3 de agosto de 2015

O antiterrorismo da OTAN

Manlio Dinucci

Il Manifesto

Tradução / “O terrorismo constitui uma ameaça direta contra a segurança dos países da OTAN”, declarou o Conselho do Atlântico Norte ao condenar “os ataques terroristas contra a Turquia” e ao comprometer-se a acompanhar de muito perto as operações na fronteira oriental da OTAN. Só na Turquia, a OTAN tem mais de vinte bases militares reforçadas por baterias de misseis estadunidenses, alemães e espanhóis, com capacidade de destruir objetos voadores no espaço aéreo sírio. Na cidade de Izmir, a OTAN transferiu o Landcom, comando das forças terrestres dos vinte e oito países membros, hoje em plena atividade.

Como mostram as enquetes do New York Times e do The Guardian, sobretudo nas províncias turcas de Adana, Hatay e na Jordânia, a CIA abriu, há muito tempo, centros de treinamento de militantes islâmicos, oriundos do Afeganistão, Bósnia, Chechênia, Líbia e outros países, preparando-os e armando-os para cometer ações terroristas na Síria. O apoio da CIA também destinou-se àqueles que formaram o ISIS para derrubar o governo de Damasco e que em seguida atacaram o Iraque no momento em que o governo do xiita al-Maliki se afastava de Washington e se aproximava de Pequim e Moscou. As armas que chegam via Arabia Saudita e Qatar entram na Síria por meio da fronteira turca, onde centenas delas transitam cada dia sem nenhum controle.

Agora, sob a capa da “luta contra o ISIS”, a Turquia ataca os curdos do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK) que lutam contra o ISIS. Apoiado pela Casa Branca, o porta-voz Alistair Baskey define o PKK como um “grupo terrorista”, ao afirmar que “a Turquia tem o direito de se defender contra os ataques terroristas dos rebeldes curdos”. Concomitantemente, Estados Unidos e Turquia chegaram a um acordo sobre um plano para a criação de uma “zona segura”, “livre do ISIS”, ao longo de uma faixa que possui centenas de quilômetros e que se estende do território sírio à fronteira turca. O plano prevê a utilização de caça-bombardeiros estadunidenses, presentes na Turquia e forças terrestres turcas, acompanhadas de operações secretas por forças especiais EUA/OTAN. Esta faixa territorial sobre a qual será imposta uma “zona de exclusão aérea” deveria estar controlada por aqueles que o New York Times define como “rebeldes sírios relativamente moderados”, armados e treinados pelo Pentágono, entre os quais muitos se alistaram no Estado Islâmico e na Frente jihadista al-Nusra.

Ao autorizar ataques aéreos para apoiar os “rebeldes” treinados pelo Pentágono, Obama autoriza a guerra aérea EUA/OTAN contra as forças governamentais sírias. Grupos “rebeldes” também são apoiados por Israel, como declarou o ministro da defesa Ya’alon (ver The Times of Israel, de 29 de junho de 2015). A criação da “zona segura” com fins humanitários para dar abrigo aos refugiados sírios constitui o começo do projeto oficial do desmantelamento da Síria, Estado soberano e membro da ONU, que renunciou a armas químicas, ao contrário de Israel que possui até armas nucleares. A OTAN “presta socorro” ao Iraque, ameaçado pelo ISIS: a organização do Tratado do Atlântico Norte anunciou no dia 31 de julho que ela treinara, na Turquia e na Jordânia, combatentes iraquianos (selecionados por Washington para a balcanização do Iraque). Dessa maneira, a OTAN utiliza a estratégia que visa a redesenhar o mapa do Oriente Médio, apagando, como foi feito na Iugoslávia e no Norte da África com a Líbia , os Estados considerados como obstáculos aos interesses do Ocidente, provocando milhões de mortes e refugiados, enquanto a Casa Branca publica a petição popular contra a morte de um leão, a fim de mostrar toda sua humanidade.

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