17 de agosto de 2015

Japão: O plano de um pacifista para armar o mundo

O ministro espera que exportações de defesa venham a impulsionar a base industrial do país e combater a ascensão da China

Leo Lewis e Robin Harding


Tradução / Às 8 e 45 da manhã de 19 de fevereiro de 1942, quase 50 caças e bombardeiros japoneses tinham sido lançados do porta-aviões Soryu. Uma hora mais tarde, encabeçados pelos estridentes caças Mitsubishi A6M “Zero”, tinham dado início ao bombardeamento de Darwin – uma operação de que resultaram centenas de mortos, oito navios afundados, e que foi a maior alguma vez empreendida por uma potência estrangeira contra a Austrália.

Sete décadas depois, o Japão está de regresso – como convidado. Nos termos do programa – de 20 bilhões de dólares – de renovação da sua frota de submarinos, o governo australiano está interessado na compra de submersíveis diesel-elétricos japoneses cujo nome homenageia Soryu. Se o Japão obtiver o contrato, os submarinos serão, pelo menos em parte, construídos pelas Indústrias Pesadas Mitsubishi.

Durante 70 anos o Japão tem permanecido um gigante adormecido no que diz respeito ao setor da defesa, mas está acordando. Em abril de 2014 o primeiro-ministro Shinzo Abe deu por encerrada – como parte da sua nova posição de “pacifismo pró-ativo” – a interdição auto-imposta pelo Japão à exportação de armamento.

O Japão possui sofisticada tecnologia militar, mas a questão que se levanta em relação ao plano de Abe é se produzir equipamentos de alta qualidade será suficiente. O sucesso na venda de equipamento de defesa depende de muitos outros fatores, como o treinamento militar, que são difíceis de concretizar num país pacifista.

Há indícios, entretanto, de que Tóquio passou a encarar as exportações de material de defesa não apenas como uma questão de política industrial mas também como um importante elemento da sua estratégia diplomática numa região instabilizada pela ascensão da China. Com objetivos tão ambiciosos, o Japão parece determinado a superar quaisquer obstáculos.

“Trabalhar com países amigos em equipamento ou tecnologia contribui para a segurança bilateral e a cooperação na defesa, ao mesmo tempo que projetos conjuntos de desenvolvimento podem reforçar a nossa indústria de defesa e a nossa base tecnológica, elevando a capacidade de defesa do nosso país”, diz Akira Sato, ministro de Estado da defesa, em entrevista ao Financial Times. “Do ponto de vista estratégico, penso que existem muitas áreas que o Japão vai querer explorar.”

Em teoria, a iniciativa de Abe abriu o mercado internacional a companhias privadas japonesas envolvidas na produção de equipamento militar e seus componentes, cujo número se estima em 3.000. As ambições e as finanças desses fabricantes deixariam de estar condicionadas pelo relativamente pequeno orçamento anual de 7 bilhões de dólares das Forças de Autodefesa do Japão (SDF) – efetivamente o seu único cliente desde os anos 50. Vendas ao exterior irão reduzir custos unitários e, questão que é crítica para as necessidades japonesas, permitirão manter em atividade muitos pequenos fornecedores atualmente em dificuldades.

Na realidade, é provável que seja um grupo mais seleto a beneficiar com a anulação da interdição. Consultores industriais estimam que menos de 300 companhias retiram mais de metade do seu rendimento da defesa. Uma das razões porque a Mitsubishi Heavy Industries, Komatsu, IHI e outras empresas de topo falam tão pouco sobre a defesa é que ela representa apenas entre 1 e 11 % do total do seu volume de negócios.

Em contraposição, as maiores empresas nos EUA obtém entre 60 e 90% do seu volume de negócios da defesa.

“As empresas japonesas não querem dizer que participam no negócio da guerra, em particular quando o negócio da guerra é tão pequeno para elas,” diz Shinichi Kiyotani, um alto conselheiro do Centro de Informação de Defesa Kanwa. “Mesmo empresas – por exemplo uma especializada em óculos de visão noturna – que foram diretamente sondadas por militares franceses e dos EUA não querem mencionar o assunto por razões de imagem.”

Mas outras, acrescenta, têm fortes razões para querer exportar. Segundo analistas da Deloitte Tohmatsu, o orçamento para aquisições das SDF, que era de 6,7 bilhões de dólares em 2011, não projeta subir senão para 7,3 bilhões em 2019, e mesmo esse valor pode ser reduzido se o crescimento do PIB japonês abrandar; em contraste, o orçamento chinês para aquisições era de 18,1 bilhões de dólares em 2011 e está projetado atingir 46,8 bilhões em 2019.

“O Japão precisa de clientes que não sejam o SDF”, diz Kiyotani.

Déficit de Know-how

A interdição às exportações era apenas um dos obstáculos entre o Japão e um negócio de exportação significativo. Os outros, dizem peritos industriais, podem vir a verificar-se insuperáveis. A prolongada ausência do Japão no mercado internacional privou-o de informação, conhecimento de bastidores e habilidade negocial.

Os representantes e homens de negócios japoneses foram arredados do processo mundial de encomendas durante décadas, diz Tate Nurkin, um alto dirigente na IHS Defence Weekly. O ministro da defesa japonês, embora tenha preenchido com centenas de burocratas e de oficiais o pessoal da sua nova agência de promoção e vendas, têm ainda muito a fazer na definição precisa da forma como esta irá operar e se adotará a estratégia dos EUA ou a europeia para as vendas de defesa. Podem emergir conflitos desgastantes entre os ministérios da defesa, do comércio e das finanças na medida em que estes se enredem nos detalhes técnicos de cada negócio. Mesmo as próprias empresas admitem estar confusas.

A JMU Defense Systems, que fabrica o transportador de helicópteros da classe Izumo (250 milhões) – o maior navio de guerra que o Japão construiu desde a segunda guerra mundial – deveria encontrar-se no centro dos acontecimentos. O seu veículo anfíbio poderia interessar um leque de países asiáticos com ilhas para defender. No entanto, segundo Hirohiko Sakurai, o gestor chefe do departamento de vendas da JMU: “As regras mudaram, mas ainda não sabemos o que podemos e não podemos fazer.”

Depois existem as habituais barreiras para as empresas japonesas no exterior: o país tem falta de executivos que dominem línguas estrangeiras e as divisões militares das grandes empresas têm poucos gestores com experiência no exterior.

Receios quanto aos preços

Corretores de equipamento de defesa dos EUA dizem que o Japão irá ter um rude sobressalto quando descobrir que os seus competidores no mercado moderno são Malásia, Singapura, Indonésia, Turquia e outros que estão em condições de produzir uma versão “suficientemente decente” seja do que for que o cliente deseje.

“Se és um país do terceiro mundo, suficientemente bom é suficientemente bom,” diz um veterano da indústria. “Para muitos destes clientes, o preço é mais importante do que a qualidade, e o Japão não é propriamente barato.”

Ainda assim, o sonho de estimular o crescimento através da exportação de armamento é partilhado por muitas empresas japonesas, apesar da sua cuidadosamente elaborada imagem de confortáveis redutos da produção civil. O final da interdição é o resultado do esforço de muitos anos das empresas “contra os constrangimentos” impostos pela história e pelas convenções, diz Richard Samuels, diretor do Centro de Estudos Internacionais no MIT.

“Do que se tratou não foi apenas do ministro do comércio a impulsionar uma nova vertente para as exportações, foi o resultado de um trabalho muito duro e prolongado de uma coligação de empresas industriais japonesas. Havia, evidentemente, uma sensibilidade por parte de empresas, relutantes em serem encaradas como mercadoras da morte, mas pareceram preparadas para superar isso e para mostrarem ao mundo o que têm para oferecer”, diz o Prof. Samuels.

A promoção dos equipamentos militares japoneses já começou, ainda que cautelosamente e com uma expectativa de que é mais provável que Tóquio consiga sucesso como fornecedor de materiais de importância crítica e de componentes de alta tecnologia do que como fornecedor de navios, aviões ou sistemas de armamento integralmente equipados.

Em maio, o Japão foi o anfitrião da sua primeira feira de negócios de armamento desde a Segunda Guerra Mundial, e em setembro oito empresas japonesas têm agendada a participação na muito maior DSEI, a feira de segurança e defesa em Londres. O destaque irá para os US-2 e P-1 – aviões que se sabe interessarem a Índia e a Grã-Bretanha.

Por detrás da balbúrdia das exposições, contudo, deverá estar um reconhecimento de que o Japão está entrando num mercado que tem um excedente de oferta, que é diabolicamente complexo e, segundo um analista, “um lugar que força acordos de cavalheiros com pessoas que sabes que não são cavalheiros”.

Jack Midgley, diretor em Tóquio da consultoria de defesa na Deloitte Tohmatsu, diz que o maior crescimento no mercado global provém da América do Sul e de África, onde China e Índia têm os seus interesses já instalados. E existem obstáculos, mesmo quando se trata de vender componentes e materiais em vez de sistemas completos.

O sr. Midgley diz que “quando se fala da exportação de componentes, isso significa que eles se tornam subempreiteiros de empresas ocidentais” como a Lockheed Martin.

“Para fazer isso, o Japão necessitará de sistemas de relatório financeiro, de técnicas de acompanhamento de projeto e de outras coisas que constituem o vocabulário básico no Ocidente mas que as empresas japonesas de defesa não possuem. Mesmo para um potencial fornecedor nos EUA, demora anos a instalar tudo isso.”

Tornar-se um sub-empreiteiro para fabricantes de defesa ocidentais poderá fazer os custos subirem até às centenas de milhões de dólares para cada empresa – dinheiro que poderia investir noutro lado com maior lucro, uma vez que até o momento não foi dado por parte do governo qualquer sinal de vir a apoiar financeiramente.

As empresas que irão arriscar serão provavelmente as que já estão sobrecarregadas com os elevados custos da produção de equipamentos de defesa para a SDF japonesa e que não podem abandonar esse negócio. Os analistas esperam que o fato de venderem no mercado global possa ajudá-las a se tornarem mais eficientes.

Construindo relações

Os cálculos políticos por trás da autorização de exportações de armamento são tão evidentes como os comerciais. Apesar das tormentosas relações do Japão com a Coreia do Sul e a China, Abe tem comparativamente sido um diplomata de sucesso em outros lugares da Ásia e do resto do mundo. Está igualmente bem consciente de que a venda de plataformas de defesa de grande porte como submarinos ou aviões de patrulha – produtos desejáveis para países vizinhos da Coreia do Norte, Rússia e China – pode garantir mais profundas relações geopolíticas.

De acordo com diplomatas em Tóquio, houve uma alteração significativa na atitude da administração de Abe desde o levantamento do embargo. Inicialmente, a medida era parte da intenção mais alargada de Abe no sentido da normalização do estatuto do Japão, com as exportações de defesa como apenas um outro meio para atingir esse objetivo político. Contudo, os responsáveis pela política japonesa de defesa muito rapidamente passaram a encarar as exportações de defesa em termos estratégicos. “Encomendar é aquilo que fazes em lugar de uma aliança,” diz um diplomata asiático, acrescentando que, mais do que no reforço da sua indústria de defesa, Tóquio está interessado na construção de amizades.

Interrogado sobre se o Japão iria exportar equipamento militar mesmo que isso não fosse lucrativo, Sato admitiu que tal seria “possível, encarado caso-a-caso.” A questão crítica, diz, é o relacionamento. “Temos que contabilizar quanto podemos contribuir para a paz mundial, portanto a questão não é apenas de preço.”

Esse cálculo pode ser determinante numa altura em que Tóquio se aproxima de um negócio que pode cimentar laços mais próximos com Camberra. Espera-se que na próxima semana o governo japonês e vários dos seus mais importantes fornecedores de material de defesa divulguem uma informação atualizada sobre as negociações com a Austrália no sentido do desenvolvimento de uma frota dos dissimulados submarinos Soryu, que são alimentados por baterias de ion-lítio. O acordo representará o primeiro grande contrato do Japão desde que foi levantada a interdição às exportações – e será um poderoso cartão de visita para o conjunto da sua indústria de defesa.

Lance Gatling, consultor e corretor de defesa em Tóquio, diz que um negócio desta dimensão é vital. “Para as empresas japonesas, em geral, um precedente é tudo. Mas nesta situação é muito mais. É isso que fará com que tudo comece a avançar.”

Mas adverte que o contrato dos submarinos pode ser um risco. “O Japão poderia ter procurado projetos de desenvolvimento conjunto mais simples do que este para pôr em andamento. Os que estão iniciando são muito, muito complexos. Em vez de gatinhar, andar e começar a correr, eles estão a atirar-se para o mais complicado.”

“Não há nada mais complexo do que submarinos,” diz. “Para fazê-los é necessário mais do que querer fazê-los.”

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