21 de setembro de 2015

Democracia OTAN na Ucrânia

Manlio Dinucci

Il Manifesto

Visita “histórica” do secretário geral da OTAN, Stoltenberg, na Ucrânia 21-22 de setembro onde ele participa (pela primeira vez na história das relações bilaterais) no Conselho Nacional de Segurança, assina um acordo para a abertura de uma embaixada da OTAN em Kiev, e tem duas conferências de imprensa conjuntamente com o presidente Poroshenko. Esse é um passo decisivo para a integração da Ucrânia na Aliança. Tendo começado em 1991, de quando apenas tinha vindo a ser um Estado independente a seguir a desintegração da URSS, a Ucrânia entrou primeiro no “Conselho de Cooperação Norte atlântica” e depois em 1994 na “Parceria para a Paz”.

Em 1999 – enquanto a OTAN estava a demolir a Iugoslávia com a guerra e a encorporar ex-países do Pacto de Varsóvia (Polônia, República Tcheca e Hungria) – foi inaugurado em Kiev o “Gabinete de Ligação da OTAN” e formado um batalhão polaco-ucraniano para as operações de “Manutenção de Paz”, em Kosovo.

Em 2002 o presidente Kuchma, da Ucrânia, declarava a disponibilidade do país para uma sua entrada na OTAN. 

Em 2005, na sequência da “revolução laranja” organizada e financiada por Washington, ou seja o governo dos EUA, através de uma especializada Organização Não Governamental financiada pelo oligarca Poroshenko o presidente de então, Yushenko, foi convidado à cúpula da OTAN em Bruxelas. Entretanto, em 2010 o então recentemente eleito presidente Yanukovich anunciava que uma adesão da Ucrânia a OTAN não fazia parte da sua agenda. No meio tempo a OTAN foi tecendo suas redes no interior das forças armadas ucranianas, e treinando grupos de neo-nazistas (como pode ser comprovado por uma documentação fotográfica de militantes da Uno-Unso sendo treinada por instrutores da OTAN na Estônia, em 2006.

Os neo-nazistas foram usados como forças de ataque no golpe de estado da Praça Maidan que veio a derrubar Yanukovich em fevereiro de 2014, enquanto o secretário geral da OTAN ordenava as forças armadas da Ucrânia a “manterem-se neutras”, sem reagir. Poroshenko toma logo depois a posse da presidência e a OTAN declara que sob sua direção a Ucrânia está se tornando “um Estado soberano e independente, firmemente comprometidos com a democracia e a lei”.

Quanto a soberania e a independência da Ucrânia o demonstra as denominações de cidadãos estrangeiros escolhidos por Washington e Bruxelas para encargos ministeriais na Ucrânia: o ministério das finanças foi dado a Natalie Jaresko, cidadã norte-americana que trabalhou no Departamento de Estado dos Estados Unidos; o ministério do comércio e do desenvolvimento econômico foi dado a Abromavicius, da Lituânia, que trabalhou, por sua vez, para grupos bancários europeus; o ministério da saúde foi dado ao ex-ministro georgiano Kvitashvili. O ex-presidente da Geórgia, Saakashvili, o homem da confidência de Washington, foi denominado governador da região ucraniana de Odessa. Para completar o quadro Kiev confiou sua própria Receita Federal a uma companhia particular britânica.

Quanto a Ucrânia estar impregnada pela democracia e a justiça o demonstra o fato que os batalhões neo-nazistas responsáveis pelas atrocidades cometidas contra os civis de etnia russa no leste da Ucrânia foram incorporados na Guarda Nacional treinada por instrutores americanos e britânicos. Essa sua impregnação também é demonstrada pela proibição do grupo do partido comunista ucraniano, assim como a de toda a ideologia comunista, em um clima de perseguições similar aquele do advento do fascismo na Itália dos anos 20. Depois tem-se que para evitar testemunhos incômodos para si, Kiev decidiu, em 17 de setembro, a impedir a entrada no país de dezenas de jornalistas estrangeiros, entre esses então três da BBC, decisão essa que foi definida como determinada por “uma ameaça a segurança nacional”.

A Ucrânia de Poroshenko, o oligarca enriquecido com o saqueio da propriedade estatal, e ao qual o Primeiro-ministro Renzi da Itália elogia a “sábia direção”, contribuirá até mesmo para a nossa própria “segurança nacional” ao participar como parceiro nos exercícios militares da OTAN denominados como “Trident Juncture” – 2015 [TJ 15] que acontece na Itália.

Nenhum comentário:

Postar um comentário