13 de agosto de 2015

Entre o Oriente Médio e a Ucrânia: Crônica de uma hegemonia em declínio

Frederico La Mattina

Associazione Politico-Culturale Marx XXI

Tradução / Enquanto se chega ao histórico acordo com o Irã, prossegue a demonização de Bashar al Assad e os Estados Unidos, tranquilizando sauditas e israelenses depois da porrada iraniana, não parecem ter a intenção de mudar a estratégia para o Oriente Médio no que se refere à Síria. Enquanto com Cuba se alcança uma reconciliação histórica, continua a agressão contra a Venezuela bolivariana, coluna vertebral do resgate continental da Pátria Grande latino-americana. Prossegue ao mesmo tempo a guerra civil ucraniana; “o papel não passivo” [1] da OTAN defendido por Brzezinski se faz sentir e estão em marcha novas ações. O Pivô para a Ásia (política externa estadunidense para a região), tendo ao seu redor a Parceria Trans-Pacífico (TPP, sigla em inglês) – que apoia o gêmeo euro-atlântico Parceria Transatlântica de Comércio e Investimentos (TTIP, sigla em inglês) – continua a exercer pressão sobre o dragão chinês, principal rival geopolítico: aqui, porém, o jogo é adiado.

A hegemonia global da “nação indispensável” – que substituiu no século 20 a Grã Bretanha depois do colapso do império britânico – governada (por assim dizer) pelo claudicante Obama se encontra administrando (mal) uma crise hegemônica de época, quanto à duração, e de desfecho imprevisível. Giovanni Arrighi (estudioso dos processos de transição hegemônica) fez notar como a expansão financeira do final do século 20 é caracterizada como uma anomalia.

Em face de um processo de “recentralização” da economia global na Ásia Oriental (e de modo particular na China), estamos diante de uma bifurcação sem precedentes entre os poderes financeiro e militar que pode levar a diversos cenários futuros, com base na reação da potência hegemônica norte-americana declinante.

Alguns analistas veem no acordo com o Irã a busca daquele “balance of power” [equilíbrio de poder] defendido por Henry Kissinger na sua última obra “World Order” [Ordem Mundial] que dedica amplo espaço – nem sempre benevolente – à estratégia americana. Para Kissinger uma nova “Ordem Mundial” não poderá existir sem diversos equilíbrios regionais em que os Estados Unidos – está claro – exerçam o papel de “fiel da balança” para garantir em última análise a direção americana [2]. Segundo Germano Dottori, o acordo com o Irã, inclusive o mau humor israelense e saudita, não apontaria no sentido de mudar a aliança, mas para forjar um novo “equilíbrio de forças” em um Oriente Médio cada vez mais deflagrado [3]. O recente apoio à agressividade turca pintada de neo-otomanismo, o apoio obstinado aos chamados rebeldes ‘moderados’ sírios e a intransigência para com Assad, levam, porém, a esperar pouco quanto ao mérito de uma estratégia que inclua o consenso do Irã e da Rússia (temerosa de alastramentos explosivos no Cáucaso).

O analista Gareth Porter, autor do livro “Manufactured Crisis: The Untold Story of the Iran Nuclear Scare”, observou bem como o mérito do acordo alcançado vai sobretudo na direção da diplomacia persa. O Irã “considerou há muito tempo o seu programa nuclear não apenas em termos de energia e desenvolvimento científico mas também como um modo de induzir os Estados Unidos a negociar o fim da situação jurídica especial na qual o Irã foi colocado por tanto tempo”. O acordo nuclear mostra a importância fundamental da “distribuição do poder” e das relações de força (que permitiam aos EUA mirar o Irã com olhar superior) mas também “a possibilidade para um Estado mais fraco obter os seus interesses vitais nas negociações com a potência hegemônica” [4].

Passando ao Norte da África, a não-Líbia está imersa no caos, disputada por dois governos e dezenas de grupos armados. O colapso da Líbia é uma consequência direta da agressão sob a direção franco-anglo-estadunidense que Angelo Del Boca, autorizado historiador do colonialismo italiano na Líbia, não hesitou em definir “com precisas conotações neocolonialistas” (5). Na Líbia, assim como no Egito, assiste-se a uma divisão interna no ‘mundo sunita’ com a Arábia Saudita e a dupla Catar/Turquia alinhados em frentes opostas.

O enfrentamento mais perigoso entre todas as crises é com a Rússia; a União Europeia tem desempenhado um papel de primeira ordem na escalada da crise, impulsionada pelos Estados Unidos, interessados em minar as relações euro-russas com a União Europeia que Brzezinski na sua “Strategic Vision” de 2012 definia como um “parceiro geopolitico júnior dos Estados Unidos e do Ocidente semi-unificado” [6].

Mutatis mutandis, relança-se o “Prometeísmo”, plano antissoviético elaborado pelo militar polonês Józef Piłsudski no início do século 20: o escopo era “apoiar os movimentos independentistas ucranianos e georgianos para minar a força da nascente União Soviética e recriar a multinacional Sereníssima Res Publica Poloniae implodida no século 18” [7]. A ideia de Piłsudski era a de reconstituir a Międzymorze (Intermarium, entre mares), entre o Mar Báltico e o Mar Cáspio finalizada com a formação de uma federação multiétnica entre a Alemanha e a Rússia em memória da velha Sereníssima Res Publica Poloniae (confederação polaco-lituana), apoiando o separatismo étnico das ‘nacionalidades não russas’, na Rússia que se debatia com a guerra civil em 1918. No âmbito da doutrina Intermarium (entre mares), um papel importante era esperado da Ucrânia enquanto Ucrânia antirrussa limitasse o acesso da Rússia ao Mar Negro [8]. A doutrina Intermarium foi retomada de forma diferente nos anos sucessivos e muitos analistas notaram como hoje a OTAN relança o ‘prometeísmo’, concentrando-se exatamente nos países bálticos, na Romênia e na Polônia (e na Ucrânia) para a formação de uma verdadeira linha de contenção contra a Rússia.

No Oriente Médio se joga uma grande partida iraniano-saudita encoberta por um manto sectário de wahabismo versus xiismo. Um enfrentamento no qual prevalece a dimensão geopolítica e geoenergética entre duas grandes potências regionais (com respectivos aliados) pelo controle do Golfo Pérsico-Arábico. De outra parte, seria paradoxal ler à luz do paradigma religioso o acordo (implícito) israelense-saudita entre dois países que sequer se reconhecem oficialmente.

Enquanto o Oriente Médio (onde objetivos geopolíticos são combinados com conflitos políticos, sectários, tribais e territoriais) encontra-se deflagrado, a segurança europeia é ‘confiada’ a países bálticos e aos poloneses com o flutuante consenso-dissenso alemão (a Alemanha apoiou amplamente o golpe da Praça Maidan). Enquanto isso, se prepara o confronto com o principal antagonista da hegemonia estadunidense em nível global: a República Popular da China. O parêntese obamiano – de que ilusoriamente se esperou muito – chega a seu epílogo, provavelmente destinado a ser lembrado como um intervalo entre as oligarquias Clinton e Bush.

Notas:

[1] Z. Brzezinski, “After Putin’s aggression in Ukraine, the West must be ready to respond”. (Depois da agressão de Putin, o Ocidente deve estar pronto a responder). The Washington Post, 03/03/2014.

[2] H. Kissinger, Ordem Mundial, Rio de Janeiro, Objetiva 2015.

[3] G. Dottori, Il rompicapo di Obama; (O quebra-cabeça de Obama), em “Limes”, revista italiana de geopolítica, 5/2015.

(4) G. Porter, How a weaker Iran got the hegemon to lift sanctions. (Como um Irã mais fraco obrigou a potência hegemônica a levantar as sanções), “Middle East Eye”, 15/07/2015.

[5] A. Del Boca, Gheddafi. Una sfida nel deserto. (Kadafi. Um desafio no deserto), Bari, Laterza, primeira edição atualizada 2014.

[6] Z. Brzezinski, Strategic Vision. America and the Crisis of Global Power. (Visão Estratrégica. A América e a Crise do Poder Global), Basic Books, New York, Kindle.

[7] D. Fabbri, Obama non vuole la guerra grande dunque la prepara. (Obama não quer a grande guerra, portanto a prepara), em “Limes”, revista italiana de geopolítica, 1/2015.

[8] V. Gulevich, La dottrina Intermarium e l’integrazione dell’Ucraina con l’Europa, tr. it.:. (A doutrina Intermarium e a Integração da Ucrânia com a Europa). Geopolitica, 07/04/2014.

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