2 de julho de 2015

Por trás da crise grega

William R. Polk

Consortium News

Tradução / Ao concentrar-se exclusivamente nos aspectos monetários da crise grega, a narrativa construída e distribuída pela mídia perde de vista grande parte do que realmente atormenta os gregos e também do que poderia possibilitar alguma solução.

Por mais de meio século, os gregos viveram tempos de grande perigo. Na década de 1930, viveram sob uma ditadura brutal, cujo modelo foi a Alemanha nazista, com polícia secreta copiada da Gestapo e com os dissidentes mandados para morrer num campo de concentração numa ilha. E, então, aconteceu algo estranho: Benito Mussolini invadiu o país.

Desafiados a proteger a sua auto-estima e seu país, os gregos puseram de lado o ódio contra a ditadura de Metaxas e uniram-se para combater o invasor estrangeiro. Os gregos fizeram tão belo trabalho na defesa do país deles, que Adolf Hitler teve de adiar a invasão da Rússia, para ir até lá resgatar os fascistas italianos. Esse movimento pode ter salvado Josef Stalin, porque o adiamento forçou a Wehrmacht a combater na lama, neve e gelo da Rússia, condições para as quais não estava preparada. Mas, ironicamente, isso também salvou a ditadura de Metaxas e a monarquia. O rei e os mais altos oficiais gregos fugiram para o Egito então ocupado pela Grã-Bretanha e, como novos aliados, foram declarados parte do “Mundo Livre”.

Enquanto isso, na Grécia, os alemães saqueavam grande parte da indústria grega, estaleiros e estoques de comida. Os gregos começaram a morrer de fome. Como Mussolini observou, “os alemães tiraram dos gregos até os cordões dos sapatos...”

Então os gregos começaram a reagir. Em outubro de 1942, iniciaram um movimento de resistência que, em dois anos, tornou-se o maior da Europa. Quando a França se orgulhava dos seus menos de 20 mil partisans, o movimento da resistência grega tinha alistado 2 milhões de resistentes, e derrotado pelo menos duas divisões de soldados alemães. E eles fizeram isso sem ajuda externa.

Quando o desfecho da guerra começou a se configurar, o Primeiro-Ministro britânico, Winston Churchill, decidiu devolver a Grécia ao regime de antes da guerra, com a monarquia e o antigo governo. Temia a influência dos comunistas ativos dentro do movimento de resistência.

Churchill tentou conseguir que o exército anglo-americano, que se aprontava para invadir a Itália, invadisse não a Itália, mas a Grécia. Na verdade, ele tanto insistiu nessa mudança no plano de guerra que quase rompeu a aliança militar dos Aliados. Quando não conseguiu o que queria, mandou para a Grécia todos os soldados que ainda estavam sob o comando dele. Com isso precipitou uma guerra civil que rachou ao meio o país. Os líderes da resistência clandestina foram derrotados e o movimento foi esmagado. A burocracia, a polícia e os programas da ditadura do pré-guerra retomaram o controle do país.

Depois da guerra, com a Grã-Bretanha sem dinheiro e sem capacidade de sustentar sua política imperial, Londres entregou a Grécia aos americanos que anunciaram a “Doutrina Truman” e afogaram o país em dinheiro, com o que impediram o sucesso eleitoral da esquerda. O dinheiro americano funcionou bem por algum tempo, mas a mão pesada da ditadura criou uma nova geração de aspirantes a democratas que desafiaram a ditadura.

Esse é o tema belamente evocado no filme Z, de Costa Gavras, estrelado por Yves Montand. Como o filme mostra, o movimento liberal do início da década de 1960 foi derrotado por uma nova ditadura militar, “o governo dos coronéis”.

Quando a junta militar foi derrubada em 1974, a Grécia conheceu um breve período de “normalidade”, mas nenhuma das fissuras profundas que havia na sociedade haviam sido realmente remediadas. Independente de que partido político designasse os ministros, a burocracia autoperpetuada continuava no controle. A corrupção era comum. E, o mais importante de tudo, a Grécia tornou-se um sistema político que Aristóteles teria chamado uma oligarquia.

Os muito ricos usavam o dinheiro para criar para si um estado dentro do Estado. Estenderam seu poder para todos os nichos da economia e construíram o sistema bancário grego de modo que se tornou essencialmente extra-territorializado. O porto de Piraeus encheu-se de mega-iates de gente que não pagava impostos e Londres foi comprada, pelo menos em boa parte, por gente que sangrava a economia grega. O “dinheiro inteligente” [“smart money”] da Grécia foi escondido no exterior.

A crise atual

Esse estado de coisas poderia ter durado muito mais tempo, mas quando a Grécia uniu-se à União Europeia em 1981, banqueiros europeus (principalmente alemães) farejaram uma oportunidade: voaram em bandos para a Grécia, para oferecer empréstimos. Até quem não tinha renda que tornasse razoável qualquer empréstimo ganhou empréstimos. Em seguida, os credores começaram a exigir o reembolso. Chocados, os empresários começaram a demitir. O desemprego aumentou. As oportunidades desapareceram.

Não há qualquer remota chance de aqueles empréstimos serem pagos. Nunca deveriam ter sido oferecidos e nunca deveriam ter sido aceitos. Para manter-se à tona o governo cortou em serviços públicos (não cortou gastos militares) e o povo sofreu muito. Nas eleições de 2004, o povo ainda não havia sofrido o suficiente a ponto de eleger a coalizão radical liderada pelo partido “Unidade” (SYRIZA). Naquele ano, o partido recebeu apenas 3,3% dos votos.

Então, depois do crash financeiro de 2008 vieram anos de dificuldades que aumentavam dia a dia, todos os políticos eram considerados culpados de tudo e havia muita raiva. Era raiva popular, dos que se sentiam desorientados pelos banqueiros e pela própria loucura. Não havia esperança nem havia saída à vista, e os gregos começaram a virar-se na direção do partido SYRIZA. Depois de várias tentativas, afinal nas eleições de 2015 o SYRIZA alcançou 36,3% dos votos, e elegeu 249 dos 300 membros do Parlamento.

Hoje, as condições que empurraram na direção dessa eleição são ainda mais graves: a renda nacional da Grécia caiu 25% e o desemprego entre os mais jovens é superior a 50%. Assim sendo, o que resta aos negociadores fazer?

Com Alemanha e UE a exigir mais austeridade, os gregos estão furiosos. Há no país memórias profundas de ódio aos alemães (antes eram soldados, agora são banqueiros). Os gregos foram mal interpretados, mal representados e traídos pelos seus próprios políticos vezes sem conta. O Primeiro-Ministro Alexis Tsipras sabe que, se for marcado com o rótulo “vendido”, sua carreira está acabada.

E o pacote do dito “resgate” que o FMI e o BCE ofereceram pesa muito contra a Grécia. Os gregos veem a opção de sair do euro como semelhante à posição que Grã-Bretanha e Suécia assumiram desde o início, de não adotar a moeda europeia – mas terá de haver ajuste doloroso para a economia grega, caso a Grécia tome a decisão, sem precedentes, de desligar-se do euro.

Mesmo assim – a menos que FMI e BCE façam nova oferta, que traga alguma coisa que dê aos gregos chance de uma vida melhor e cancelem parte significativa da dívida – entendo que os gregos acertarão se votarem “Não”, no domingo; se rejeitarem as demandas dos banqueiros, que querem mais austeridade; e se abandonarem o euro.

William R. Polk é um consultor veterano de política externa, autor e professor que ensinou estudos do Oriente Médio na Universidade de Harvard. O presidente John F. Kennedy nomeou Polk para o Conselho de Planejamento Político do Departamento de Estado onde atuou durante a crise dos mísseis. Seus livros incluem: Violent Politics: Insurgency and Terrorism; Understanding Iraq; Understanding Iran; Personal History: Living in Interesting Times; Distant Thunder: Reflections on the Dangers of Our Times; e Humpty Dumpty: The Fate of Regime Change.

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