6 de julho de 2015

Grécia, à sombra de "Prometeu"

Manlio Dinucci

Il Manifesto

Tradução / A disputa “cabeça a cabeça” no referendo grego, propagandeada pela grande mídia, revelou-se uma sonora cabeçada na parede para os promotores internos e internacionais do “Sim”. O povo grego disse “Não”, tanto às medidas de “austeridade” impostas pela União Europeia (UE), Banco Central Europeu (BCE) e o Fundo Monetário Internacional (FMI), como também, de fato, a um sistema – o capitalista – que sufoca a democracia real.

As implicações do referendo vão para além da esfera econômica, envolvendo os interesses políticos e estratégicos não somente de Bruxelas, mas (coisa de que não se fala), os de Washington. O presidente Obama declarou estar “profundamente implicado” na crise grega, que “tomamos seriamente em consideração”, trabalhando com os parceiros europeus a fim de “estarmos preparados para qualquer eventualidade”.

Por que tanta atenção para com a Grécia? Porque é membro não apenas da UE, mas também da OTAN. Um “sólido aliado”, como definiu o secretário-geral Stoltenberg, que desempenha um papel importante nos corpos de rápido deslocamento e dá um bom exemplo no gasto militar, ao qual destina mais de 2% do PIB, objetivo atingido na Europa somente pelo Reino Unido e a Estônia. Embora Stoltenberg assegure o “contínuo empenho do governo grego na Aliança”, em Washington temem que, aproximando-se da Rússia e da China, a Grécia de Tsipras comprometa o seu pertencimento à OTAN. O premiê Tsipras declarou que “não estamos de acordo com as sanções à Rússia” e, na cúpula da UE, sustentou que “a nova arquitetura da segurança europeia deve incluir a Rússia”.

No encontro Tsipras-Putin, em abril em Moscou, falou-se da possibilidade de que a Grécia se torne o hub europeu do novo gasoduto, em substituição ao South Stream bloqueado pela Bulgária sob pressão dos Estados Unidos, que através da Turquia levará o gás russo até o limiar da UE. Existe também a possibilidade de que Grécia receba financiamentos do Banco de Desenvolvimento criado pelos BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul) e pelo Banco de Investimentos para Infraestrutura Asiática criado pela China, que quer fazer do Pireu um importante hub da sua rede comercial.

“Uma Grécia amiga de Moscou poderia paralisar a capacidade da OTAN de reagir à agressão russa”, advertiu Zbigniew Brzezinski (antigo conselheiro estratégico da Casa Branca), dando voz à posição dos conservadores.

A posição dos liberais foi expressa por James Galbraith, professor de Relações de Governo e Empresariais na Universidade do Texas, que durante alguns anos trabalhou com Yanis Varoufakis, que se tornou depois ministro das Finanças grego (agora demissionário), a quem deu “assistência informal” nestes últimos dias. Galbraith sustenta que, não obstante o papel desempenhado pela CIA no golpe de 1967, que levou os coronéis ao poder na Grécia com base no plano “Prometeu” da OTAN, “a esquerda grega mudou e este governo é pró-americano e firme membro da OTAN”.

Propõe então que “se a Europa fracassa, os Estados Unidos podem movimentar-se para ajudar a Grécia, a qual, sendo um pequeno país, pode ser salva com medidas menores, entre as quais uma garantia sobre os empréstimos”. (“US must rally to Greece”, The Boston Globe, February 19, 2015.)

Ambas as posições são perigosas para a Grécia. Se em Washington prevalece a dos conservadores, desenha-se um novo plano “Prometeu” da OTAN, uma “Praça Syntagma”, tendo por modelo a “Praça Maidan” da Ucrânia. Se prevalece a dos liberais, seria uma operação de molde neocolonialista que faria a Grécia sair do espeto e cair na brasa.

O único caminho que resta é o da dura luta popular em defesa da soberania nacional e da democracia.

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