6 de julho de 2015

Grécia rejeita a Troika

Para onde vamos?

Michael Hudson

Counterpunch: Tells the Facts and Names the Names

Tradução / No domingo, pouco após as 19h00 (horas de Atenas), disseram-me que o voto "Não" estava a vencer por cerca de 60/40. As "pesquisas de opinião" mostrando um jogo empatado evidentemente estavam erradas. Diz-se que jogadores por toda a Europa estão a perder suas cuecas por apostarem que a direita financeira podia enganar a maior parte dos gregos levando-os a votar contra o seu auto-interesse. A margem da vitória mostra que os gregos foram imunes à desinformação dos meios de comunicação ao longo da semana anterior assim como a aceitar a exigência da Troika de austeridade conduzida em termos anti-trabalho. [1]

Isto não deveria ter sido uma surpresa tão grande. A idade de voto para o referendo foi reduzida para 18 anos e incluía membros das forças armadas. Confrontada com uma taxa de desemprego de 50 por cento, a juventude grega compreensivelmente não queria mais euro-austeridade.

A exigência da Troika era por austeridade a ser aprofundada unicamente pela tributação do trabalho e redução das pensões. Seus decisores políticos vetaram impostos sobre a riqueza propostos pelo Syriza e passos para evitar sua evasão. O FMI por sua parte vetou cortes em gastos militares gregos (bem acima dos 2% do PIB exigidos pela OTAN), apesar de mesmo o Banco Central Europeu (BCE) e a chanceler alemã concordarem com isto.

O presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, ameaçou expulsar a Grécia da Europa, apesar de nenhuma lei permitir que isto aconteça. Vamos ver agora se ele ainda tenta executar o seu bluff, o qual tem sido refletivo por líderes de direita de toda a Europa.

As ações de retaliazação de um responsável ostensivamente não-politico e não-eleito não são isoladas. A guerra de classe na eurozona em apoio da finança contra o trabalho e a indústria agora está aberta e a sério. Ao invés de fazer o que se supõe que faça um banco central – proporcionar liquidez (e papel moeda) a bancos, o BCE encabeçado por Mario "Seja como for" Draghi forçou-os mesmo a fechar suas máquinas ATM por falta de dinheiro. Evidentemente a intenção disto era amedrontar eleitores gregos levando-os a pensar que este seria o futuro do seu país se votassem Não.

É uma velha estratégia. Andrew Jackson exprimiu seu espírito vingativo em relação ao Second Bank of the United States fechando-o. Quando este recusou-se a nomear seus corruptos compadres políticos, ele depositou a moeda do U.S. Treasury nos seus "bancos mascote". A drenagem de moeda mergulhou a economia na depressão. Os estados escravocratas do Sul saudaram a deflação, porque procuravam preços baixos para suas exportações de algodão e opunham-se também à indústria nortistas com suas políticas protecionistas e anti-escravocratas.

O que a Grécia precisa é de um banco central interno – ou na falta dele, de um Tesouro nacional – com poderes para criar a moeda a fim de monetizar o gasto do governo com a recuperação econômica. O sr. Draghi mostrou que o BCE não é "tecnocrático" mas sim uma cabala de operadores de direita a trabalhar para deitar abaixo o governo Syriza, de certo modo bastante desejoso de colocar no poder o partido de extrema-direita Aurora Dourada. Á luz da sua recusa em executar os deveres de um banco central e atuar como prestamista de último recurso quando bancos gregos esgotam o cash, o sr. Varoufakis disse: "Se necessário, emitiremos liquidez paralela e no estilo IOUs da Califórnia, numa forma eletrónica. Deveríamos ter feito isto uma semana atrás". [2]

Os meios de comunicação populares dos EUA refletiram a direita europeia ao tentarem assustar os gregos e seus simpatizantes, levando-os a acreditar que o voto era se sim ou não permanecer parte da União Europeia. Contudo, a votação pôs em causa exatamente o que significa ser aquilo que os advogados da austeridade chamam "comprometido com o projeto europeu". Responsáveis da Eurozona são unânimes em que isto significa um compromisso com a guerra financeira contra o trabalho – para com a austeridade e ainda nova contração econômica, para liquidações privatizadoras mais rápidas (mas não para russos se eles oferecerem preços mais altos, como fez a Gazprom) e portanto preços mais altos até agora para empresas de serviços públicos (utilities); para a não rejeição de negócios passados de iniciados com maiores impostos de valor acrescentado sobre os consumidores; e para reduzir pensões para trabalhadores.

Esta perspectiva estava no centro de uma reunião no Parlamento Europeu em Bruxelas em 2 de julho. [3] Havia naturalmente apoio unânime a um voto "Não" às exigências anti-trabalho e pró credores por parte do FMI, BCE e Conselho Europeu. Mas também havia a preocupação de que líderes do Syriza não começassem imediatamente após a sua vitória eleitoral de janeiro a educar os eleitores sobre o que realmente estava em causa: porque permanecer sujeito à teoria econômica lixo ditada pelo FMI e BCE tornará a economia sujeita à deflação crônica da dívida. Ao invés de passar os últimos seis meses a educar o público sobre o que estava em causa com a Troika, o Syriza centrou-se em lutar um combate contra as cordas para demonstrar quão firmemente o BCE e a CE estavam comprometidos com a austeridade.

Os membros da esquerda do Syriza com quem me encontrei nas últimas duas semanas em Atenas, Delphi e Bruxelas sentiam que deveria ter sido feito mais para educar o público grego de quão impossível é para a Grécia pagar as dívidas com que a Troika a sobrecarregou, com abjeta rendição da coligação pró-bancos Pasok/Nova Democracia que governou a Grécia durante uma geração. (Samaras, o líder da Nova Democracia, demitiu-se após o resultado da votação na noite passada.)

Um fator que pode ter gregos indignados a votarem "Não" foi a revelação de que uma análise interna de sustentabilidade de dívida do FMI (IMF Debt Sustainability Analysis) – a qual Lagarde procurou ocultar – endossou o que o líder do Syriza, Alexis Tsipras, tinha estado a dizer o tempo todo: a Grécia precisa de um cancelamento parcial (writedown). Sua dívida oficial é impagável e em primeiro lugar nunca deveria ter sido imposta sobre ela – sob condições em que a Troika removeu o primeiro-ministro eleito do gabinete para colocar ali o seu próprio tecnocrata (Lucas Papademos, que havia trabalhado com a Goldman Sachs para falsificar o balanço de 2001 do governo a fim de permitir cumprir as condições de entrada na eurozona).

Foi revelado na semana passada que a chefe do FMI, Christine Lagarde, havia desautorizado sua equipe e diretores a fim de defender especificamente interesses franceses. Tal como em 2010-11 sob Dominique Strauss-Kahn, quando bancos franceses eram os principais detentores de títulos gregos (inclusive através da sua propriedade de bancos gregos). Strauss-Kahn desautorizou sua equipe quando ele instou o FMI a não capitular às exigências do BCE para pagar detentores de títulos franceses, alemães e outros privados com empréstimos de salvamento da Troika pelos quais tornavam os contribuintes gregos responsáveis.

Duas semanas atrás o Parlamento grego divulgou um relatório da sua Comissão da Verdade da Dívida explicando porque a dívida da Grécia ao FMI, BCE e Conselho Europeu era legalmente "odiosa". Foi imposto à Grécia por exigência da sra. Merkel e de outros líderes favoráveis aos bancos que a Grécia não efetuasse o referendo que o primeiro-ministro do Pasok, Papandreu, havia proposto acerca do salvamento de bancos franceses e alemães a expensas dos gregos.

Aquilo foi a raiz dos problemas de hoje. Foi também o momento no qual a finança e a democracia europeia tornaram-se incompatíveis, levando o falecido editor do Frankfurt Allgemeine Zeitung , Frank Schirrmacher, a escrever o seu famoso editorial "Democracia é lixo". [4]

A Troika recusou-se a cancelar um único euro da dívida impagavelmente alta. Eles pretendiam que o alívio da dívida é uma questão para depois. Foi o que permitiu a Tsipras descrever o seu país como vítima da viciosa guerra de classe da eurozona. A posição do Syriza tem sido "Queremos pagar. Mas simplesmente não há dinheiro – como os próprios cálculos do FMI mostraram clara e explicitamente".

Terça-feira passada, Tsipras explicou aos eleitores gregos que a Troika não havia dito nada por escrito acerca de cancelamentos de dívida. Isto perfurou o labirinto do pânico induzido pelos meios de comunicação. O seu aparente desejo de render-se simplesmente desafiou a Troika a por as suas promessas por escrito. Ele certamente não estava em vias de cometer o trágico erro feito pelo líder russo Gorbachev quando acreditou nas promessas verbais da OTAN de que não se moveria para os países pós soviéticos da Europa Central e do Báltico.

A posição da Troika era e é: "Imponha austeridade agora. Falaremos acerca de cancelamentos de dívida mais tarde. Mas primeiro você deve liquidar o que resta do seu setor público. Você deve reduzir salários em mais 20% e forçar mais 20% da sua população a emigrar. Só então, quando estivermos certos de que não podemos arrancar mais qualquer euro de si, então podemos querer conversar acerca do cancelamento de algo da sua dívida. Mas não até que o tenhamos despojado de qualquer coisa que reste para pagar em qualquer caso!"

Tsipras e o ministro das Finanças Varoufakis têm sido amplamente criticados nos meios de comunicação dos EUA por aparentemente capitular à exigência da Troika. A realidade é que eles têm sido civilizados e polidos, tomando mesmo posição conciliatória ainda que só para mostrar quão totalitária e inflexível tem sido a Troika.

Este contraste entre a razão e a austeridade do "mercado livre" totalitário foi o que convenceu os gregos a votarem Não.

Notas:

[1] James Galbraith resume a desinformação em "9 myths about the Greek crisis", Politico.

[2] Ambrose Evans-Pritchard, "Defiant Greeks reject demands as Syriza readies IOU currency," The Telegraph , July 5, 2015. Ele deveria ser encarado como uma fonte de "fugas certificadas" dos negociadores do Syriza.

[3] "Peripheral debts: Causes, consequences and solutions," patrocinado pela European United Left/Nordic Green Left, GUE/NGL (GUE/NGL). O video pode ser visto aqui. (Meu discurso começa a cerca do minuto 27.)


O livro de Michael Hudson resumindo suas teorias econômicas, "The Bubble and Beyond", está agora disponível em uma nova edição com dois capítulos de bônus sobre a Amazônia. Seu livro mais recente é "Finance Capitalism and Its Discontents". Ele é um colaborador do livro "Hopeless: Barack Obama and the Politics of Illusion", publicado pela AK Press. Ele pode ser contactado através de seu site, mh@michael-hudson.com.

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