9 de setembro de 2015

A obscenidade política de Trump: Personalização de uma Nação

Norman Pollack

CounterPunch: Tells the Facts and Names the Names

Tradução / A ignorância é uma bênção – a astucia é digna de elogio – o protofascismo está “de moda”. Como nas sociedades totalitárias, os estado-unidenses admiram força, convicção, em política, o Principio de Liderança. A Alemanha pós-Weimar, é um exemplo cristalino. Nunca antes os EUA tinham visto nada parecido, não porque não tenha havido candidatos esperando sua oportunidade nesta linha – Douglas MacArthur por exemplo – mas o colapso de personalidade da cidadania não estava na altura suficiente madura. Hoje está. Por muito que Trump se considere um portento e gênio auto-inventado, o segredo do seu atrativo reside num febril populacho que anseia ardentemente orientação, principalmente de tipo reacionário. Guerra, intervenção, ação clandestina, mudança de regime, paralisia social no que respeita à diferenciação de riqueza e poder, bons costumes raciais, ainda que mais latente do que abertamente expresso, centenário – tudo perfeitamente aceitável. Não apenas aceitável como necessário à conservação do “Modo de Vida Americano”.

A auto-invenção de Trump, com ajuda paterna, foi precoce; a escolarização militar consolidou o processo, com a Escola Wharton a providenciar um imprimátur capitalista, um estilo de vida de auto-complacência consolidando uma identidade pessoal de privilégio. Ao nascido em berço de ouro – a quinta-essência do estado-unidense combinando militarismo, capitalismo, e individualismo num monstro doméstico capaz, como no mantra da sua campanha, de “Tornar os EUA de Novo Grandes”, para um povo esmagado por, mas prostrado aos pés de, uma economia política que ela mesma amalgama luxo, consumismo, e infelicidade humana. Mediante a sua auto-personalização e ampla utilização como O Donald (como Teddy em lugar de Theodore Roosevelt), ele dispõe de uma marca prefabricada de afeto para ocultar as suas tendências corporativistas e provocadoras de guerra (também como TR).

Vejamos o artigo de Michael Barbaro no New York Times: “Em livro, Donald Trump compara a sua formação com o serviço militar”, (8 de Setembro). O livro em questão, a biografia de Trump por Michael D’Antonio: “Never Enough: Donald Trump and the Pursuit of Success’”, ao qual o jornalista teve acesso graças a uma cópia preliminar (data de publicação 22 de Setembro). Barbaro revela imediatamente a tendência de Trump para a fantasia e o exagero: Disse a D’Antonio que embora tenha obtido adiamentos do serviço militar durante a Guerra do Vietnam, “‘sempre sentiu que estava na tropa devido à sua educação num internato de estilo militar”. A Academia Militar de Nova York, “uma dispendiosa escola preparatória privada para a qual foi enviado pelos seus pais [mesmo tendo em conta a inflação subsequente, a matrícula atual é de 31.000 dólares] para corrigir má conduta, dar-lhe ‘mais treino militar do que o que recebe muita da gente que vai para a tropa.’”

Segundo o livro, “Trump surge como um homem que em grande parte não mudou desde a sua infância no abastado bairro de Jamaica Estates em Queens, onde um pai exigente, Fred Trump, lhe ensinou as formas da autopromoção e o encorajou a uma vida de luta. O senhor Trump sênior, um grande empreiteiro do imobiliário, aconselhou o seu filho a que ‘fosse um matador’ e disse-lhe, ‘És um rei.’” Trump, por seu lado, demonstrou ser um aluno apto, e recordou ao autor do livro: “‘quando me vejo no primeiro ciclo e olho para mim agora, basicamente sou o mesmo. O temperamento não é tão diferente’”. (Tipo infantil, duro, instinto matador? – poucas razões para se orgulhar). O seu mentor na Academia chamou-lhe “‘um manipulador, já então’” referindo-se à sua “preocupação em vencer – em tudo e em qualquer coisa, grande ou pequena”. Portanto, Trump “só queria ser o primeiro, em tudo, e queria que as pessoas soubessem que era o primeiro.” O homem tem um verdadeiro problema de ego, e pergunto-me como se refletiria isso no respeito pela Constituição, na tolerância face à discordância, na planificação e execução da política externa.

As ex. esposas de Trump merecem doutoramentos honorários de Harvard pela sua avaliação do sujeito. A sua segunda mulher disse a D’Antonio: “A criança ainda quer atenção”, enquanto a primeira observou, “Ele quer chamar a atenção”, e relatou como fez uma fita em Aspen quando ela o ultrapassou a esquiar. “Não pôde aceitá-lo, que eu pudesse fazer alguma coisa melhor do que ele”. Barbaro escreve: “O senhor Trump parou, tirou os esquis e abandonou a pista”. (Se Trump viesse a ganhar, não esperaria com ânsia o seu encontro com Putin). Nem, passando do pessoal ao político (em sentido amplo), tendo em conta os seus pontos de vista sobre o exército, pode haver motivos para sentir confiança. Falando da sua experiencia na escola militar, Trump entrou em êxtase: “Depois da Guerra do Vietnam, todas essas academias militares perderam terreno porque a pessoas careciam realmente de respeito pelos militares. Não enviavam os seus filhos para a escola militar. Era uma coisa completamente diferente, mas naqueles dias – graduei-me em 1964 – era algo muito bom, algo duro, e era uma verdadeira forma de vida, a academia militar.” Isto foi bastante revelador: poderíamos esperar patriotismo às carradas, talvez mesmo a militarização da educação pública.

Não pode deixar de reconhecer-se que é uma espécie de Mark Twain direitista com os seus aforismos, que bem vistas as coisas dificilmente são humorísticos. À Playboy – sobre a busca de publicidade: “O show é Trump e tem lotação esgotada em todo o lado”. A D’Antonio – sobre o seu sentimento de superioridade: “Em geral, não se pode respeitar as pessoas porque a maioria delas não merece respeito”. E à Time – sobre o valor da auto reflexão: “Quando começas a estudar-te a ti mesmo com demasiada profundidade, começas a ver coisas que talvez não desejes ver”. Ao que acrescentou, num assomo de reflexão: “E se existe uma interpretação, as pessoas podem perceber o que és, e uma vez que o façam estás metido em sarilhos”. Até agora isso não sucedeu. Se e quando suceda, poderá ser demasiado tarde.

O meu comentário ao New York Times sobre o artigo de Barbaro, da mesma data, é o seguinte:

A candidatura de Trump revela as dimensões autoritárias da mentalidade estado-unidense: captura fielmente o sistema de valores no seu conteúdo social darwinista que remonta aos anos 1890, perigosamente elitista tanto nas suas implicações internas como nas de política externa. Quando preguntávamos (falando de Nixon), “comprarias um automóvel usado a este indivíduo?”, a pergunta para Trump é: “quererias ver o dedo deste homem sobre o gatilho nuclear?”. Política internacional estilo macho já é coisa suficientemente séria; combinada com o racismo implícito e o elitismo irrestrito interno obtém-se uma mistela embriagante bastante diferente de qualquer coisa anteriormente vista a esse nível. Que seja conhecido através da personalização da sua pessoa – O Donald – apenas agrega dimensões mais claramente autoritárias às suas políticas. Tremo ante a perspectiva de uma presidência de Trump.

Norman Pollack tem escrito sobre populismo. Os seus interesses são a teoria social e a análise estrutural do capitalismo e do fascismo. Ele pode ser contatado em pollackn@msu.edu.

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