3 de julho de 2015

FMI confirma (sempre tão peculiarmente) avaliação da dívida do governo SYRIZA

Yanis Varoufakis

Yanis Varoufakis: thoughts for the post-2008 world

Tradução / O alívio da dívida tem de estar no centro das negociações de um Novo Acordo para a Grécia. Esse tem sido como um mantra do nosso governo, desde o dia 26 de janeiro de 2015, nosso primeiro dia de trabalho. Exatamente cinco meses depois, dia 26 de junho de 2015, o FMI concordou (como se pode ler hoje no New York Times), no mesmo dia em que o Primeiro-Ministro convocou um referendo para que o povo grego possa rejeitar a proposta liderada pelo FMI que não oferece nenhum... alívio da dívida.

É uma experiência fascinante ler a mais recente análise de sustentabilidade da dívida, pelo FMI (Debt Sustainability Analysis, DBS):

Pela primeira vez, o FMI reconheceu, na 5ª revisão que fez da avaliação da dívida, que há baixa probabilidade de que a dívida pública da Grécia se confirme sustentável.

Aí vai um extrato do próprio relatório do FMI, em que confessa que, para (conseguir) apresentar a dívida pública da Grécia como sustentável (sem ter havido alívio substancial da dívida), os seus especialistas tiveram de assumir que "... a A Grécia teria de (conseguir) saltar – do mais baixo fator médio total de crescimento da produtividade [Total Factor Productivity (TFP)] em toda a área do euro desde que o país integrou-se à União Europeia em 1981 – para um dos mais altos crescimentos do TFP; e que chegaria também às mais altas taxas de participação da força de trabalho e a índices alemães de taxas de emprego." Doravante, evidentemente, porcos voam!

Quando perguntado sobre como o crescimento da produtividade conseguiria dar esse “salto com vara”, do ponto inferior extremo para os pontos mais altos da área do euro, com pleno emprego (e sem nenhum crédito e investimento), a resposta padrão do FMI é: "Para alcançar crescimento no TFP similar ao que outros países da área do euro conseguiram, a implementação de reformas estruturais é, portanto, fundamental." Acontece que o Capítulo 3 da Visão Mundial do Mundo Econômico, pelo FMI, de abril de 2015 (Chapter 3 of the FMI’s April 2015 World Economic Outlook) destrói completamente esse raciocínio e respectiva conclusão. A verdade é que a própria pesquisa feita pelo FMI mostra que reformas do mercado de trabalho têm impacto negativo sobre o fator total de produtividade, e que reformas do mercado de produtos têm efeito neutro.

Voltando à sustentabilidade da dívida pública grega, essa recente Análise de Sustentabilidade da Dívida [Debt Sustainability Analysis, DSA]) feita pelo FMI não poderia ser mais eloquente. Na verdade, é até mais "dura" contra a Europa oficial, que se mantém em surto de negação da necessidade de qualquer alívio da dívida, do que nós – o governo do SYRIZA – pensaríamos em ser: Sem um corte, o FMI reivindica , nem mesmo cinqüenta anos de austeridade (ou seja, um superávit primário de 2,5%) seria suficiente para reduzir a dívida para níveis sustentáveis ​​- ver gráfico. Nem 50 anos de "austeridade" (i.e. um superávit primário de 2,5%) bastariam para reduzir a dívida a níveis sustentáveis - ver o gráfico.


"Simplesmente não é razoável" lê-se também no documento do FMI "esperar que a grande dívida do setor oficial migre de volta para os balanços do setor privado, com taxas consistentes de sustentabilidade da dívida." Claro que não é! (1)

Epílogo

Incrivelmente, toda essa boa pesquisa realizada pela boa gente que trabalha no FMI repentinamente se evapora, quando funcionários do FMI passam a operar em colusão com seus colegas do BCE e da Comissão Europeia para impor ao nosso governo grego políticas escolhidas por eles. Em 25 de junho de 2015, nos apresentaram o ultimatum deles, centrado no alívio zero da dívida, enorme austeridade (3,5% no médio prazo), e ainda mais das mesmas “reformas” dos mercados de trabalho e produtos.

Nunca antes se viu instituição digna de respeito advogar a favor de políticas que colidam tão impiedosamente com resultados da pequisa que ela mesma tenha desenvolvido.

Nunca antes o FMI concordou tão amplamente, em termos de análise econômica, com um governo que ele esteja tentando devastar.

Notas:

(1) É de se perguntar, em primeiro lugar, por que migraram para o balanço do setor público. Será que isto foi conseguido pelos programas fracassados comandados pelo FMI de 2010 e 2012?

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