9 de agosto de 2015

Recessão mundial irá piorar

Prabhat Patnaik

Peoples Democracy

Tradução / Mais de sete anos após o início da crise do mundo capitalista não há sinal de qualquer recuperação e hoje as perspectivas parecem ainda mais sombrias do que antes. De fato, enquanto o mundo capitalista avançado continua atolado na crise, ela agora está a propagar-se por todo o globo, mesmo para países como a Índia e a China que inicialmente pareciam haver escapado ao seu impacto. A taxa de crescimento do PIB indiano está a desacelerar; além de que o setor manufatureiro continua a testemunhar estagnação quase absoluta. A taxa de crescimento de 2,3 por cento nas manufaturas em 2014-2015, ainda que exígua representou uma melhoria em relação aos 0,8 por cento em 2013-2014 e foi geralmente extrapolada como uma inversão de marcha. Mas a taxa de crescimento em maio, o mês mais recente para o qual temos números, está outra vez nos 2,2 por cento (em relação ao mesmo mês de um ano atrás). Também na China, a taxa de crescimento do PIB está a reduzir-se; isso acontece no seu setor industrial que testemunhou uma expansão fenomenal durante longo tempo. E uma vez que a China emergiu como grande compradora de matérias-primas, incluindo as da América Latina, um arrefecimento da sua taxa de crescimento industrial implica um entrave a várias economias do terceiro mundo cujas fortunas haviam melhorado devido ao boom chinês.

A crise, em suma, está tornando-se generalizada por todo o globo, mesmo que haja uma pequena melhoria nas economias dos países capitalistas avançados. A situação quanto à Eurozona é bem conhecida: todo o Sul da Europa, e mesmo a França, é atingido duramente pela crise. E a Grã-Bretanha continua a sofrer com as medidas de "austeridade" draconianas impostas pelo governo Cameron.

Impressão

Os Estados Unidos dão a impressão de serem uma exceção a este fenômeno, mas esta impressão é enganosa. Apesar de a taxa de desemprego nos EUA ter baixado para 5,3 por cento em julho de 2015, a qual é muito mais baixa do que a do pico pós crise de cerca de 10 por cento, houve uma queda significativa na dimensão da força de trabalho. Tal queda é uma ocorrência comum durante recessões e exprime o que muitas vezes é chamado de efeito "trabalhador desencorajado". O declínio na taxa de emprego é explicado, pelo menos parcialmente, por esta queda, ao invés de um ressuscitar da economia.

Um cálculo muito simples mostraria que, apesar de qualquer melhoria que a economia estadunidense possa ter experimentado ultimamente (sobre isto, ver mais adiante), a taxa real de desemprego permanece muito alta. Pouco antes da crise, a taxa de desemprego nos EUA era cerca de 5 por cento e a proporção emprego-população era de 63,3 por cento, o qual dá uma relação força de trabalho-população de 66,6 por cento. Vamos aceitar este número (o que significa aceitar a questionável estimativa oficial de taxa de desemprego de 5 por cento na véspera da crise). A proporção emprego-população em julho de 2015 situava-se nos 59,2 por cento. Com a mesma relação força de trabalho-população que existia pouco antes da crise, isto significaria uma taxa de desemprego de 11 por cento! O fato de ao invés de uma taxa de desemprego de 11 por cento termos uma de apenas 5,3 por cento nos EUA é porque um certo número de trabalhadores simplesmente abandonou a força de trabalho. E eles assim fizeram não porque nesse ínterim se houvessem dedicado a alguma outra atividade que valesse a pena, como obter educação, mas por causa das perspectivas sombrias de obtenção de emprego. A economia dos EUA, em suma, muito embora possa a estar a experimentar melhoria marginal, continua a ser afligida pela crise. E isto assim é apesar do fato de que o Federal Reserve dos EUA tem mantido suas taxas de juro básicas próximas do nível zero desde a cerca de sete anos.

Uma vez que a política orçamental – sob a hegemonia do capital financeiro – destinada a estimular o nível de atividade é evitada, mesmo numa economia como a dos EUA que não tem qualquer legislação de "responsabilidade fiscal", e cuja divisa sendo "tão boa quanto o ouro" proporciona ao seu governo um enorme grau de liberdade para atuar com impunidade em assuntos fiscais (uma vez que é muito improvável que enfrente qualquer fuga de capitais), a política monetária torna-se o único instrumento para fazer reviver a economia. E o US Federal Reserve tem feito tanto quanto podia com este instrumento. (Ele podia, logicamente, ter taxas de juro nominais negativas através da aplicação de um imposto sobre os haveres de balanços monetários, mas isto não é claramente uma proposição prática). Contudo, notavelmente, não há sinais de qualquer recuperação perceptível.

Mesmo a melhoria marginal que se verificou na economia dos EUA deve-se à queda dos preços do petróleo. A principal fonte da melhoria tem sido o gasto do consumidor privado, não a despesa do governo ou o investimento privado. E este maior gasto do consumidor privado tem sido estimulado pela queda dos preços do petróleo, os quais, para uma economia dependente do automóvel como os EUA, com substancial consumo privado de refinados, é uma bênção para famílias privadas. Elas têm utilizado esta bênção para aumentar suas compras de uma variedade de bens e serviços produzidos internamente, cuja procura acrescida provocou algum aumento na produção.

Entretanto, o que é notável é o fato de que este aumento na produção não provocou qualquer aumento do investimento privado, o que sugere que os capitalistas têm pouca confiança na persistência deste aumento. Estamos portanto numa situação semelhante àquela que, segundo Harry Magdoff, prevaleceu nos Estados Unidos no fim da década de 1930, quando a produção do setor dos bens de consumo havia recuperado devido, entre outras coisas, a maiores gastos governamentais sob o governo Roosevelt, mas o setor de bens de capital havia permanecido a braços com uma maciça capacidade inutilizada devido à falta de confiança dos capitalistas na continuidade da recuperação. Foi só a preparação para a guerra, sob a sombra da ameaça nazista que deu origem a maior despesa militar, que arrancou o setor de bens de capital dos EUA para fora da crise (uma vez que grande parte do hardware militar é produzido nesse setor). Apesar de a situação nos EUA de hoje recordar um pouco aquele período, com algum reviver na despesa de consumo mas nada no investimento privado, não existem tais nuvens de guerra no horizonte (felizmente) que pudessem causar uma plena recuperação no emprego e na produção.

Maior fardo sobre os produtores de commodities primárias

Há um ponto que deveria ser observado quanto à ascensão da despesa de consumo nos Estados Unidos. Vimos que estava ligada ao declínio dos preços do petróleo, os quais por sua vez tendem a estar correlacionados com os movimentos de preços de outras commodities primárias. Uma vez que economias não metropolitanas são exportadoras líquidas destas commodities, o que isto significa é que mesmo a limitada revivificação que ocorreu na economia dos EUA foi associada à transferência de um fardo, na forma de uma queda de preços de commodities, para estas outras economias.

Na teorização do Comitern nos anos trinta, esta ideia, de os países avançados transferirem o fardo da crise para as economias da periferia, desempenhou um grande papel. Mas, com a "Revolução Keynesiana" e a ênfase na procura agregada, ela tendeu a recuar para segundo plano, uma vez que as duas questões, a saber, a da mudança dos termos de troca entre bens manufaturados e commodities primárias, e a questão da procura agregada nas metrópoles, não podiam ser teoricamente ligada de modo adequado. A atual conjuntura, entretanto, revela uma ligação entre estas duas questões: uma mudança nos termos de comércio contra commodities primárias no contexto de hoje causa, ceteris paribus, um aumento da procura agregada para os países avançados, através de uma maior despesa de consumo que é dirigida pelos consumidores aos seus próprios bens porque têm de gastar menos com petróleo e outras commodities primárias. Mesmo a limitada revivificação atual da procura nos EUA tem, em suma, como contrapartida um maior fardo sobre os produtores de commodities primárias.

Mas mesmo esta limitada revivificação nos EUA é improvável que perdure muito. A questão de uma alta da taxa de juro nos EUA tem sido falada desde há algum tempo. Isto não acontece porque os EUA tenham ficado afundados em inflação, longe disso na verdade. A queda global nos preços das commodities primárias, que acaba de ser mencionado, remove a inflação da lista de preocupações imediatas nos EUA. E mesmo pelos padrões do capital financeiro, o qual evita mesmo inflação moderada pois ela desgasta o valor real dos ativos financeiros que possui, a inflação atual nos EUA está longe de "preocupante": a atual taxa de inflação de cerca de 1,5 por cento cai bem abaixo do que o Federal Reserve considera a "meta inflacionária", a qual é de 2 por cento. Ainda assim, a aversão do capital financeiro a taxas de juro zero ou próximas de zero está a pressionar o Fed a elevar estas taxas. Ele adiou a decisão até setembro, mas é provável que então efetue algum aumento de taxas. E quando isso acontecer, a recessão mundial tornar-se-á ainda mais acentuada.

O fortalecimento do dólar, já a caminho, dará novo impulso e piorará o deficit corrente na balança de pagamentos dos EUA o que reduzirá a procura agregada no país. Isto se somará à redução que taxas de juro mais altas provocariam de qualquer modo através da redução de despesas devido a custos mais altos para a tomada de empréstimos. E enquanto a recessão estadunidense piora, o resto do mundo também experimentaria uma pioria porque teria de ascender taxas de juro em resposta às taxas americanas. Na verdade, uma queda relativa no valor das divisas do resto do mundo em relação ao dólar deveria aumentar suas exportações líquidas para os EUA. Mas o aumento inflacionário associado à depreciação das divisas forçaria seus governos a cortarem despesas, cujos efeitos na redução da procura mais do que compensariam qualquer aumento da procura que a depreciação da divisa pudesse promover.

E haveria um fator adicional a atuar na mesma direção, o qual é a não disponibilidade de influxos de dólares no caso de um aumento nas taxas de juros dos EUA. Tais influxos atualmente sustentam os défices em conta corrente de países como a Índia, mas se eles não estiverem mais disponíveis então estes países seriam forçados a cortar na sua procura agregada e a adotar medidas de "austeridade" para restringir seus déficits correntes.

Em suma, o capitalismo mundial parece destinado a um agravamento da crise. Mesmo depois de sete anos após o seu surgimento, a crise persiste apesar de as taxas de juro dos EUA serem conduzidas para baixo para zero ao longo deste período. E quando estas taxas aumentarem, o que eles estão em vésperas de fazer sob a pressão do capital financeiro, a crise só pode piorar. O capitalismo hoje parece muito mais afundado na crise do que a maior parte das pessoas, incluindo mesmo muitos na esquerda, imaginam.

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