25 de agosto de 2015

Privatização é o cerne do fascismo

Eric Zuesse

Strategic Culture Foundation

Tradução / As privatizações estão cada vez mais na moda, na Grécia, na Ucrânia, nos EUA e na Grã-Bretanha - e privatizações são uma característica central do fascismo.

O núcleo do fascismo é a ideia de que há alguma elite, seja "ariano" ou "escolhido por Deus", ou de outra forma, que deve comandar; e todos os demais seres humanos existem para servir àquela elite. Inevitavelmente, essa elite oficial consiste no pessoal que o poder, seja qual for, escolhe para serem os proprietários de tudo que tenha valor de venda. Cada vez mais, as coisas tornam-se posse privada dessas pessoas - até mesmo o que antigamente era um bem público torna-se agora privado. Praias tornam-se privadas. As escolas tornam-se privadas. Os recursos naturais tornam-se privados. Não se trata só da arte que os nazistas roubaram e privatizaram e/ou exibem em museus controlados por eles, que se torna privada; é tudo que aquela elite deseja ter e controlar: tudo será privatizado. Esse é o ideal fascista.

O sistema legal acomoda os proprietários legais em qualquer nação fascista, assim como qualquer sistema legal acomoda os proprietários legais em absolutamente qualquer nação. E, no fascismo, os proprietários legais são a aristocracia, que é constituída do pessoal que ajudou a fazer do sistema o que ele hoje é. Nos casos-padrão, é a aristocracia que já existe numa dada nação, se antes foi uma democracia (aristocratas tendem a odiar a democracia; por isso criam o fascismo para substituí-la), mas também pode ser um grupo parcialmente novo e parcialmente composto do segmento vitorioso da velha aristocracia - o segmento da velha aristocracia que venceu o conflito intra-aristocracia que sempre há, dentro de qualquer aristocracia. Ao mesmo tempo em que qualquer aristocracia sempre está em guerra contra o bem público, assim também há concorrência dentro de todas as aristocracias, para determinar quais aristocratas dominarão os demais.

Todos os fascismos são controlados pela aristocracia nacional e servem a essa gente - não ao público, que nada recebe, além de propaganda do regime dos aristocratas. Mesmo numa ditadura, não só numa democracia, a mídia é indispensável para vender ao público as políticas do governo. Se a imprensa é privatizada, é propriedade de membros da aristocracia. Se a imprensa é possuída diretamente pelo governo, ainda é propaganda. A maioria do público não tem como escapar da propaganda. Se aristocratas estão no controle, poucas pessoas sequer sabem que esse é o caso.

Assim, a privatização substitui patrimônio público, patrimônio do Estado, por patrimônio privado, e assim transfere o controle, que deve caber a governos eleitos (que respondem a todos em urnas), a acionistas privados, que não prestam contas a ninguém e que decidem sobre aquele patrimônio, seja uma escola, um hospital, a terra, os recursos naturais, as estradas, o que for. qualquer coisa pode ser privatizada. Qualquer coisa pode ser comandada por alguma elite, por algum "proprietário". O fascismo se dedica a maximizar esse processo: a propriedade privada do que era anteriormente propriedade pública.

Sabendo-se disso, é fácil compreender por que o primeiro bloco de privatizações aconteceu na primeira nação fascista que o mundo conheceu, a Itália, nos anos 1920; e o segundo bloco de privatizações ocorreu na segunda nação fascista, a Alemanha, nos anos 1930. As privatizações começaram com Mussolini, depois foram instituídas com Hitler. A bola fascista continuou a rolar; e, depois de um hiato de umas poucas décadas, logo depois da fantasiada derrota dos fascistas na Segunda Guerra Mundial, as privatizações reapareceram; e novamente vieram à tona depois de 1970, quando forças fascistas na aristocracia global – através de CIA, FMI, Grupo de Bilderberg e Comissão Trilateral – impuseram o reino global dos maiores proprietários privados de ações e papéis: outra vez os aristocratas do mundo ganham porcentagens crescentes do que anteriormente era patrimônio público.

As privatizações, depois de terem nascido em berço fascista durante os anos que antecederam a Segunda Guerra Mundial, voltaram a aparecer nos anos 1970, no governo fascista chileno Augusto Pinochet; e nos anos 1980, no governo fascista da britânica Margaret Thatcher (apaixonada apoiadora do apartheid na África do Sul); e também no governo de Ronald Reagan, fascista sorridente (que veio depois do sucesso da "Estratégia Sul" de Richard Nixon, de dominação branca no então ressurgente conservadorismo norte-americano, e que se pode dizer que foi o primeiro presidente absolutamente fascista que os EUA tiveram); e nos anos 1990 sob vários governos fascistas - de líderes que antes haviam sido comunistas, em toda antiga União Soviética, os quais, sob a orientação dedicada do departamento fascista de Economia da Universidade de Harvard - transferiram o controle, da nomenklatura de antes, para os "oligarcas" dependentes do ocidente de hoje.

E as privatizações estão novamente em fúria, ativas por todo o mundo, como nos EUA fascistas e no Reino Unido fascista.

Mussolini era o homem do futuro, mas - depois que morreram Franklin Delano Roosevelt, Thatcher (finalmente) e Reagan, e outros livres-mercadistas assumiram o poder -, a cada dia que passa, mais o "futuro" de Mussolini vai-se tornando nosso "agora": a ideologia das Potências do Eixo realmente está vencendo no mundo pós-Segunda Guerra Mundial. Só que desta vez é chamada por nomes como "libertarismo" [libertarianism] ou "neoliberalismo", não mais como "fascismo". É a Grande Safadeza. É a grande mentira. O simples movimento de rebatizar o fascismo, que passa a se chamar "libertarismo" ou "neoliberalismo", bastou para enganar as massas. Convenceu-as de que haveria fascismo pró-democracia. O "capitalismo" também foi redefinido, para se referir exclusivamente à forma de capitalismo controlado pela aristocracia: o fascismo. A batalha ideológica foi assim aparentemente ganha, com um truque barato de manipulação terminológica. Basta isso, para a ditadura vencer.

A forma de capitalismo socialmente controlado, como se viu em alguns países do norte da Europa, tem sido chamada em geral de "socialismo"; e, claro, opõe-se a todas as formas de ditadura, sejam comunistas sejam fascistas. O socialismo é a forma democrática do capitalismo, é a forma de capitalismo que serve ao interesse público, em vez de servir à aristocracia, em todos os pontos em que os interesses sejam conflitantes. Subordina a aristocracia ao público. O fascismo, ao contrário, subordina o público à aristocracia, e é a tendência mais forte (porque "Os 0,7% mais ricos do mundo são proprietários de 13,67 vezes mais que os 68,7% mais pobres" e "As 80 pessoas mais ricas do mundo possuem a mesma quantidade de riqueza que os 50% mais pobres do mundo).

(Assim, reconhecendo essas duas realidades chocantes aí conectadas, as decisões básicas do mundo podem realmente ser tomadas por não mais de uma centena de pessoas, cujos representantes, em fóruns como Bilderberg, podem coordenar privadamente todas as coisas e, assim, manter uma espécie de supra-governo global, do qual aqueles representantes são ministros. A missão deles é fazer acontecer, nos detalhes, o que quer que tenha sido decidido entre os agentes em benefício próprio. Os pagamentos podem ser feitos pela via normal, entre as respectivas corporações, e esse arranjo pode incluir pagar empresas de lobbyistas, etc. - e também empresas de mídia, anúncios, sejam de produtos comerciais ou políticos, para manter tudo alinhado com o plano global-aristocrático geral.)

Em décadas recentes, a aristocracia internacional, com os EUA à frente, puseram, de fato, em movimento, um plano para privatizar um emergente governo mundial, e assim impedir que venha a ser democrático: em vez de socialista, querem que seja governo mundial fascista. Suas origens podem ser encontradas nos próprios escritos de Mussolini. (Se se pudesse dizer que ele tinha um "Plano B", bem poderia ter sido esse, e a total adoção do plano parece ser só uma questão de tempo. O atual sistema fascista informal - via reuniões de Bilderberg etc., - como acabo de historiar, seria então operado pelas franjas daquele sistema mais formal, que destruiria a soberania nacional e qualquer traço de democracia, em muitos assuntos atuais de governo, como regulação ambiental e segurança do consumidor. Em certo sentido: praticamente todo o mundo seria uma prisão onde se prenderia o que é público, e só aristocratas teriam a chave que abriria a porta -, se e quando tivessem vontade de deixar que algum item público entrasse em seu minúsculo e luxuoso mundo livre.)

Mussolini, vale registrar, não inventou o fascismo: ele o aprendeu de seu professor Vilfredo Pareto, um dos fundadores da teoria microeconômica prestigiada até hoje e intrínseca em todas as análises de custo/benefício nas economias capitalistas. (De fato, é economia fascista, nem socialista nem comunista. Ainda não há teoria microeconômica para democracias - não há microeconomia socialista, ou nenhuma que tenha havido sobreviveu). Teorias aristocráticas, como a de Pareto, foram então incorporadas ao que se chama "economia do bem-estar", criada para conviver com sua teoria política, o fascismo. Pareto foi corretamente chamado de "o Karl Marx do fascismo". Por exemplo: segundo Pareto, alforriar um escravo seria errado, a menos que o proprietário aceitasse a que a alforria do escravo fosse incluída noutra transação, e o proprietário ficasse satisfeito com o pagamento a receber em toda a transação. Se o proprietário não estiver satisfeito, então a transação seria "ineficaz", na terminologia da teoria microeconômica fascista, que é o fundamento do tipo existente da economia capitalista - o tipo de economia que está sendo ensinado em todo o mundo.

O presidente dos Estados Unidos Abraham Lincoln foi uma das primeiras pessoas a defender de forma coerente o socialismo. Considerando que, para Pareto, a propriedade vinha em primeiro lugar; para Lincoln, as pessoas vinham em primeiro lugar. Para Pareto, os direitos de propriedade eram supremo. Para Lincoln, os direitos humanos vinham em primeiro lugar.

Lincoln foi tragicamente assassinado por um conservador, e o partido político que ele tinha ajudado a fundar (o Partido Republicano) foi rapidamente tomado por aristocratas norte-americanos (o que também está narrado no link acima, deixando claro que Lincoln teria desprezado o Partido Republicano que houve depois dele; o teria repudiado).

Embora os EUA hoje se oponham ao socialismo, os dois maiores presidentes dos EUA, Lincoln e Franklin Delano Roosevelt, foram ambos socialista: os dois punham os direitos humanos acima dos direitos de propriedade; os dois prestigiaram o capitalismo democrático. Diferente de FDR, Lincoln viveu antes de o fascismo existir; naquele momento o equivalente era o feudalismo, e Lincoln estava decidido a pôr fim ao feudalismo no sul dos EUA - daí a Guerra Civil.

Vários intelectuais norte-americanos já escreveram que ambos, Lincoln e FDR eram "socialistas", e no caso de Lincoln, Claude Fischer, por exemplo, lista as ações desse presidente como motivo de o classificar como "socialista". Lincoln não foi mero socialista pioneiro; de fato, foi socialista bem amadurecido.

A América não se tornou fascista até décadas recentes. No fim de uma análise de dados de pesquisa em 2012, eu mesmo escrevi: "O perigo de o mais consumado fascismo chegar rapidamente a Washington é bem real - a culminação da deriva de Reagan rumo à direita. É o que se vê não só em dados de pesquisa, mas também todos os dias no noticiário, especialmente se observamos as notícias à luz da história. Todos devem saber que esse risco existe." Mas hoje, diria de outro modo: Já aconteceu.

O último presidente dos EUA antes de Ronald Reagan, Jimmy Carter, disse recentemente, num surpreendente arroubo de honestidade, refletindo sobre o que tinha acontecido aos EUA depois que deixou a presidência:

"Agora é só uma oligarquia, e a corrupção política ilimitada é a essência da indicação à candidatura ou da eleição à presidência. E a mesma coisa se aplica a governadores e aos senadores e membros do Congresso dos EUA. Significa que hoje assistimos à subversão de nosso sistema político, que existe hoje para recompensar os principais doadores das campanhas, que querem e esperam, e muitas vezes obtêm, depois que passam as eleições, privilégios para eles mesmos."

Ele acabou de descrever o fascismo: a privatização do próprio governo.

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