6 de agosto de 2015

Um guia prático para o fascismo americano: A psicopatologia do liberalismo

Norman Pollack [*]

CounterPunch: Tells the Facts and Names the Names

Tradução / Os republicanos são o saco de pancadas que a Reação designou, cobrindo uma ampla porção da cultura, pensamento e atividade políticos nos EUA. O conteúdo é óbvio, resumido como a militarização do capitalismo avançado, que busca manter sua rota unilateral de supremacia global, o esforço fracionando-se num mundo de relações descentralizadas de poder, o que obriga os EUA a recorrer a ações ainda mais extremas, para conseguir segurar-se no lugar onde está. As tensões vão se tornando visíveis: o racismo sempre inscrito na mentalidade histórica nacional americana, que permaneceu meio adormecido por algum tempo, está agora mais uma vez em erupção; operações clandestinas criminosas por todo o mundo, e intromissão em assuntos internos dos outros, que nunca deixaram de existir desde os anos 1940, mas agora são operações regularizadas e praticadas com a certeza da impunidade e bem rapidamente, para passarem quase sem ser vistas; o uso do comércio como aríete de objetivos geoestratégicos para modelar o equilíbrio hegemônico do poder em relação a China e Rússia, ao mesmo tempo em que informam aos parceiros dos EUA que eles podem também ser penetrados financeiro-comercialmente à força; de tal modo, que todos são destrutivamente afetados. Em resumo, martelando rápido-no-gatilho para abrir caminho para ambiente ideológico estável onde prospere o verdadeiro espírito de etnocentrismo e xenofobia característico dos EUA, conscientemente e inconscientemente trabalhando para favorecer um sistema corporativista que só amplia as diferenças de riqueza, poder, divisão racial e étnica entre superiores e inferiores, aperto nos parafusos da conformidade patriótica, e tudo isso embrulhado, apertado, em volta da concentração intensiva de negócios bancários e do poder dos banqueiros em monólitos ilimitáveis baseados nos EUA ou servindo-se dos EUA como acobertamento e proteção.

Este é o fenômeno social crucial, uma política capitalista sem piedade por adversários reais, embora muitas vezes imaginados, críticos domésticos silenciados por autocastração e acomodamento à submissão ao poder mediante o consumismo, pão e circo, e – por conta da vigilância massiva – medo instintivo; e no cenário mundial, nações adequadamente apavoradas ante um arsenal nuclear sem igual e, além de poderoso, pronto para ser usado, de tal modo que a preeminência dos EUA, dada por garantida, arrasta a seu favor o apoio e a aceitação do povo americano, indiferente a partidos. Num sentido, os republicanos ficaram com a má reputação, mas os democratas são tão, se não mais, responsáveis por desencadear a estrutura, o planejamento e as energias do capitalismo militarizado. Obama é a perfeita encarnação do comprador americano, presidente negro, uma vantagem a mais para os liberais, que podem sancionar políticas de intervenção, conquista e consolidação corporativa em casa (tudo que Obama exemplificou tão bem, provavelmente muito melhor que qualquer outro presidente em todos os tempos), sua estatura compradorista ["compradorean"] conquistada pelo serviço de intermediação que prestou à máquina americana de guerra, ao establishment da política exterior, e como diz-que-regulador do business, o aparentemente benigno, pela raça, representante da classe dominante nos EUA – sim, apesar de quanto os liberais neguem, uma classe governante da qual alguns são membros e outros são servos.

Assim, orgulhosamente proclamamos nosso americanismo, republicano e democrata, espancadores globais, um feliz consenso de exploradores, mesmo, ou especialmente, de nós mesmos. A mensagem é de que temos do que nos orgulhar, embora, como cidadãos, muitos de nós possamos ser também vítimas dos processos sistêmicos usados para subjugar outros. Somos gratos por servir nossos patrões Leviatã/Mammon, um raro privilégio por essa fidelidade "dois em um". No que tenha a ver com os inimigos "reais, embora muitas vezes imaginados", não temos como fazer empalidecer o óbvio: alguns são reais. Os EUA são odiados, talvez não universalmente além fronteiras, mas com certeza onde foi feita mudança de regime, ou impuseram-se boicotes, embargos, sanções que resultaram em intensa miséria social, casas destruídas, bases militares erigidas seja para operações ofensivas seja para agressão contra governos amigos, a terceirização impondo condições de trabalho e arranjos intoleráveis. Em resumo: onde o império flexionou os músculos, quase sempre com as comunidades "de negócios" e militar no lugar do piloto. Ainda assim, até inimigos "reais" já são usados nos círculos internos dos EUA como medalhas de honra, testemunhos da eficácia do excepcionalismo mantido pelo poder e pelos deuses. A parte "embora muitas vezes imaginados" tem a ver com a projeção psicológica de outras agressões que guardamos para eles. Rússia e China não estão nem perto de destruir os EUA. Talvez 1/10 da certeza de que Rússia e China destruirão os EUA deriva da culpa, uma estreita janela de reconhecimento do mal que os EUA fizeram e fazem ao resto do mundo; mas muito da agressão manifestada contra aqueles países é política de poder com um viés ideológico que trai diferentes graus de consciência de que o capitalismo avançado alcançou o pico e já começou a decair rumo ao que Marx pode ter tomado como contradição implosiva, mas que, para o objetivo infernal da sobrevivência sem concessões, pode simplesmente ser chamado de nós-ou-nada, e o mundo que se dane.

O liberalismo aqui é psicopatologia social elevada a píncaros de Everest, farsa absoluta, que não vale sequer o individualismo possessivo que Macpherson descreveu tão bem e que emanaria de uma base filosófica de Locke. O liberalismo americano é imperialismo de mercado requentado e hermeticamente fechado militarmente, para estabilizar uma ordem mundial na qual a contrarrevolução torna-se modus operandi para evitar a queda — quanto mais gargantuescas as forças militares, mais seguros nos sentimos. Cada passo de democratização, incremental ou largo, é visto como ameaça mortal. O problema é que o mundo não pode esperar por obra de nossas neuroses, de fato, psicoses, depois de 70 anos do mais alucinado anticomunismo, que custou o preço de empurrar o espectro político ideológico na direção da direita. Saudações, 2016: que escolha tão lastimável, tão reacionária de liderança, das que lançam uma sombra macabra sobre a terra. Os republicanos, infelizes, não desfrutam do monopólio da preparação e dos sentimentos de guerra, da subserviência aos ricos, do desleixo e desprezo contra o meio ambiente, etc. Os democratas farão exatamente o mesmo, numa piscadela; se não fizerem muito pior.

[*] Norman Pollack tem escrito sobre o populismo. Seus interesses são a teoria social e a análise estrutural do capitalismo e do fascismo. Ele pode ser contatado pelo pollackn@msu.edu.

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