do escândalo das escutas telefônicas do News International de Murdoch foi a exposição das ligações obscuras entre os altos membros do governo e os magnatas da imprensa. Durante o escândalo e pela subsequente Inquirição Leveson, soubemos de encontros secretos, ameaças de Murdoch a políticos que não agiam como ele queria, e que o Primeiro Ministro, David Cameron, tem uma relação de amizade muito próxima com a então chefe-de-redação (e CEO da News International) Rebekah Brooks. Como podem os jornalistas fazer o seu trabalho de inquirir os políticos sobre questões delicadas quando vão de férias juntos ou estão muito juntinhos em festas e jantares privados? É claro que nem tencionam. Mas o apoio é mutuo — o governo de Cameron tentou ajudar o filho de Murdoch a ganhar uma proposta para a BSkyB, enquanto bizarramente, o belicista ex Primeiro Ministro, Tony Blair, é padrinho de Grace, filha de Murdoch. Assim como asseguram uma esmagadora cobertura noticiosa tendenciosa, enchendo os jornais com artigos baratos e fáceis de fontes inverificáveis, e amordaçando editores de criticar os que estão no poder, estas ligações secretas também se juntam à venda incessante da mentira do patriotismo — especialmente no período que precede ataques a outros países. Aqui está, por exemplo, uma interessante análise da cobertura do The New York Times, da atual situação em Síria, demonstrando como os jornalistas corporativos estão falhando em refletir o sentimento público na questão do ataque total a Assad pelos Estados Unidos e os seus aliados.

5. Histórias importantes são ofuscadas por trivialidades

Podes ser perdoado por assumir que a parte mais interessante do estatuto de Edward Snowden como delator foi a sua viagem de avião de Hong Kong para Rússia, ou a sua longa espera no aeroporto de Moscou por alguém — uma pessoa qualquer — que lhe oferecesse asilo. Porque com a exceção do The Guardian, que publicou as fugas de informação (leia-as por completo aqui), a mídia, em geral, preferiram não focar as revelações gravosas de Snowden sobre liberdade e tirania, mas sim banalidades — a sua personalidade e antecedentes, se a sua namorada sente a sua falta, ou se é um espião chinês, e ahh, não nos fez lembrar a todos “Onde Está o Wally” enquanto voava pelo globo como um fugitivo procurado? O mesmo pode ser dito da mudança de sexo de Bradley Manning, que convenientemente ofuscou a enorme injustiça da sua sentença. E que dizer de Julian Assange? O seu perfil, na mundialmente respeitada BBC, é dedicada quase exclusivamente a um sutil desgaste de caráter, em vez de detalhar o profundo impacto de Wikileaks na nossa maneira de ver o mundo. Em todo o caso, as histórias principais são esquecidas enquanto a nossa atenção, perdida em um mar de trivialidades, é habilmente desviada das questões centrais prementes: aquelas que invariavelmente o governo quer que esqueçamos.

6. A mídia dominante não coloca questões

“Verifica as tuas fontes, verifica os teus fatos” são regras de ouro no jornalismo 101, mas não adivinharias isso do que lês na imprensa dominante ou de ver os canais de televisão comerciais. Nesta altura em que escrevo, Obama está a tocar os tambores de guerra para a Síria. Após as acusações dos Estados Unidos e do Reino Unido de que Assad foi responsável por um ataque de gás de nervos sobre os seus próprios civis no mês passado, a maioria dos jornais comerciais — como o acima referido New York Times — falharam em exigir evidências ou em clamar por restrições a um ataque a toda a escala. Mas há várias boas razões por que os jornalistas devem questionar a história oficial. Primeiro, o periódico de direita britânico, The Daily Mail, passou uma peça noticiosa, em janeiro deste ano, publicando e-mails desviados de uma companhia britânica de armas mostrando que os Estados Unidos estavam a planejar um ataque químico sobre civis de “bandeira falsa” em Síria. Iriam posteriormente culpar Assad para ganhar apoio público para uma subsequente invasão a toda a escala. O artigo foi apressadamente suprimido mas uma versão em cache ainda existe. Outra evidência recente concede ainda mais apoio ao inimaginável. Veio à superfície que os químicos usados para fazer o gás de nervos foi, de fato, enviado do Reino Unido e os serviços de inteligência alemães insistem que Assad não foi responsável pelo ataque químico. Entretanto um hacktivista surgiu com a alegada evidência do envolvimento das agências de inteligência dos EUA no massacre (baixa você mesmo aqui), com um substancial conjunto de provas, sugerindo que esta vil trama foi incubada pelas potências ocidentais. Nunca subestimes as ligações da mídia comercial com as grandes empresas e governos poderosos antes de aceitar o que te dizem — porque se o jornalismo está morto, você tem o direito  eo dever de fazer suas próprias perguntas.

7. Jornalistas comerciais detestam verdadeiros jornalistas

Michael Grunwald, um veterano correspondente nacional da Time, tuitou que ansiava por escrever a defesa de um drone que eliminasse Julian Assange. David Sirota, um redator do Salon, aponta devidamente a ironia disto: “Aqui temos um repórter expressando o seu entusiasmo pela perspectiva do governo eliminar o publicador de informação que se tornou a base do jornalismo mais importante na última década”. Sirita continua exemplificando vários exemplos que ele apelida de “jornalistas contra o clube de jornalismo” e dá vários exemplos como o colunista do The Guardian, Glenn Greenwald, tem sido atacado pela imprensa comercial por ter publicado as informações divulgadas por Snowden. Andrew Ross Sorkin, do New York Times pediu a detenção de Greenwald, enquanto que David Gregory da NBC declarou que Greenwald tinha “ajudado e instigado Snowden”. Quanto à pergunta se os jornalistas podem de fato ser francos, Sirota observa com precisão que tudo depende se as suas opiniões servem ou desafiam o status quo, e prossegue com uma listagem exaustiva da hipocrisia dos críticos de Greenwald: Grunwald tem opiniões sobre ameaças militares que orgulhosamente apoiam drones de ataque e de vigilância. As opiniões de Sorkin promovem os interesses de Wall Street. David Broder do Washinton Post tinha opiniões que apoiavam, entre outras coisas, os interesses corporativos do governo e a sua agenda de mercados “livres”. Woodward, do Washington Post, tem opiniões a apoiar o crescente orçamento do Pentágono que enriquece os contratantes de defesa. Jeffrey Goldberg da revista Atlantic promove frequentemente o complexo militar-industrial com opiniões pró-guerra. Thomas Friedman do The New York Times é uma combinação de todos estes, promovendo tanto o mercado livre como o militarismo provocador. Porque estas vozes promovem lealmente a assunção não declarada que serve a estrutura do poder e que domina a política americana, todas as suas opiniões pessoais não são sequer retratadas como opiniões, mas frequentemente retratadas como objetividade incontroversa.

8. Más noticias vendem, boas noticias são censuradas, e mexericos triunfam sobre assuntos importantes

É triste mas é verdade: as más noticias vendem mais jornais. Mas porquê? Somos assim tão pessimistas? Saboreamos o sofrimento dos outros? Estamos secretamente satisfeitos com algo terrível que acontece aos outros e não a nós? Lendo a imprensa comercial como se fossemos um extraterrestre visitando a Terra poderíamos assumi-lo. Geralmente, a cobertura noticiosa é extremamente sensacionalista e depressiva, com imensas páginas dedicadas a homicídios, violações, pedofilia e no entanto nenhuma dedicada às milhões de boas ações e inspiradores e extraordinários movimentos que acontecem a cada minuto de cada dia por todo planeta. Mas as razões por que consumimos más notícias são perfeitamente lógicas. Em tempos de paz e harmonia, as pessoas simplesmente não sentem a necessidade de se educarem a si mesmas como sentem em tempos de crise. Isso são boas notícias para qualquer um que comece a desesperar pensando que os humanos são apáticos, detestáveis e burros, e pode ainda ser alegável que este sóbrio e simples fato é um grande incentivo para a indústria da mídia de massas fazer algo que valha a pena. Poderiam começar, para variar, por oferecer o lado positivo e esperançoso. Poderiam usar os períodos obscuros de grande interesse público para transmitir uma mensagem de paz e justiça. Poderiam refletir o desejo humano de encontrar soluções e as nossas preocupações mais prementes como o ambiente. Poderiam agir como a voz de uma população global que está farta de violência e mentiras e fazer campanha pela transparência, igualdade, liberdade, verdade e verdadeira democracia. Venderia isto jornais? Eu penso que sim. Poderiam até questionar verdadeiramente os políticos em nome das pessoas, não seria isso algo? Mas em um futuro previsível, é provável que a imprensa comercial simplesmente distraia a nossa atenção com uma outra fotografia da bunda de Rhiana, um outro rumor sobre o vício em cocaína de Justin Bieber, ou um outro artigo sobre Kim Kardashian (quem é ela?) usando saltos perspex com os tornozelos inchados durante a gravidez. Quem quer saber dos 21 bilhões de dólares que desapareceram, em que é que ela estava a pensar?

9. Quem controla a língua controla a população

Já leste a novela clássica, de George Orwell, 1984? Tornou-se um clichê na distopia em que vivemos, é verdade, mas é porque faz sentido. Há muitos – demasiados – paralelos entre o futuro sombrio de Orwell e a nossa atual realidade, mas uma importante parte desta visão concerne à linguagem. Orwell criou o termo “Newspeak” [novalíngua] para descrever a versão simplista da língua inglesa com o objetivo de limitar o pensamento livre em assuntos que desafiassem o status quo (criatividade, paz, e individualismo, por exemplo). O conceito de Newspeak incluía o que Orwell chamava de “DoubleThink” — como a língua é feita de forma ambígua ou mesmo invertida para transmitir o oposto ao que é verdade. Neste livro, por exemplo, o Ministro da Guerra é conhecido como o Ministro do Amor, enquanto que o Ministro da Verdade se ocupa da propaganda e entretenimento. Soa-te já familiar? Outro livro que analisa este assunto em maior detalhe é Unspeak, um livro que deve ser lido por todos os interessados em linguagem e poder e especificamente em entender como as palavras são distorcidas para fins políticos. Termos como “ misseis para manter a paz” , “extremistas” e “zona de exclusão aérea”, armas sendo referidas como “recursos”, ou eufemismos enganadores de empresas como “downsizing” para redundância e “sunset” para terminação — estes, e centenas de outros exemplos, demonstram o quão poderosa a linguagem pode ser. Em um mundo de crescente monopolização da mídia corporativa, aqueles que exercem este poder podem manipular as palavras e consequentemente a reação pública, encorajar complacência, defender o status quo, ou provocar o medo.

10. A liberdade de imprensa não existe mais

A única imprensa que é atualmente livre (pelo menos por agora) é a imprensa independente sem publicidade comercial, conselho de administração, acionistas ou CEOs. Detalhes de como o Estado redefiniu o jornalismo são referidos aqui e são mencionados no nº 7, mas o melhor exemplo recente seria o tratamento governamental ao The Guardian pela publicação das fugas de informação de Snowden. Como comentário adicional, é possível que este jornal jogue conosco tal como qualquer outro — o Grupo Guardian Media não é, afinal de contas, arraia miúda. Mas por outro lado — tendo em conta os pontos 1 até ao 9 — por que devemos achar difícil acreditar que após os ficheiros NSA terem sido publicados, ao editor Alan Rusbridge lhe foi dito pelo poder “já te divertiste que chegue, agora devolve os ficheiros”, que os oficiais do governo irromperam pela redação e destruíram discos rígidos, ou que o companheiro de Greenwald, David Miranda, foi detido por 9 horas em um aeroporto de Londres, em conformidade com a legislação anti-terrorista, enquanto entregava documentos relacionados com a história do colunista? O jornalismo, lamentava Alan Rusbridge, “pode estar enfrentando uma ameaça existencial”. Tal como o apresentador do Evening News da CBS, Dan Rather, escreveu: “atualmente podemos ter poucos príncipes e condes, mas definitivamente temos os seus equivalentes nas sociedades atuais nos muito ricos que procuram controlar as notícias, fazer os fatos desagradáveis desaparecer e eleger representantes que estão ao serviço dos seus interesses econômicos e sociais... A “imprensa livre” já não é um contra-poder. Tornou-se, pelo contrário, parte do aparelho de poder.”

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