1 de julho de 2015

Contra o totalitarismo financeiro, a Europa deve mudar ou morrer

Nunca vimos um credor, por mais estúpido que fosse, tentar matar o próprio devedor, como o FMI faz com os gregos. Deve haver algo mais: construção científica do "inimigo". E a vontade de sacrificar um exemplo.

Marco Revelli


Tradução / "A economia que mata", a que se refere o Papa, é o que estamos assistindo ao vivo, direto de Bruxelas. É um espetáculo humilhante. Não corta pescoços, não cheira a sangue, a pólvora ou carne queimada. Atua em salas refrigeradas e corredores acarpetados, mas a ferocidade sem pudor é a mesma de uma guerra. A pior das guerras: aquela declarada pelos ricos da globalização aos pobres dos países mais vulneráveis. Eis em que consiste a influente metafísica dos dirigentes da União Europeia, do BCE e, sobretudo, do FMI: demonstrar, de todas as formas possíveis, que quem está embaixo nunca poderá ser ouvido a respeito das pseudo-receitas fadadas ao fracasso.

As "negociações sobre a Grécia" das últimas semanas já tinham passado dos limites de uma confrontação diplomática, certamente difícil, mas normal, e se transformado num teste de resistência. Uma espécie de julgamento divino ao contrário. As etapas anteriores já haviam se desviado do que se entende tradicionalmente por "democracia ocidental", com a insistência dos líderes da União Europeia em substituir o caráter totalmente político do voto grego e do mandato popular confiado a este governo, pela lógica contábil dos lucros e das perdas financeiras, como se não se tratasse de Estados, mas de empresas ou corporações.

Apocalipse cultural

Jürgen Habermas tem razão em denunciar a transformação – por si só devastadora – de um confronto entre representantes do povo, no âmbito de um verdadeiro exercício de cidadania, em um confronto entre credores e devedores, num contexto quase privado de um processo de falência. Descreditar Alexis Tsipras e Yannis Varoufakis enquanto interlocutores políticos para transformá-los em "devedores" já era, por si só, um sinal de apocalipse cultural, por colocá-los numa situação de desigualdade diante de "credores" todo-poderosos. Depois, no entanto, a situação mudou de rumo. Christine Lagarde acelerou o processo de desmascaramento. Não se trata mais apenas de espoliar o outro, mas de humilhá-lo. Não se trata mais só da dialética, inteiramente econômica, "credor- devedor", mas de uma muito mais dramática, "amigo-inimigo", que marca a volta da política em sua forma mais essencial e mais dura: a política do polemos (guerra em grego antigo).

De fato, nunca tínhamos visto um credor, por mais estúpido que fosse, tentar matar o próprio devedor, como o FMI está fazendo com os gregos. Algo mais parece estar em jogo: a construção científica do "inimigo" e a vontade de um sacrifício exemplar

Uma fogueira como nos tempos da Inquisição, de modo a que ninguém mais fique tentado pelo charme da heresia.

Leia com atenção o último documento com as propostas gregas e as correções em vermelho do grupo de Bruxelas, publicado (com uma ponta de sadismo) pelo Wall Street Journal: é um exemplo burocrático de pedagogia da desumanidade.

A caneta vermelha fez estragos ao longo do texto, procurando, com uma precisão maníaca, qualquer referência aos "mais necessitados" (most in the need) para realçá-la, com um traço. A caneta negou a possibilidade de manter uma TVA (imposto sobre consumo) mais baixa (13%) para os produtos alimentares básicos, e a 6% para os medicamentos (!). Assim como, no extremo oposto, riscou qualquer possibilidade de tributar um pouco mais os lucros mais altos (acima de 500 mil euros), em homenagem à teoria sinistra do trickle down, segundo a qual enriquecer os mais ricos beneficia a todos!

A caneta, finalmente, manchou de vermelho o parágrafo sobre as aposentadorias, impondo uma pressão maior, e imediata, sobre uma categoria já massacrada pelos Memorandos de 2010 e 2012.

Tudo isso baseado na falsa ideia, repetida ad nauseam, sobre a idade "escandalosamente baixa" (53, 57 anos...) de aposentadoria para os gregos. Para justificar a gravidade dessas exigências, o diretor de comunicação da Troika, Gerry Rice, numa conferência de imprensa, chegou ao ponto de declarar que "a aposentadoria média, na Grécia, é como na Alemanha, mas se para de trabalhar seis anos antes...".

Uma (dupla) mentira inconsciente, desmentida pelas estatísticas oficiais da União Europeia: a Eurostat aponta, desde 2005, que a idade média de aposentadoria entre os cidadãos gregos é de 61,7 anos (quase um ano a mais que a média europeia, na Alemanha sendo de 61,3 e na Itália, 59,7).

A Eurostat afirma ainda que, em 2012, a despesa grega per capita para o pagamento das aposentadorias representava aproximadamente metade da de países como Áustria e França, e um quarto em comparação com a Alemanha.

Um país que deu, portanto, tudo o que podia, e muito mais. Por que, então, continuar a pressioná-lo?

Ambrose Evans-Pritchard – um comentarista conservador, mas não cego pelo ódio – escreveu no Telegraph que "os credores querem ver esses rebeldes Klepht (os gregos que, no século 16, se opuseram ao domínio otomano) enforcados nas colunas do Parthenon, como bandidos", pois não suportam ser desmentidos por testemunhas de seu próprio fracasso. Ele acrescentou que "se quisermos marcar o momento em que a ordem liberal perdeu sua autoridade no Atlântico – e o momento em que o projeto europeu deixou de ser uma força histórica capaz de criar motivação – este momento poderia ser este que vivemos hoje". É difícil discordar dele.

Não podemos esconder que o que está em jogo na Europa hoje, no que diz respeito à Grécia e aos imigrantes, marca uma mudança de cenário para todos nós.

Será cada vez mais difícil, a partir de agora, nutrir qualquer orgulho de ser europeu. O que prevalecerá, se "permanecermos humanos", será a vergonha.

Uma ideologia exclusiva

Se, como todos esperamos, Tsipras e Varoufakis conseguirem salvar a pele do seu próprio país, recusando o que equivale a um golpe de estado financeiro, isto será de extraordinária importância para todos nós.

Mas, de qualquer maneira, o que restará é a imagem indelével de um poder e um paradigma com o qual será cada vez mais difícil conviver. Porque está doente de totalitarismo financeiro que não tolera qualquer opinião divergente, sob o risco de arruinar a Europa, pois está claro que com estas lideranças, com esta ideologia exclusiva, e com essas instituições cada vez mais fechadas à democracia, a Europa não pode sobreviver.

Uma coisa está bem clara, agora mais do que nunca: ou a Europa muda, ou morre.

A Grécia não pode se salvar sozinha. Ela pode suportar outro round, mas se outros povos e outros governos não ficarem do seu lado, a esperança que despertou morrerá sufocada.

Por isso as eleições do fim do ano, na Espanha e em Portugal, são tão importantes.

Por isso é tão importante o processo de reconstrução de uma esquerda italiana que esteja à altura destes desafios; é preciso superar as fragmentações e os particularismos, as incertezas e as distinções para construir, rapidamente, uma verdadeira casa comum, grande e confiável.

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