17 de julho de 2015

O naco do Quarto Reich. Julho de 2015, o mês em que reabriu a questão alemã

Marco d'Eramo

La Repubblica

Tradução / Um dos fenômenos mais frequentes, mas sempre surpreendentes, da história humana são os crimes cometidos por quem se sente vítima: israelenses que prendem os palestinos em campo de concentração a céu aberto sentem-se vítimas, vítimas do terrorismo palestino, vítimas da insegurança, vítimas da hostilidade árabe. Os racistas italianos que metem em campos desumanos os que chegam em busca de asilo sentem-se vítimas, vítimas da invasão por imigrantes clandestinos, de refugiados, que os racistas acusam de ameaçar sua segurança, sua vida, seu bem-estar.

Os alemães sentem-se vítimas dos gregos sanguessugas que ameaçam chupar o bem-estar deles, tão duramente alcançado. Porque não há o que duvidar do que dizem economistas alemães: a crise grega está exposta lá como escroqueria e fraude praticada por meridionais mentirosos, incompetentes, desonestos, que reduzem a nada a administração empenhada, austera e industriosa dos países do norte da Europa. O resumo que Jacob Soll publicou no New York Times de um encontro de economistas que aconteceu em Munique no início de julho é, quanto a isso, muito instrutivo: da conferência, participaram economistas alemães de primeiro plano, como Hans-Werner Sinn, Clemens Fuest, Henrik Enderlein e Daniel Gros.

O ambiente foi equilibrado durante toda a reunião, "até que os economistas alemães tomaram a palavra na sessão final, e a sala foi tomada por um tom completamente diferente. Por trás das teorias econômicas e dos números, havia uma mensagem moral: os alemães eram os honestos; os gregos, os corrompidos, incompetentes e absolutamente não merecedores de qualquer confiança. Ambos os lados foram reduzidos a caricaturas de si: esta história é a mesma que ouvimos durante as negociações, mas naquela sala, ficou claro o quão grande era o ressentimento que molda os pontos de vista dos economistas alemães".

Para quem, como eu, está nesse momento na Grécia, o ódio que transpira dos jornais e jornalistas alemães contra Atenas é quase surreal: estar num país obrigado a vender tudo, até as próprias ilhas, e ler que os gregos é que estariam saqueando os alemães, obriga a beliscar o próprio braço, para ter certeza de que não é sonho. O vitimismo alemão que se constata é talvez o aspecto mais inquietante da atual querela europeia. E simplesmente porque, passados 70 anos, põe-se novamente na Europa uma questão alemã, que parecia estar para sempre resolvida. É possível que os historiadores relembrem o mês de julho de 2015, não só como o mês durante o qual o projeto europeu foi enterrado, mas sobretudo, como o momento em que voltou, com força, a questão alemã – expressão na qual o adjetivo "alemão" não designa os cidadãos da Alemanha, mas o Estado e o governo político e econômico da Alemanha, a classe dirigente alemã. Assim como, quando se fala do "imperialismo norte-americano", não se cogita de atribuir ideias imperialistas a uma mãe solteira num gueto urbano dos EUA.

Uma das raras razões que tínhamos para ser gratos ao imperialismo norte-americano era que, graças simplesmente às suas grandes dimensões, os EUA haviam obrigado as elites francesas e alemãs a perceber que elas "não tinham peso", que eram como gatinhos num mundo de elefantes, e com isso os norte-americanos nos livraram da insuportável perspectiva de mais três séculos de guerras franco-alemãs. Não esqueçamos que a Alemanha unida é construção muito jovem na cena europeia, mais jovem até que a Itália unificada. E depois da unificação em 1866, a Alemanha gerou para a Europa um "problema alemão": em 79 anos, antes de ser novamente dividida, a Alemanha desencadeou duas guerras europeias (contra a Áustria em 1866 e contra a França em 1870) e duas guerras mundiais (em 1914 e em 1939): uma média de uma guerra a cada 19 anos; só o Estado de Israel (criação também recente) aproxima-se desse recorde, com cinco guerras e numerosas escaramuças em 66 anos. Em comparação, os EUA estão com 11-12 guerras (conforme se considere a invasão contra Iraque e Afeganistão como duas guerras, ou como uma e mesma guerra) em 241 anos, uma guerra a cada 20-21 anos. A tal ponto que, depois da II Guerra Mundial, quando a Alemanha foi dividida em duas, muitos compartilhavam a boutade atribuída ao escritor francês François Mauriac: "Amo tanto a Alemanha, que estou feliz que há duas".

Como que a confirmar as palavras de Mauriac, logo depois da reunificação, em 1989, alguns sinais suscitaram alguma inquietação: o papel da nova Alemanha unida a favor da dissolução da Iugoslávia e, portanto, no conflito que se seguiu à dissolução; a pressa para anexar o Leste da Europa na União Europeia, pressa que causou numerosos problemas de desequilíbrio e dissonância política; certa megalomania imperial nos planos de reconstrução da capital Berlin. Podia-se reconhecer nisso tudo o sentido de uma nova afirmação política, ainda que esses sinais pudessem não passar de erros devidos à falta de experiência, produtos de uma euforia que se esperava que fosse transitória.

Nada disso justifica qualquer apelo à memória coletiva. Em primeiro lugar, é muito duvidoso que exista alguma memória coletiva. Mas, se existir, será memória carregada de amnésias, como se vê pelo fato de que, apesar de Hiroshima e Nagasaki, mais da metade dos japoneses jovens (exatamente 52% deles) não sabem que, algum dia, houve um conflito entre Japão e EUA. O modo como os italianos tratam os imigrados marca total falta de memória das humilhações, das discriminações, até dos linchamentos sofridos por imigrantes italianos no último um século e meio (e foram dezenas de milhões). E o modo como os israelenses abusam do próprio poder militar parece incompatível com a memória dos padecimentos pelos quais passou o povo judeu ao longo de milênios.

Portanto, quando se fala de "questão alemã", o que está em jogo não é algum hipotético e improvável caráter étnico coletivo de uma pressuposta arrogância autoritária "teutônica", mas, exclusivamente, uma atitude da classe dirigente, que parece descender em linha direta dos junkers prussianos, porque, como eles, faz acompanhar cada uma de suas arrancadas expansionistas, de uma sempre brutal virada conservadora. E é preciso varrer a comparação com o Terceiro Reich, porque justamente a enormidade da devastação produzida pelos nazistas, e portanto a inadmissibilidade da comparação, "absolvem" em certo sentido, de toda a responsabilidade, a Alemanha atual. Muito mais útil seria lembrar a Alemanha bismarckiana ou guilhermiana. Sobretudo, porque essa é a experiência que modelou o surgimento do euro.

Vale lembrar que a moeda europeia única (primeiro a Serpente Monetária Europeia, SME; depois a European currency unit, ECU, Unidade Monetária; e por fim o euro) foi condição imposta pelo presidente francês François Mitterrand para concordar com a reunificação da Alemanha, como uma ferramenta para pôr rédea curta no poder excessivo que uma Alemanha unida acabaria por ter. O euro foi portanto vivido pela classe dirigente alemã como o último diktat das potências vitoriosas, meio século depois da derrota na II Guerra Mundial. Há apenas três anos, o veterano social-democrata e veterano membro da diretoria do Banco Central Alemão, Thilo Sarrazin, publicou um livro com um título muito significativo: Europa braucht den Euro nicht. Wie uns Wunschendenken in die Krise geführt hat (Deutsche Verlags-Anstalt) [A Europa não precisa do euro: Como nosso pensamento político desejoso nos levou à crise]. Sarrazin escreveu explicitamente que a Alemanha deixou-se arrastar "para a zona do euro e para a unidade europeia por causa do senso de culpa pela II Guerra Mundial" (die Kriegsschuld: em alemão, "erro" e "dívida" são expressas pela mesma palavra, die Schuld): "Os autores (do euro e das euro-obrigações) foram empurrados pelo estranho reflexo alemão segundo o qual a penitência pelo Holocausto e pela II Guerra Mundial só estará completa quando os alemães tivermos entregado todos nossos bens e todo nosso dinheiro a mãos europeias".

Assistimos aqui mais uma vez a um enésimo exemplo do fenômeno de que falamos na abertura: o que se descreve como instrumento de opressão e humilhação padecidas pelos alemães é o mesmo euro que, depois, será descrito como principal instrumento que a Alemanha usará para dominar, controlar e abusar. Foi o euro que tornou possível a metamorfose, de projeto europeu para criar uma Alemanha europeia, em projeto para a instauração (condenada ao fracasso) de uma Europa alemã.

Foi, antes de tudo, porque durante o século XX o projeto de unificação europeia só fez recopiar de modo cada vez mais servil, o processo da unificação alemã do século XIX: a primeira etapa, uma união alfandegária com o Mercado Comum Europeu, sobre os restos da Zollverein [União Aduaneira Germânica] de 1834, entre os 38 Estados da Confederação Alemã, todos com direito de veto. Em seguida, uma nova união aduaneira como a instaurada em 1866 (depois da guerra austro-prussiana), mas na qual os Estados-membros já não têm direito de veto, e com um núcleo duro dos 22 Estados da Confederação da Alemanha do Norte, que se dotaram de Parlamento comum, embora com poderes muito limitados, se comparados ao Conselho Federal que representava os Estados. Ainda nessa comparação, o Conselho Federal era equivalente à Comissão Europeia, enquanto o Reichstag correspondia ao Parlamento europeu; e a distinção entre a Confederação da Alemanha do Norte e a zona do Zollverein correspondia à Europa de duas pistas de hoje, com a Eurozona dos 17 (depois 19) em relação à União Europeia dos 27 (depois 28) membros. As semelhanças acabam por aí, porque só depois de cinco anos, em 1871, a Confederação Alemã foi absorvida pela Prússia e incorporada ao Império Alemão. Mas na realidade isso não termina aqui, porque a Alemanha, na Europa, vê-se cada dia mais na função e no estatuto de que gozou a Prússia, na unificação da Alemanha.

Claro, a deriva antidemocrática e francamente autoritária do projeto do euro não pode ser atribuída unicamente à Alemanha: o momento em que se inicia essa deriva foi marcado pelo referendo, em 2005, quando franceses e holandeses rejeitaram a Constituição Europeia. A partir daí, foi ficando cada vez mais distante a possibilidade de uma união política e, portanto, de algum controle sobre as escolhas de Bruxelas.

É normal que cada sujeito econômico e político no mundo busque beneficiar-se das circunstâncias que se apresentem. E claro que a crise econômica foi vista como uma oportunidade (e usada como tal) para caminhar na direção de promover os próprios fins políticos e financeiros de cada um. Assim, as potências financeiras do planeta utilizaram a crise (com sucesso), para privar os trabalhadores de conquistas que exigiram séculos de luta até serem alcançadas. Assim a China explorou a recessão do mundo atlântico, para afirmar definitivamente seu status de oficina do mundo. Assim a Alemanha usou a crise para arrancar da França uma bela fatia de soberania nacional, com o resultado paradoxal de o euro, concebido para frear Berlim, ter acabado por aprisionar Paris (e nesse enfrentamento, a Grécia não passa de pequena quilha no bilhar). Mas, na realidade, o problema é o de definir o objeto

É claro que, pelo menos depois da reunificação, a classe dirigente alemã pensou cada vez menos em termos de Europa e cada vez mais em termos de Alemanha. Tanto e tão bem que, hoje, como escreveu Wolfgang Münchau no Financial Times, o euro praticamente só funcionou bem para a Alemanha (em menor medida para a Áustria e os Países Baixos, embora os Países Baixos estejam atualmente em crise). Mas o euro foi desastre completo para a Itália. Revela-se mortal para a própria França. A Finlândia está em plena recessão. Espanha e Portugal são hoje mais pobres que há sete anos. Da Grécia, nem se fala. Mais uma vez, o discurso dominante na Alemanha opõe-se à realidade: o euro é considerado como regime do qual Berlim teria de suportar todos os custos, a aplicada formiguinha do norte, a pagar pelas despreocupadas cigarras do sul. Quando, de fato, foi o euro que garantiu a possibilidade de exportar os produtos alemães dentro da Eurozona: uma volta ao marco, e a valorização que se seguirá afundará imediatamente as exportações alemãs em todo o mundo.

E esta é a maior responsabilidade histórica das elites alemãs: a de ter permitido, encorajado e por fim imposto à grande maioria da população alemã, uma visão histórica que nada tem a ver com a realidade e que favorece todos os estereótipos mais nacionalistas, xenófobos, de fato, racistas. Por tudo isso, o que estamos vendo é uma comédia do poder, o jogo de esconde-esconde de uma classe dirigente que se diz obrigada a exigir da Grécia medidas insanas de arrocho [não é 'austeridade': é arrocho], porque, se não o fizer, perderá os favores da opinião pública que aquela mesma classe dirigente modelou pela forma mais reacionária; uma classe condenada, por razões democráticas, a exercer uma ditadura do capital, porque, sem isso, perde o apoio da população. Resultado disso é a evolução do Partido Social-Democrata da Alemanha (SPD) o qual, depois de ter cassado Sarrazin, adota hoje, com o vice-chanceler social-democrata Sigmar Gabriel, toda a visão de mundo de Sarrazin, com todas suas consequências políticas.

Toda a distância entre a ficção que a Alemanha conta para ela mesma sobre a crise grega e a gestão que lhe dá a troika, e a realidade, aparece de modo ofuscante no caso dos padeiros gregos. À primeira vista, pode parecer ridículo que, numa catástrofe econômica como a que atinge a Grécia, os países credores obstinem-se a exigir medidas urgentes, como a liberalização da venda de pão, não só nas padarias, mas, por que não, também nos salões de beleza; e que tenham em vista que o bilhete de transporte e o pão tenham o mesmo preço nas padarias e nos supermercados (que, até aqui, pagaram para proteger o pequeno comércio). Mas o ridículo alcança o grotesco, quando a troika impõe um diktat, em termos de ultimatum sobre o peso do filão de pão: até hoje na Grécia vendiam-se pães de um quilo ou de meio quilo. Doravante, passa a ser obrigatória a venda de formatos e pesos diversos e em gradação.

Mas o que teriam a ver os credores, com o peso do filão de pão grego? Há quatro anos, comecei um editorial em Il Manifesto com uma frase que provocou reações indignadas dos meus amigos alemães: "Onde a Wehrmacht não chegou, chegou o Bundesbank" (referia-me por exemplo a Lisboa e a Madrid). Hoje poderia acrescentar que nem os generais prussianos algum dia sonharam com legislar sobre as dimensões do filão de pão nos territórios ocupados.

Nenhum comentário:

Postar um comentário