14 de agosto de 2015

Putin está planejando entregar Assad?

Mike Whitney

CounterPunch: Tells the Facts and Names the Names

Tradução / Os objetivos geoestratégicos de Moscou na Síria são o polo oposto dos de Washington. Se se parte desse simples fato, é muito mais fácil compreender o que realmente se passa naquele país destroçado pela guerra.

O que Washington quer está explicado em detalhes em artigo de Michael E. O'Hanlon do Brookings Institute intitulado ''Deconstructing Syria: A new strategy for America's most hopeless war'. Aqui, um excerto:

"... a única trilha realista adiante pode ser um plano para desconstruir a Síria... A comunidade internacional deve trabalhar para criar bolsões com segurança e governança mais viáveis dentro da Síria... 
Criados esses santuários, eles gerariam zonas autônomas que nunca mais teriam de enfrentar a ameaça de serem governadas seja por Assad seja pelo ISIL... 
The interim goal might be a confederal Syria, with several highly autonomous zones... The confederation would likely require support from an international peacekeeping force. ...to make these zones defensible and governable. ...The autonomous zones would be liberated with the clear understanding that there was no going back to rule by Assad or a successor." (Deconstructing Syria: A new strategy for America’s most hopeless war, Michael E. O’Hanlon, Brookings Institute)

Esqueçam o ISIS e o presidente Bashar al Assad da Síria, por um instante e, em vez de pensar neles, pensemos sobre os termos "zonas autônomas", "criação de santuários", "zonas seguras" e "uma Síria cofederada".

Tudo isso sugere fortemente que o objetivo primeiro da política dos EUA é fracionar a Síria em unidades menores, que não representem ameaça à hegemonia regional de EUA-Israel. Esse, em poucas linhas, é o plano de jogo dos EUA.

A Rússia, bem diferente disso, não quer a Síria dividida. À parte o fato de que Moscou e Damasco são aliadas há muito tempo (e a Rússia tem uma base naval criticamente importante em Tartus, Síria), uma Síria balcanizada implica graves ameaças à Rússia, a mais significativa das quais é a provável emergência de uma base de operações de jihadistas que será usada para disseminar terroristas por toda a Ásia Central, comprometendo o grande plano de Moscou, de integrar os continentes numa zona gigante de livre comércio, de Lisboa a Vladivostok. O presidente Vladimir Putin da Rússia leva muito a sério a ameaça de terrorismo, motivo pelo qual tem trabalhado incansavelmente para engajar líderes da Arábia Saudita, Turquia, Iraque, Síria, Irã, os grupos de oposição curdos e sírios, em negociações para pôr fim aos combates e restabelecer a segurança na Síria. Vale a pena observar que há total blecaute sobre essas negociações crucialmente importantes, em toda a mídia ocidental. O problema é que essas negociações mostram Putin em claro papel de pacificador, respeitado e ouvido por governantes em todo o planeta, e que não poupa esforços para deter o avanço do terrorismo. Não é exatamente o personagem que a mídia tanto se empenha em inventar, de Putin como um novo Hitler. E porque a realidade não combina exatamente com a ficção, a mídia omite todo e qualquer noticiário sobre a realidade.

As diferenças entre EUA e Rússia são irreconciliáveis. Washington quer o fim do sistema de Estado-nação e criar uma nova ordem mundial, enquanto Putin quer manter o sistema atual, a fim de preservar a soberania nacional, autodeterminação, e multi-polaridade. Essa é a base do conflito entre Rússia e EUA. Putin rejeita o mando unipolar global e está trabalhando o mais rapidamente que pode para construir uma coalizão capaz de resistir à persistente intervenção, manipulação e agressão norte-americanas. Não é tarefa pequena e envolve muita habilidade e discrição. Putin não pode desafiar o Golias norte-americano por toda e qualquer dá cá aquela palha. Significa que tem de selecionar cuidadosamente as lutas que luta e as que evita, e tem de operar ativamente também nas sombras – o que está fazendo agora.

Em meses recentes, Putin reuniu-se com todos os principais atores do drama sírio, e fez notáveis avanços para resolver a crise. O ponto que ainda não está resolvido é se Assad permanece na presidência, ou se sai, como querem Arábia Saudita, Turquia e EUA. Putin está resistindo contra a saída de Assad, por várias razões. Primeiro, não quer ser visto como homem que trai aliados, o que feriria gravemente sua reputação de parceiro confiável. Segundo, não pode deixar-se envolver num complô de "mudança de regime", doutrina que atropela todas as leis internacionais e evento que poderá ser usado contra ele em eventual golpe futuro. Admitir que líderes estrangeiros decidam quem é e quem não é líder legítimo é receita perfeita para desastre – basta olhar a Líbia, o Iraque, o Afeganistão e, agora, o Iêmen. O fato é que Putin não pode ceder a Washington qualquer vitória fácil, num assunto dessa magnitude; mas é possível que, no fim, Assad saia.

Assim sendo, o que se passa hoje por trás das cortinas?

Em junho passado, Putin reuniu-se com o príncipe coroado saudita e ministro da Defesa Mohammad bin Salman em São Petersburgo, e começou a trabalhar num "quadro legal internacional para criar uma coalizão para combater contra o terror na região". Pouco depois, se reuniu com líderes de grupos de oposição e funcionários graduados da Arábia Saudita, Turquia, Síria, Iraque e Irã. O objetivo era implementar o chamado "Comunicado de Genebra", ratificado em 30 de junho de 2012. Em resumo, Genebra prevê:

  • Estabelecimento de um corpo de governo de transição, com plenos poderes executivos, que pode incluir membros do governo e da oposição, e deve ser formado pelo critério de mútuo consentimento;
  • A participação de todos os grupos e segmentos da sociedade síria num processo realmente significativo de diálogo nacional;
  • A revisão de toda a ordem constitucional e sistema legal; e
  • Eleições livres e justas, multipartidárias, para as novas instituições e cargos que tenham sido estabelecidos.

Como se vê, Genebra não resolve a questão central, a saber: "Assad fica ou sai?" Essa questão não pode ser respondida definitivamente. Tudo dependerá da composição do tal "corpo de governo de transição" e do resultado de futuras eleições.

Claramente, esse é o resultado que Putin procurava. Eis como Lavrov resumiu as coisas, há dois dias:

"Já disse que Rússia e Arábia Saudita apoiam todos os princípios do Comunicado de Genebra do dia 30 de junho de 2012, em particular a necessidade de preservar instituições de governo, inclusive o Exército Árabe Sírio. Entendo que sua participação na luta efetiva contra os terroristas é realmente essencial. 
Já disse que, embora tenhamos posições idênticas sobre como pôr fim à crise, também temos nossas diferenças. Uma delas concerne ao destino do presidente Bashar al-Assad da Síria. Entendemos que todas as questões relacionadas ao fim da crise, inclusive os parâmetros para o período de transição e as reformas políticas devem ser resolvidas pelos próprios sírios. O Comunicado de Genebra assume que essas questões devam ser resolvidas por consenso entre o governo e todo o espectro das forças de oposição."

Fácil identificar, nessa declaração, o que Putin realmente quer. Quer "preservar instituições de governo, inclusive o Exército Árabe Sírio", para evitar outro cenário de pesadelo tipo Iraque. (Nota: Importante não esquecer o que aconteceu no Iraque, depois que Bremer desmobilizou o exército.) O que Putin não quer é criar um vácuo de poder que leve a outro inferno falhado-falido e balcanizado, que servirá como incubadora de nova leva de terroristas, que sem dúvida logo estarão batendo à porta de Moscou. Isso, Putin absolutamente não quer. Esse é objetivo que interessa a Washington, não à Rússia.

Além disso, toda a ideia de um "corpo de governo de transição" e de "eleições livres e justas, multipartidárias, para as novas instituições e cargos que tenham sido estabelecidos” dá a Putin um meio para distanciar-se de Assad, sem que seja ele a jogá-lo sob o trem.

Há de haver quem critique tudo isso e diga que Putin estaria "entregando um amigo e aliado", mas não é inteiramente verdade. Putin está tentando conseguir um difícil equilíbrio entre dois movimentos que se opõem um ao outro. Está tentando manter seu compromisso com um aliado, ao mesmo tempo em que atende a Arábia Saudita, o suficiente, no mínimo, para manter os sauditas interessados em trabalhar com a Rússia para pôr fim à guerra na Síria. Assim sendo, sim, alguma triangulação há. Mas que outra via haveria? Em termos práticos, Putin não pode nem conseguir acordo rapidíssimo, nem deixar que se feche a janela de oportunidades.

Por quê?

Porque Washington não quer acordo algum. Washington quer guerra. Washington não alcançará seu objetivo de esfacelar a Síria e redesenhar o mapa do Oriente Médio, se prevalecerem os movimentos de pacificação em que Putin está empenhado. Digamos do seguinte modo: Se Putin conseguir atrair a Arábia Saudita para o seu lado, parte substancial do dinheiro que alimenta e mantém ativos os grupos jihadistassecará; o Exército Árabe Sírio, ajudado por forças iraquianas e curdas, estará fortalecido no campo de batalha; e o ISIS será aniquilado.

Em que esse desfecho interessaria a Washington?

Nunca interessaria. E mesmo que Assad deixe o governo, o processo (Genebra) é de tal tipo que o próximo presidente não será um zumbi-fantoche controlado pelos EUA, mas alguém apoiado pela maioria dos sírios. Muita democracia. Desnecessário dizer que Washington não apreciará esse desfecho.

O único problema no plano russo é que Putin tem de se apressar. Os EUA já receberam luz verde de Ancara para lançar sua guerra de drones e bombardeios a partir da base aérea de Incirlik, na Turquia, o que significa que a guerra se intensificará nas próximas semanas e meses. Além disso, o presidente linha-dura da Turquia, Recep Tayyip Erdoğan, parece estar usando os ataques aéreos dos norte-americanos como cobertura para roubar território sírio soberano no norte, e declarar ali sua "zona segura". Vejam aí, nesse fragmento de artigo do International Business Times, de 11 de agosto:

"Um grupo de combatentes étnicos turcomenos chegou a Azaz, Síria, na tarde da segunda-feira, para lançar a primeira fase da iniciativa de EUA-Turquia para estabelecer uma "zona segura", livre dos militantes do Estado Islâmico, na Síria, disseram por Skype, ao International Business Times, dois rebeldes que combatem no norte da Síria. Tanques que transportavam os combatentes entraram pela fronteira em Bab al-Salama, vindos do sudeste da Turquia para a cidade de Azaz, na Síria, o que desencadeou uma onda de ataques pelo Estado Islâmico, também conhecido como ISIS ou ISIL, na cidade de Marea, que forçou o grupo extremista Jabhat al-Nusra, da al-Qaeda, a recuar. 
'À primeira vista, todos pensaram que os tanques estavam cheios de soldados turcos, mas eram os turcomenos', disse um dos combatentes rebeldes. 
Os rebeldes entrevistados na terça-feira pelo IBTimes foram treinados na Turquia e estão numa das maiores coalizões de rebeldes moderados do país. Falaram sob condição de anonimato, porque estão em combate. Temem revides, por causa das alianças sempre mutáveis entre grupos rebeldes no país. Um dos rebeldes, um comandante, participou recentemente de conversações com o governo turco na capital, Ancara, sobre o plano de EUA-Turquia para criar uma "zona segura" no norte do país." ("Turkey, US, Syrian ISIS-Free Safe Zone: Turkmen Brigades Move Into Síria, Al-Nusra Moves Out, Soldiers Say", IBT)

Significa que tanques turcos, lotados de soldados que foram treinados e armados pela Turquia, cruzam a fronteira para a Síria, onde se espera que limpem e capturem territórios até, e possivelmente, incluindo Aleppo?

Para mim, soa exatamente como invasão. Ou não?

Resumo da história: Se quer impedir que Washington destroce a Síria e transforme o país em incubadora de terroristas, Putin tem de correr: trazer os sauditas para bordo, pôr fim ao derramamento de sangue, e implementar Genebra.

Não vai ser fácil, mas ele parece estar no caminho certo.

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