16 de outubro de 2015

A flexibilização quantitativa foi um fracasso; em vez disso, vamos tentar salários mais altos

Mike Whitney

CounterPunch: Tells the Facts and Names the Names

Tradução / Porque os consumidores não estão comprando e ainda estão muito endividados. Apesar das teorias malucas do Federal Reserve sobre bombear o sistema financeiro com liquidez para fazer os investidores se sentirem mais ricos, na verdade, para gerar crescimento é preciso que as pessoas comprem. E a verdade é que os consumidores reduziram seus gastos porque os salários estão baixos, os rendimentos estão caindo e muitos ainda estão atolados em dívidas até o pescoço. Por isso, o consumo está atipicamente fraco. O economista Stephen Roach mostra isso em seu belo artigo no Project Syndicate:

"Nos 22 trimestres desde o início de 2008, as despesas reais de consumo pessoal, que respondem por cerca de 70% do PIB dos EUA, cresceram a uma taxa média anual de apenas 1,1%, de longe o período mais fraco em demanda de consumo desde o pós-guerra. Isto também representa uma grande desaceleração do ritmo anual de crescimento do consumo antes crise, que foi de 3,6% entre 1996 e 2007". (Occupy QE, Stephen S. Roach, Project Syndicate).

Como a economia pode crescer se as pessoas não estão comprando?

Não pode.

Mas de acordo com o Fed, a melhor maneira de resolver o problema é baratear a moeda (para que mais pessoas façam empréstimos e gastem) e injetar quatro trilhões de dólares em liquidez no sistema financeiro, para que as ações disparem. O objetivo deste experimento louco é enriquecer grandes especuladores para que gastem mais dinheiro e, assim, aqueçam a economia. É o chamado "efeito riqueza" e o Fed realmente acredita que este absurdo efeito “trickle down” vai funcionar se for dado tempo suficiente (trickle down é uma teoria segundo a qual a geração de benefícios econômicos aos mais ricos terá com o tempo um efeito benéfico para toda a sociedade). Mas, o fato é que a flexibilização quantitativa não funcionou, não funciona e não vai funcionar. Porque não resolve o problema fundamental: como garantir mais dinheiro para as pessoas que vão gastá-lo e fazer a economia crescer. Essa é a questão.

Taxas zero podem ajudar a reduzir o custo de empréstimos. Mas taxas mais baixas não funcionam se não houver demanda por financiamento, isto é, se ninguém estiver fazendo empréstimos. E o que os economistas descobriram é que, depois de um grande crash financeiro, quando muitas famílias viram seu patrimônio desaparecer da noite para o dia, as pessoas não estão tão abertas a se endividar quanto antes. É fácil entender. Se você já está num buraco, vai parar de cavar. O cidadão médio não pode operar como um banqueiro de Wall Street que pensa: "Só vou continuar a fazer empréstimos até sair da dívida". Não. O trabalhador comum não pode fazer isso. Precisa reduzir seus gastos até poder recuperar o fôlego.

É por isso que a expansão do crédito tem sido tão fraca desde o fim da recessão, em 2009. Sim, houve exceções, como empréstimos para automóveis e empréstimos estudantis, que dispararam nos últimos anos, (e muitos estão próximos à inadimplência) mas, como um todo, a demanda por crédito permaneceu fraca.

Mais uma vez, isto era totalmente previsível. Quando as pessoas estão totalmente no vermelho, como após um colapso financeiro, não pedem tantos empréstimos. É simples assim. Por isso, não importa se as taxas estão baixas, a demanda por crédito vai permanecer fraca até as contas das famílias se estabilizarem e os consumidores se sentirem confortáveis em criar novas dívidas.

Se taxas baixas não levam a uma expansão do crédito, para que servem?

Para quase nada e, na verdade, são extremamente prejudiciais. Diversas vezes, vimos como taxas de juros baixas incentivam todo tipo de comportamento de risco, pois quando o dinheiro está barato e facilmente disponível, alimenta a especulação massiva que cria bolhas. Por exemplo, a loucura de recompra de ações é inteiramente imputável às taxas zero do Fed, e precipitou uma enorme bolha nos preços das ações. Vejamos uma amostra:

"Em 2014, os integrantes do S&P 500 compraram de volta 430 bilhões de dólares em ações ordinárias e gastaram outros 375 bilhões em pagamentos de dividendos. O capital total devolvido aos acionistas foi apenas um pouco menor do que os ganhos anuais relatados. Na frente de renda fixa, o mercado de títulos corporativos de grau de investimento bateu recordes com 577 bilhões em emissões líquidas em 2014. Mesmo se os universos equity e bond não se sobrepõem 100%, estes números contam uma história simples, mas importante. As corporações americanas vêm basicamente emitindo níveis recorde de dívida e usando uma parte significativa de seus ganhos e reservas para comprar de volta ações ordinárias em níveis recordes” (Buyback Bonanza, Margin Madness Behind US Equity Rally, Zero Hedge).

O que isso significa em bom português? Que as grandes corporações nem pensam mais no futuro de suas empresas. Não querem mais ampliar a capacidade de produção, contratar mais trabalhadores ou expandir a pesquisa. Estão usando cada centavo que podem e manipulando os preços das ações para encher os bolsos e ir embora. Este é o efeito das taxas baixas. É o que acontece quando especuladores têm acesso a dinheiro barato. Todo o sistema se desregula.

Consideremos que, se o Fed estabelece juros zero, e a taxa de inflação é de 1,5%, então, para cada dólar que o Fed empresta, recebe de volta 0,98 centavos. Isso parece um bom negócio para você, caro leitor?

Juro zero significa que o Fed está subsidiando a criação de bolhas, e induzindo especuladores a correr riscos inerentemente destrutivos para o sistema. Esta não é uma forma razoável de impulsionar o crescimento ou estimular a economia. É o já conhecido caminho para a crise financeira.

Tenha em mente que as políticas do Fed também têm um preço alto. Como dissemos anteriormente, o balanço do Fed inchou e chegou a mais de quatro trilhões de dólares. Pergunte-se então: como o pagamento do serviço de uma dívida de quatro trilhões de dólares impacta o crescimento econômico?

Obviamente, os pagamentos deste serviço drenam recursos da economia real. Usemos um exemplo: um cidadão comum decide que não quer mais viver em seu barraco detonado cujo aluguel custa 500 dólares por mês, então ele se muda para um belo apartamento de dois quartos num bairro caro com vista pela fortuna de dois mil e duzentos dólares por mês. Então, agora o sujeito tem menos 1,7 mil por mês para noitadas com seus amigos. Que impacto seu novo estilo de vida terá na economia?

Sua imprudência vai prejudicar a economia porque menos gastos equivalem a menos crescimento. E esta mesma regra se aplica às corporações que fizeram empréstimos para recomprar suas próprias ações. Os bilhões em pagamento de serviço da dívida serão desviados da economia real, onde poderiam ter um efeito benéfico. É por isso que os grandes bancos de Wall Street deveriam ter sido sacrificados na esteira da quebradeira de 2008, de forma a exterminar suas dívidas em vez de transferi-las para o Fed, onde representam um fardo para o crescimento.

A economia global enfrenta hoje tantos ventos contrários que é difícil saber por onde começar. A bolha imobiliária da China estourou, a evasão de divisas pôs os mercados emergentes em queda livre, os preços das commodities despencaram provocando temores de deflação, os dados econômicos são cada vez mais sombrios, e o plano do Fed para "normalizar" as taxas fez as ações oscilarem como nunca.

Mesmo assim, a política econômica deveria se concentrar no que pode gerar crescimento, estimular demanda e levar a uma divisão mais uniforme da riqueza. Pleno emprego e bons salários deveriam ser as prioridades. São as pedras fundamentais de uma economia forte, capaz de suportar os altos e baixos de um ciclo econômico errático ou os nocautes das crises financeiras periódicas.

Nós tentamos QE, agora vamos tentar salários mais altos.

Nenhum comentário:

Postar um comentário