31 de agosto de 2015

Reabilitar o papel destrutivo do FMI na Grécia

Michael Hudson

CounterPunch: Tells the Facts and Names the Names

Tradução / Nesse outono, é possível que coalizões anti-austeridade cheguem ao poder em Portugal, Espanha e Itália, enquanto a Frente Nacional de Marine le Pen na França pressiona a favor de o país sair imediatamente da Eurozona. Todos esses países enfrentam um problema comum: como resistir à devastação econômica que Banco Central Europeu (BCE), Conselho Europeu e FMI, a "troika", infligiram à Grécia e agora planejam infligir também a toda a Europa meridional.

Para resistir contra a depressão e a deflação de dívida que a troika planeja aprofundar, é preciso ter em mente a dinâmica que torna o FMI irreformável. O papel destrutivo que o FMI teve na Grécia é útil objeto de estudo para demonstrar, mais uma vez, que o sul da Europa deve expulsar a horda de ideólogos pró-FMI, como países do Terceiro Mundo aprenderam a fazer em maio de 2013, ano em que a Turquia concluiu o processo de separar-se definitivamente dos "conselhos" do FMI. Já em 2008, o primeiro ministro da Turquia Recep Tayyip Erdogan anunciava: "Não podemos obscurecer nosso futuro nos curvando aos desejos do FMI."[1] Agora, os eleitores gregos disseram a mesma coisa.

Para amaciar a resistência contra as demandas do FMI pró-austeridade, foi montada uma campanha de relações públicas – com o objetivo de reabilitar o mito segundo o qual o FMI pode operar como negociador honesto e mediar as conversas entre ministros de finanças anti-trabalho e os países PIIGS – Portugal, Itália, Irlanda, Grécia e Espanha. Na sexta-feira, 28 de agosto, três jornalistas da agência Reuters publicaram longa coluna de fundo em que labutam para demonstrar que o FMI está lutando para mudar; e que a presidenta Christine Lagarde afinal viu a luz e busca promover autêntico alívio nas dívidas.[2]

O momento em que surge essa matéria parece significativo. O FMI estava "de volta aos negócios" em 2010, quando o então presidente Dominique Strauss-Kahn atropelou a equipe e vários membros da diretoria, para unir-se à troika e jogar as dívidas ruins de banqueiros franceses e alemães sobre as costas do povo grego. Esses são os fatos que exponho em Killing the Host, que CounterPunch publicou numa e-versão semana passada (as versões encadernada e Kindle já estão disponíveis para venda pela Amazon.)

O presidente Obama e o secretário do Tesouro Tim Geithner insistiram para que Angela Merkel e o presidente Sarkozy da França pressionassem o FMI para que se opusesse às respectivas equipes e se unisse às duras exigências do Banco Central Europeu para que a Grécia impusesse medidas de austeridade. Geithner e Obama alertaram que se credores gregos não fossem integralmente pagos, alguns bancos norte-americanos gigantes teriam perdas pesadas em contratos de seguros e derivativos que haviam assumido, e essas perdas se espalhariam "por contágio" para a Europa.

Foi na reunião do G8 em 2011, que Merkel disse ao primeiro-ministro grego George Papandreou que ele tinha de cancelar o referendo que propusera sobre se a Grécia devia ou não render-se às medidas de austeridade; que tinha de ajudar bancos estrangeiros abarrotados de papéis gregos. Como o falecido editor do [jornal] Frankfurt Allgemeine Zeitung Frank Schirrmacher observou naquele momento, foi o mesmo que dizer que "Democracia é Lixo".

Papandreou aquiesceu, o que levou à avassaladora derrota de seu partido PASOK, que perdera completamente qualquer credibilidade, exatamente a mesma credibilidade que o FMI também perdera. Papandreou foi substituído por um fantoche pró-banqueiros. O primeiro-ministro italiano teve o mesmo destino na mesma semana, numa crise continental que converteu a Eurozona em zona econômica morta.

Demorou até julho passado, quatro anos depois, para que os gregos afinal pudessem manifestar-se num referendo. E exatamente como Merkel, Sarkozy e Obama tanto temiam, os gregos rejeitaram a austeridade, por avassaladores 61% dos votos (margem de 3:2).

O artigo que a Reuters acaba de publicar cita as mesmas queixas de gente de dentro do FMI que recolhi nos registros que fiz para meu livro. Mas as publica como se fossem novidades que a Reuters estaria revelando, depois de os jornalistas terem examinado "minutas até hoje não noticiadas de reuniões da direção do FMI". Na verdade, a informação já circula há um ano. Assim sendo, a pergunta necessária é: "por que essa informação está sendo noticiada agora, como se fosse coisa nova?"

O objetivo parece ser distrair a atenção e afastar os olhos do público para bem longe da dinâmica política que estava realmente em andamento e dos conflitos de interesse que realmente estavam em operação – e assim continuam. Além do que já está informado em meu livro publicado semana passada, o ex-ministro das Finanças da Grécia, Yanis Varoufakis, também divulgou amplamente a triste experiência pela qual passou, com Lagarde e o Banco Central Europeu exigindo mais austeridade e privatizações em massa. "Se vocês fossem uma mosca na parede, assistindo àquelas negociações" – relata Varoufakis – "teriam visto tão bem como eu vi que Mme. Lagarde, Mr. Draghi, Mr. Juncker, com certeza o Dr. Schäuble, só tinham um interesse: nos ditar os "termos da rendição". Os termos para pôr fim à Primavera de Atenas."

Bem diferente desse relato, a peça de propaganda da Reuters distorce a história; reduz e de fato censura o papel dos EUA de Obama e Geithner; faz o possível para mostrar uma Christine Lagarde que estaria exigindo alívio na dívida dos gregos e na austeridade imposta a eles.

O mundo precisa saber da verdadeira história, porque só assim se poderá ver  o grau de submissão em que o FMI vive, sob o tacão de Wall Street e de banqueiros europeus, e os líderes políticos norte-americanos a serviço, também, dos interesses daqueles credores. Tudo isso mostra a impossibilidade de reformar o FMI (ou o Banco Mundial, cujos presidentes saem tradicionalmente do Departamento de Defesa dos EUA ou de seus grupos de apoiadores da Guerra Fria).

Killing the Host expõe as queixas feitas por furiosos funcionários do FMI que se converteram em vazadores de informação e divulgaram o que tinham a dizer pelo prestigiado Center for International Governance Innovation (CIGI) do Canadá. A matéria da Reuters cita ofegantemente alguns dos informes do CIGI. Mas o que a agência de notícias não noticia é o que disseram os ex-economistas do FMI.

Lagarde continua a insistir que as dívidas gregas podem ser pagas pelo sistema de "prorrogar e fingir", com juros reduzidos e prazos prorrogados. Isso é o que ela entende que seria "cancelar dívidas gregas". Não é, como a maioria entende, cancelar a dívida principal. Quem ler as citações cuidadosamente selecionadas pela Reuters terá a impressão de que aquele longo e detalhado estudo foi produzido especialmente para contraditar as questões políticas que Varoufakis, eu mesmo e outros estamos começando a expor.

A Reuters excluiu atentamente daquela matéria a verdadeira chave para compreender o evento politicamente mais embaraçoso para os envolvidos: a atuação de Obama e Geithner para proteger a jogatina do cassino de Wall Street, que apostara alto em que a Grécia podia ser chantageada e pagaria. Dominique Strauss-Kahn tinha dois interesses que conflitavam entre eles: queria concorrer à presidência da França, obtendo apoio por proteger os banqueiros franceses; e queria colocar o FMI de volta no negócio de impor austeridade pelo mundo, unindo-o à troika da Eurozona. Quando Christine Lagarde pôs-se a repetir que não apoiaria o relatório apresentado pela equipe do FMI em apoio ao cancelamento da dívida grega, a mesma equipe vazou o próprio relatório, nessa primavera, para grave constrangimento da presidente, quando o FMI rendeu-se ao programa da troika sem nenhum real alívio da dívida grega.[4]

O que o relatório da Reuters faz é lançar uma nuvem de desinformação: Lagarde não apoia nem jamais apoiou alívio algum, nem apoia qualquer redução na dívida grega, impagavelmente alta. É exatamente o oposto disso: Lagarde já disse incontáveis vezes que a concepção dela de alívio na dívida é o velho "prorrogar e fingir" – prorrogar o vencimento da dívida grega, para reduzir a taxa de juros.

A história verdadeira não é o informe que a Reuters publicou tão afobadamente com declarações de funcionários e diretores do FMI a repetirem, uns depois dos outros, que a Grécia não pode pagar o que deve e que quanto mais tentar pagar mais se afundará na depressão. A história verdadeira é por que Strauss-Kahn, em 2010, enganou esses mesmos funcionários do FMI? Os funcionários do FMI que se demitiram atribuem os atos de DSK às suas ambições na política francesa e ao oportunismo dele, querendo fazer o FMI "voltar ao negócio da austeridade", em vez de ser descartado pelo BCE por não ser suficientemente pró-credores. Para superar o fato de que o FMI estava violando suas próprias normas, o mesmo FMI introduziu uma cláusula de "fuga de contágio", que anulava a exigência de que o Fundo não fizesse empréstimos que não pudessem ser pagos. (Em Killing the Host explico os detalhes desse processo.)

Lagarde mantém-se repetindo a exigência de que a Grécia deve pagar o principal, incluindo a parte da dívida que funcionários do FMI aconselhavam fortemente, há quatro anos, que fosse cancelada. Exatamente como Strauss-Kahn, Lagarde também estava a um passo de atropelar sua própria equipe técnica quando aqueles funcionários vazaram seu próprio relatório que demonstrava que a Grécia absolutamente não tem como pagar. Indicação da posição de Lagarde apareceu em maio de 2012 na reunião do FMI em Riga, aonde foram para celebrar o modelo de 'austeridade punitiva' da Latvia, que poderia ser exportado para "servir como inspiração a líderes europeus que enfrentem crise econômica".

O fato de que a presidência do FMI tenha de ser sempre entregue a um francês pró-banqueiros, ideólogo pró-austeridade que recebe ordens de Washington e tem poder de veto a serviço de banqueiros e acionistas de Wall Street , torna o FMI absolutamente irreformável e comprometido. A cereja do bolo é o recente empréstimo feito à Ucrânia, dinheiro que Poroshenko já disse que será usado para fazer guerra contra os falantes de russo do leste da Ucrânia, onde estava localizada grande parte da indústria de exportação.

Nem em algum delírio da imaginação, alguém pode supor que a Ucrânia pagará essa dívida. Até já negociou redução de 20% do que deve a acionistas privados, e ambos, Poroshenko e "Yats Nuland" insistem que não pagarão os $3 bilhões devidos ao fundo soberano russo que vencem no próximo mês de dezembro. Só isso já bastaria para o FMI ser obrigado a afastar-se, por causa do que determinam os Artigos de Acordo que impedem qualquer empréstimo a país que não cumpra compromisso de quitar dívidas com instituições oficiais. (A ideia original tinha em mente os Estados Unidos, não a Rússia ou a China.)

Mas o FMI não ameaçou a Ucrânia de que ou paga ou será convertida em pária financeiro, como a Grécia. O Fundo já saltou para dentro do barco da Nova Guerra Fria, como mais uma arma da guerra da finança contra o trabalho e a capacidade de governos democráticos resistirem contra a austeridade.

Matérias anteriores distribuídas pela Reuters (e também pelo New York Times e outros veículos da mídia neoliberal) difundiram a ideia simplificadora segundo a qual o motivo pelo qual China, Rússia e outros países BRICS criaram seu próprio banco alternativo de desenvolvimento e suas instituições monetárias internacionais seria, meramente, por não terem peso ou prestígio dentro do FMI. (O Congresso já proibiu novas contribuições dos EUA ao FMI, impedindo a renegociação de quotas.)

Não é de modo algum o que os países BRICS dizem. O desacordo está em que a filosofia de desenvolvimento do FMI e do Banco Mundial é promover austeridade para pagar banqueiros e vender bens públicos para investidores financeiros norte-americanos ou outros. Não importa o tamanho da quota, o governo dos EUA sempre conserva poder de veto para reforçar essas regras orientadas pelo interesse dos EUA.  Os países BRICS querem outra filosofia de desenvolvimento, uma alternativa à economia do austeridade e aos "planos de estabilização" do FMI cujo efeito é desestabilizar países submetidos àquela austeridade.

A trágica experiência dos gregos deve ficar como alerta de que é necessário e urgente escapar das regras que converteram a Eurozona em zona econômica morta, e o FMI e a troika em brutais cobradores de dívidas a serviço de banqueiros e acionistas europeus, britânicos e norte-americanos. Não é história que a mídia neoliberal tenha interesse em informar e popularizar. E quanto aos economistas-torsos-falantes de TV, esses, continuam sem entender coisa alguma.

Notas:

[1] Delphine Strauss, “Turkish politicians argue over need for IMF help as crunch bites,” Financial Times, October 28, 2008.

[2] Lesley Wroughton, Howard Schneider and Dina Kyriakidou, “How the IMF’s misadventure in Greece is changing the fund,” Reuters, Aug. 28, 2015, http://www.reuters.com/investigates/special-report/imf-greece/


[4] Jack Ewing, “I.M.F. Report Shines Uncomfortable Light on Greece’s Financing Gap,” The New York Times, July 15, 2015, and Peter Spiegel and Shawn Donnan, “IMF raises doubts over its bailout role,” Financial Times, July 15, 2015.

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