13 de outubro de 2015

Faca de cozinha - A arma do desespero

Michel Warschawski


Tradução / “Terceira Intifada”? perguntam os editorialistas. A pergunta parece-me que não tem grande importância: certo, pelo contrário, é que somos testemunhas do final de um longo período de relativa calma na Cisjordânia ocupada, em particular em Jerusalém e nos seus grandes subúrbios. Uma calma relativa unida à expectativa de uma eventual saída como conclusão das iniciativas diplomáticas realizadas por Mahmud Abbas sob os conselhos/pressões dos Estados Unidos e dos países da União Europeia. Tudo parece indicar que a longa expectativa dada ao Presidente palestino pela sua própria população chegou ao fim. Abu Mazen não obteve nada, nem sequer no terreno simbólico. Pelo contrário, recebeu bofetadas humilhantes do governo israelense que se nega até a fingir que participa no jogo trágico-grotesco chamado “processo de paz”.

As últimas provocações israelenses aconteceram na Esplanada das Mesquitas, o local mais sensível para os palestinos e palestinas (e para mil e quinhentos milhões de muçulmanos de todo o mundo) sob a forma de exibições arrogantes de vários ministros e deputados da direita no poder, e da profanação de Al Aqsa pela polícia israelense.

Se persistir a obstinação de chamar aos acontecimentos atuais “Intifada”, é muito provável que se chame a “Intifada das facas”, isto é, uma longa série de iniciativas individuais em que homens e mulheres, jovens na sua maior parte, atacam soldados ou civis israelenses com uma faca, um cortador ou mesmo uma chave de fendas. Sabem que arriscam a vida, tanto mais que Netanyahu e os seus asseclas têm chamado a população a se armar e a disparar sobre quem atacar os judeus: “disparar para matar” segundo têm insistido. Como indica Gideon Levi no Haaretz de 11 de outubro, trata-se de execuções sumárias de quem levanta a mão contra um judeu. Tendo-se confirmado esta prática selvagem durante os últimos dias, qualquer agressão palestina a um israelense, civil ou militar, converte-se de fato numa operação suicida.

É importante sublinhar que estes atos suicidas não são coisa de militantes organizados e não são decididos por nenhum movimento nacional palestino; é, por outro lado, o que explica a incapacidade dos serviços de informação para prevenir estes ataques: uma jovem levanta-se de manhã, apanha uma chave de fendas e ataca um israelense, em uniforme ou não, sabendo que tem todas as possibilidades, ou quase, de perder a vida. É uma ilustração do estado de desespero da população palestina que perdeu todas as ilusões no “processo de paz”.

É uma ilustração também do isolamento crescente de Mahmud Abbas em relação ao seu povo, continuando as suas estéreis gesticulações diplomáticas quando não há nenhum interlocutor, ou melhor, quando perante ele se encontra um governo cuja intransigência e comportamento provocador o fazem cair no ridículo.

A comunidade internacional, por seu lado, faz apelos de forma escandalosa ao “fim da violência das duas partes”, e tem o cuidado de não utilizar os meios de que dispõe para impor ao Estado colonial israelense a aplicação das resoluções que adota regularmente ao mesmo tempo que continua a tratar Israel como um aliado fiável e um sócio que é bom para fazer negócios.

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