7 de julho de 2015

Economista guerreiro: O legado Varoufakis

Binoy Kampmark

"E vou usar a aversão dos credores com orgulho." 
- Yanis Varoufakis, 06 de julho de 2015

counterpunch: Tells the Facts and Names the Names

Tradução / Em todos os casos seria difícil para Yanis Varoufakis da Grécia permanecer no posto depois da vitória da coalizão Syriza. Aparentemente jogando sua própria variante da teoria dos jogos, Varoufakis conseguiu o que queria: rejeição trovejante dos termos do resgate-austeridade, pelo desejo grego soberano. Mesmo na fase de triunfo, seu valor sempre vai ser moderado por baixas. Tais foram os despojos de guerra econômica custosos.

Quando baixar a poeira sobre essa tragédia grega, o Ministro Varoufakis das Finanças da Grécia lá estará, como uma das maiores, se não das mais decisivas figuras que apareceram em letras grandes na história de todos nós. Soube ser agressivo e duro no confronto. Os seus companheiros Ministros de Finanças da Eurozona se encolheram sob o fogo cerrado dos saberes de Varoufakis sobre alívio da dívida e termos de renegociação com a Troika. "Eles são unânimes em seu ódio por mim - e congratulo-me com o seu ódio."

Mas o estilo Varoufakis arranha e queima. É talento individual – por exemplo, permaneceu fora do partido Syriza, enquanto esteve no Ministério. Vive de mangas arregaçadas para a briga. Jamais foi visto de gravata. Quando os pugilistas aparecem, já o encontram aquecido.

Os meios de comunicação alemães foram imediatamente seduzidos pelo novo gênero de economista guerrilheiro, resvalando para a extravagancia. Ele se tornou o "Bruce Willis" das negociações financeiras quando um apresentador da rede de notícias ZDF não resistiu à comparação, num dos dias em que Varoufakis defendeu valentemente o forte grego, contra as flechas dos banqueiros. "Varoufakis é sem dúvida homem de grande carisma – disse uma desfalecente Marietta Slomka. "Visualmente, ele é alguém que você poderia imaginar estrelando em um filme como 'Duro de Matar 6' -. Ele é um personagem interessante".

A revista Stern optou por metáforas marcadas pela antiguidade clássica, e viu o ministro grego como entidade esculpida em mármore. "Ele anda por Atenas montado numa grande motocicleta negra, nunca mete a camisa para dentro do cinto e irradia uma espécie de masculinidade clássica que se encontra mais em estátuas gregas."

Die Welt chegou às bancas com manchete forte "O que faz de Yanis Varoufakis um ícone sexy." Havia ali um certo tom de tabloide, com coisas como "cabeça raspada, estilo cool e potente motocicleta Yamaha." As negociações da dívida esquentaram. Apesar de não ter "posto de joelhos qualquer dos credores, o professor de Economia está agitando os ternos & gravatas da Europa com seu jeito descontraído e olhar cool." [1]

Em junho, seus modos surpreendentes, parte leão-de-chácara, parte pirata, já agitavam visivelmente os colegas do seu lado da cerca anti-austeridade. A crise, mais que nunca, estava mostrando que a Grécia não é uma ilha, e até dentro do Syriza já se começava a discutir se o objetivo de Varoufakis não seria precisamente esse. A Grécia poderia ser livre dentro da Europa, ou fora dela?

Varoufakis foi quem usou mais competentemente as imagens da guerra e do terror para descrever o terrível padecimento dos gregos. Antes da votação do domingo, o que ele disse sobre terrorismo econômico praticado pelos banqueiros credores cortou firme e fundo. Ao receber os resultados da votação, escreveu com paixão que o referendo "vai ficar na história como um momento único quando uma pequena nação europeia se levantou contra a dívida de servidão."

A opção por moeda paralela com certeza sugeria que seria o fim da Grécia na União Europeia. A língua da servidão e da opressão dizia que, para salvar a Europa, Atenas teria de ser descartada.

Nos escritos de Varoufakis vê-se uma preocupação com o tema da Europa como uma doença do mercado moderno. A União Europeia, como escreveu em março, na revista de arte Brooklyn Rail de Nova York, passara a ser a grande máquina de converter cultura em mercadoria, servindo-se das ferramentas do mercado único e da burocracia. [2] "Há três décadas e até agora, o valor de troca varre o chão com qualquer outro tipo de valor."

A esfera pública está em retirada já há anos; o demos foi caindo em silêncio, mesmo que o mercado continue a rugir com confiança selvagem. Fronteiras territoriais são assustadoras, mas não haver participação cidadã para moderar as forças econômicas assusta muito mais. Em 1978, quando Valéry Giscard D'Estaing da França e Helmut Schmidt da Alemanha anteviram um sistema monetário comum ante os restos mortais de Carlos Magno, figura totêmica da unidade europeia, estavam embarcando num ato de "peregrinação euro-kitsch". Menos de 40 anos depois, a Europa foi efetivamente "dividida por uma moeda comum".

Com a vitória do "Não", é hora de Alexis Tsipras voltar às mesas e conversar mais. Para tanto, foi preciso remover do campo de combate a arma-Varoufakis. Se interessa chegar a algum acordo, já ninguém espera que aconteça com o economista guerrilheiro na sala. O revólver tinha que ser posto de lado.

"Imediatamente depois do anúncio dos resultados do referendo, fui informado de uma preferência, de alguns participantes do Eurogrupo e de variados 'parceiros', que apreciariam minha... 'ausência' de futuras reuniões; ideia que o Primeiro-Ministro considerou potencialmente útil para que ele alcance algum acordo. Por essa razão, estou deixando o Ministério das Finanças hoje." [3]

Enquanto Varoufakis é afastado para a retaguarda, observando a arena de combates, o sistema financeiro grego está absolutamente sem fundos; carências crônicas manifestam-se por toda a economia; e alguns Ministros das Finanças da Europa já pensam sobre como será a vida depois de uma potencial saída do euro. "Solução adequada" agora terá de envolver "reestruturação da dívida, menos austeridade, redistribuição a favor dos mais necessitados e reformas reais".

Ninguém familiarizado com este episódio vai esquecer que Varoufakis foi o filho de uma crise nascida de uma falha. Em vez de se contentar com a galinha molhada, como primeiro-ministro soviético Nikita Khrushchev explicou sobre a arte do compromisso, em 1958, ele nunca desistiu de buscar a ave do paraíso.

Notas:




Dr. Binoy Kampmark era um erudito Commonwealth em Selwyn College, Cambridge. Ele leciona na Universidade RMIT, em Melbourne. Email: bkampmark@gmail.com.

Nenhum comentário:

Postar um comentário