10 de julho de 2015

Caos no Oriente Médio significa que é hora de uma aliança com o Irã

Como as negociações nucleares continuam, ex-embaixador da Grã-Bretanha para Washington diz que os nossos interesses estratégicos encontram-se agora em um acordo com o Irã xiita, e não com a Arábia Saudita sunita.

Christopher Meyer

The Telegraph

Créditos: Behrouz Mehri/ AFP.

Tradução / O bombardeamento da Síria está de volta. Há quase dois anos, o Parlamento aplicou um direto bem no nariz de David Cameron, quando os deputados ingleses rejeitaram o plano dele para lançar ataques aéreos, com os EUA e a França, contra o presidente Assad da Síria. A rejeição serviu ao presidente Obama, como cobertura, para declinar também daquela ação militar. Para sua grande irritação, o presidente Hollande foi deixado pendurado ao vento.

Mas isso foi naquele momento. Hoje, a guerra prossegue na Síria, ondas imensas de seres humanos fugiram da violência e agora aportam em locais como os sórdidos campos de concentração de migrantes em Calais. Há de haver quem pense que essa seria suficiente razão para rever a decisão de 2013 e agir militarmente e decisivamente contra Assad. Não. Os fatos mudaram; e mudaram a favor de Assad.

Nunca houve a menor chance de derrubar Assad e seu governo de alawitas (ramo do Islã xiita), enquanto continuarem a contar com o apoio da Rússia e do Irã xiita. Eles não estão enfraquecendo. Para Moscou e Teerã, a Síria é ativo vital no jogo de poder no Oriente Médio.

O que mudou no cálculo estratégico desde 2013 foi a irrupção do ISIL, o grupo de jihadistas sunitas fundamentalistas. Pareciam ter surgido do nada. Mas, isso, porque nós no ocidente não estávamos prestando atenção. Tony Blair pode negar o quanto queira e tão enfaticamente quanto queira, como fez outra vez no aniversário de 7 de julho, mas o ISIL, como ideia e movimento, está sendo montado desde a invasão de Reino Unido-EUA ao Iraque. Com o desmonte ensandecido do exército iraquiano em 2003 e o governo do partido Baath, quando eleições à moda do ocidente entregaram o Iraque a um grupo xiita, os EUA e o Reino Unido tornaram absolutamente inevitável um revanchismo sunita violento. O ISIL brotou da costela da Al Qaeda no Iraque. Com Saddam Hussein, nunca antes houvera al Qaeda no Iraque.

A política ocidental está agora num absoluto emaranhado. Michael Fallon, secretário da Defesa da Grã-Bretanha, tem tentado, para seu grande mérito, expor a incoerência que há em bombardear o ISIL no Iraque, mas não na Síria. Mas ainda que consiga persuadir a Câmara dos Comuns sobre o que se deve fazer, nem assim bastará para introduzir em nossa política para aquela região sequer alguma mínima coerência de ideias de que ela tanto carece. Isso porque a questão fundamental é se deveríamos estar bombardeando aquela região – ou tentando, até agora sem sucesso –, aumentar as chances do exército iraquiano contra o ISIL.

Se há lição que os britânicos devem aprender de nossas intervenções no Afeganistão e no Iraque – reforçada pela comemoração do 10º aniversário da atrocidade de 7 de julho –, é que a presença prolongada de militares ocidentais em sociedades islâmicas só serve para agitar as multidões muçulmanas pelo mundo, sempre violentamente hostis aos nossos valores e ao nosso modo de viver. O mesmo sargento recrutador está outra vez em atividade, com as fileiras do ISIL enchendo-se de estrangeiros, inclusive muçulmanos britânicos, atraídos pela ideia de lutar contra coalizão comandada pelos EUA.

O Oriente Médio é hoje um Cubo de Rubik de interesses conflitantes, tão complexo que uma política britânica consistente e coerente de intervenção é de fato impossível. Na Síria, os britânicos tentam derrubar o presidente Assad, contra os interesses do Irã. Mas Assad também está combatendo contra o inimigo dos britânicos, o ISIL. No Iraque, os britânicos apoiam o governo dominado pelos xiitas. Mas é governo completa e absolutamente a serviço do Irã, para todos os objetivos e metas. Porque o exército regular está tão quebrado, são as milícias iraquianas xiitas, com conselheiros e instrutores iranianos, que fazem a luta principal contra o ISIL. Por essa razão, as tribos sunitas têm-se recusado até aqui a combater contra o ISIL do modo como combateram, com sucesso, contra a Al-Qaeda com os EUA em 2006. Gostemos ou não, os britânicos estamos numa aliança de fato contra o ISIL, com o presidente Assad da Síria e com o Irã – inimigo implacável de nosso aliado de tantos anos, a Arábia Saudita.

A Grã-Bretanha e seus aliados estamos presos dentro de dois erros: uma guerra civil em todo o Oriente Médio entre dois ramos do Islã; e a intensa rivalidade geopolítica e religiosa entre Irã e Arábia Saudita. A consequência perversa é que nós desejamos derrotar o ISIL muito mais do que desejam o exército iraquiano e nossos amigos da Arábia Saudita. Aí está receita de fracasso inescapável.

Só há uma política ocidental que se pode declarar coerente: pôr fim a toda e qualquer ação militar e deixar que a região dê conta de seus próprios problemas. Não impedirá que o ISIL seja ameaça dentro da Grã-Bretanha. Aí, eles terão de ser combatidos com inteligência, polícia e nível de vigilância doméstica que talvez pareça impalatável para alguns.

Contudo, se o ISIL consegue expandir-se ainda mais no Oriente Médio, não estará aí o sinal inegável de que o aliado estratégico da Grã-Bretanha na região, para o século 21, tem de ser o Irã?

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