29 de outubro de 2015

A mídia ocidental e o urso

Michael Carley

Strategic Culture Foundation

Tradução / Sou professor de história e ministro cursos, entre outros tópicos, sobre a Rússia e a URSS. Eu tento explicar para meus alunos como os russos veem a si e à sua história, e como a mídia ocidental apresenta a Rússia a seus leitores. Claro, a mídia ocidental está de olho no presidente russo, Vladimir Putin, mas a Rússia em si também é um alvo.

Como isso é possível? Após o colapso da União Soviética, em 1991, a Rússia caiu de joelhos, sua economia destruída pelos russos aspirantes a ser ocidentais, os chamados liberais, aplicando tratamentos de "choque". A ideia era afastar o povo russo rapidamente do socialismo; mas, os liberais só conseguiram arruinar as economias pessoais de russos comuns, que perderam as suas poupanças duas vezes na década de 1990. Não importa, esse é o preço a pagar se você quer ser como nós no ocidente, e a mídia ocidental poderia ter avisado. E quem não gostaria de ser como nós?

O presidente Boris Yeltsin, que chegou ao poder pelo desmembramento da URSS, foi apresentado no Ocidente como um herói. Na verdade, ele era um corrupto alcoólico agindo como o bobo da corte para o presidente Bill Clinton. "Bom e velho Boris", disse Clinton, quando Yeltsin enviou tanques contra a Casa Branca russa em 1993 e manipulou as eleições em 1996 com a ajuda da embaixada dos EUA em Moscou. Você faz o que você tem que fazer, teriam comentado os funcionários do governo americano. Yeltsin manteve seu "poder", enquanto o tinha, mostrando sua gratidão aos EUA ao se comportar como amigo de Clinton quando ele visitou Washington. Ele foi um excelente material para a mídia ocidental; não foi tão bom do ponto de vista de Moscou. Você se lembra do primeiro filme da série Star Wars, quando a princesa Leia foi capturada pelo malvado verme gigante Jabba o Hutt, que a manteve na correia? Yeltsin não era, certamente, a bela princesa Leia, mas a correia era real o suficiente.

Sendo dependente dos Estados Unidos, Yeltsin não obteve nada de Clinton além da sobrevivência pessoal. Enquanto isso, uma aliada soviética de longa data (e aliada ocidental também), a Iugoslávia, era destruída pela OTAN. Você se lembra da OTAN, não é, supostamente organizada para a defesa contra a URSS, mas então dirigida para a agressão em nome de uma falsa "responsabilidade de proteger"? Não houve nenhuma gratidão, eu comentaria de passagem, pelo papel da Sérvia na I Guerra Mundial, e da Iugoslávia durante a II Guerra Mundial, ou pela declaração de independência, do Marechal Josip Broz Tito, de Stalin. Com certeza, a gratidão não é um valor nas relações entre Estados.

O governo dos EUA deve ter estado incerto quanto a ser capaz de manter a Rússia na corrente de Jabba porque deu uma nova tarefa para a OTAN: cercar a Rússia, expandindo-a para o leste, ao contrário do compromisso de não fazê-lo que assumiu com o líder soviético Mikhail Gorbachev, outro animal de estimação da mídia ocidental. Era para criar um novo cordão sanitário, embora ninguém tenha clamado por um.

Finalmente, Yeltsin renunciou no final de 1999. Vladimir Putin foi eleito presidente no ano seguinte, e ele começou a integrar a Rússia política e economicamente com o resto da Europa. Apesar dos melhores esforços de Putin com o Presidente dos EUA George W. Bush, as relações russas com o ocidente não deram certo. Como um dos meus alunos descobriu ao fazer uma tese de mestrado sobre a mídia ocidental e Putin, o presidente russo foi caracterizado desde o início como o ex-oficial da KGB, que pretendia trazer de volta a URSS – a última coisa na mente de Putin. Cartoons retrataram-no com martelos e foices em seus olhos, ou se transformando em Stalin. Outro o mostrava trazendo café da manhã ao mausoléu de Lenin. "Acorda, acorda, Vladimir Ilich", Putin teria dito.

Como pode o Ocidente (leia-se EUA) distorcer a imagem de Putin, e por quê? Em primeiro lugar, Putin não queria ajoelhar-se calmamente aos pés de Jabba o Hutt. Ele começou a reconstruir o poder econômico, político e militar da Rússia. A Europa ocidental raramente se sentiu à vontade com uma Rússia forte. A russofobia ocidental na verdade remonta pelo menos ao início do século XIX. Um líder confiante, independente de espírito, em Moscou, é o último russo que a mídia ocidental gostaria de abraçar. Putin é o touro, ou melhor, o urso na loja de porcelana. O homem ocidental com poder tem medo e odeia aqueles "outros" que se afastam de seus papéis de servos.

Putin começou a falar muito francamente sobre agressão quando os Estados Unidos invadiram o Iraque em 2003 com um falso pretexto, e financiaram "revoluções coloridas" na Geórgia e na Ucrânia em 2003-04. Putin também não gostou quando o Presidente Bush saiu do Tratado de ABM [Anti-Ballistic Missile] no final de 2001, quando Putin estava tentando fazer amigos.

Temos que nos proteger contra o Irã, disse Bush. Não há nenhuma ameaça do Irã, Putin insistiu, nem nunca houve. Os russos suspeitavam que o Irã era apenas um disfarce para reforçar o cerco à Rússia pela OTAN (leia USA). Há um acordo agora com o Irã sobre questões nucleares; mas, o desenvolvimento e a implantação de MAB continuam em ritmo acelerado. As suspeitas russas quanto aos Estados Unidos parecem justificadas.

Putin também ousou desafiar abertamente a linha principal da ideologia política americana, o excepcionalismo dos EUA. Os Estados Unidos são a nação excepcional, como eles pensam, destinada a impor os seus valores e interesses sobre outros povos e nações, para seu próprio bem, quer queiram, quer não.

Uma coisa se pode dizer sobre a MCM: ela não gosta de contra-narrativa. "Nós somos um império, agora," disse Karl Rove, um dos neocons de Bush Jr., "e, quando agimos, criamos nossa própria realidade." A mídia ocidental, ele poderia ter adicionado, serve como o megafone do Império, reforçando as novas "realidades", tal como retratado no livro 1984, de Orwell. O problema era, e ainda é, que essas "realidades" não são realidade para a maioria das outras pessoas que vivem fora dos Estados Unidos e seus Estados vassalos. Quem é que liga para o que eles pensam, Rove de fato comentou; vamos continuar criando novas realidades "e vocês, todos vocês [aí fora], irão apenas estudar o que fazemos."

Examinemos o breve confronto Rússia-Geórgia em 2008. O presidente georgiano, Mikhail Saakashvili, um fantoche covarde dos EUA, enviou seus soldados à Ossétia do Sul pensando que poderia ocupá-la antes de a Rússia reagir. Ele estava enganado e o exército georgiano foi derrotado. A mídia ocidental tratou a crise como um ato de agressão russa. O proverbial urso russo tornou-se a imagem favorita do cartunista americano. Um cartunista retratou o urso roendo um osso chamado Geórgia, encarando um minúsculo Bush Jr., como a dizer você não pode fazer na Geórgia o que fez no Iraque. Outro urso cerra Geórgia entre os dentes prestes a engoli-la. É uma imagem difundida no Ocidente. Os cartunistas dos EEUU parecem querer convencer seus líderes, pelo desenho, à luta de um grande urso russo a latir para o pequeno Bush Jr. Ou para o pequeno Barack Obama. "O que você vai fazer quanto a isso?" pergunta o urso asqueroso.

Claro, o agressor na Ossétia do Sul foi Saakashvili, incentivado por seus capangas dos EUA. Você pode fazê-lo, se você agir rápido o suficiente, parece ter sido a ideia americana. Para ser sincero, nem todos os cartunistas ocidentais entraram na onda dos EUA em relação à Geórgia; mas não demorou muito antes que a maioria deles pulasse para dentro do barco. Se você tiver qualquer dúvida, faça uma pesquisa online.

O ocidente não gostou das críticas de Putin à agressão da OTAN em 2011 contra a Líbia – haveria alguma outra palavra para isso? – e o linchamento de seu líder, Muammar Gaddafi. Em uma cena grotesca, a secretária de Estado Hillary Clinton, como um vampiro sedento, vangloriava-se das imagens de seu cadáver ensanguentado. Putin chamou o ataque da OTAN "ataque aéreo de democracia". Essa foi uma metáfora gritante da hipocrisia ocidental. Não há nenhuma democracia na antes próspera Líbia; só ruínas, caos e furiosos grupos de violentos jihadistas Salafi. Graças à OTAN, eles chegaram agora à Síria e ao Iraque. A mídia ocidental, aliás, critica a Rússia por apoiar a resistência da Síria aos monstros de Frankenstein do Ocidente, frequentemente contratados desde a guerra soviética no Afeganistão até os dias atuais para derrubar governos seculares independentes no Oriente Médio ou na Ásia. Se ao menos os jihadistas tivessem ficado na Síria e não tivessem ido ao Iraque para criar um Estado Islâmico (EI)... Ao enviar unidades da força aérea russa à Síria, Putin expeliu os EEUU e seus vassalos que estavam a apoiar os "moderados" do EI. Não há nenhum jihadistas moderado, claro; eles são uma invenção americana. Putin mostrou o blefe do ocidente, e de fato convidou os Estados Unidos a se voltar contra seus próprios aliados jihadistas. Em Washington, essa não será uma modificação fácil de fazer. Velhos hábitos são difíceis de quebrar.

O evento que realmente desencadeou a fúria da mídia ocidental contra Putin e Rússia foi a crise da Ucrânia. Para o ocidente, foi culpa da Rússia, agressão da Rússia, especialmente a reunificação com a Crimeia, esquecendo-se de que os EUA e seus satélites da UE iniciaram a presente crise apoiando um golpe de estado fascista em Kiev. Faça uma pesquisa on-line: a imagem do urso russo perigoso é onipresente. Ele forçou os crimeanos a votar a favor da reunificação russa. Que absurdo e quão longe da realidade se pode chegar? Como se os crimeanos quisessem abraçar a junta fascista em Kiev...

O urso russo é também retratado comendo um peixe chamado Ucrânia. "Sinto-me ameaçado", grunhe o urso, vestindo uma "ushanka" estampada com a foice e o martelo.

Ainda outro urso, mostrando os dentes afiados, oferece chocolates Valentine para uma babushka assustada vestindo um casaco onde aparece escrito "Leste da Ucrânia". "Seja minha... ou então" é a legenda. A mensagem é tão ultrajante que se começa a rir. Mas, depois de refletir, a imagem não é engraçado de forma alguma pois mostra a extensão com que a mídia ocidental virou a realidade de cabeça para baixo.

Há ainda um artigo recente na revista Time, o que poderia ser mais mídia ocidental do que a revista Time, lamentando "a perigosa ascensão da linha-dura do Kremlin", os assim chamados "siloviki", poderosos funcionários, como se não houvesse nenhum governo ocidental desse tipo. É o roto falando do esfarrapado. Estes novos bandidos de Moscou "dominam a vida política na Rússia", de acordo com a revista Time, "[e]... contribuem... para com... uma atmosfera de paranoia e agressividade." A revista Time nos oferece um verdadeiro dicionário de clichês ocidentais absurdos sobre a Rússia. O megafone da mídia ocidental do agressor acusa o "outro" de agressão. É um velho truque, aliás, muitas vezes usado pelos Estados Unidos. Quanto à "paranoia", olhe para um mapa. Quem está tentando cercar quem? Quem ameaça a quem? Quem gasta quase tanto em armamentos quanto todos os outros Estados do planeta Terra combinados? Não é a Rússia.

A novilíngua orwelliana é agora a norma no Ocidente e especialmente nos Estados Unidos. Acabei de ler discursos do Obama. A Rússia e a China são "outros" criminosos. Seria tal objetivação dos adversários dos EUA uma preparação para a guerra? Ouvindo Obama, você nunca saberia que os EUA intermediaram um golpe de estado fascista em Kiev, cometeram atos flagrantes de agressão contra o Iraque e a Líbia, entre outros Estados, ou que ele armam os jihadistas Salafi na Síria. Os de fora e os dissidentes que expõem as mentiras são ignorados, ridicularizados, enegrecidos. Os delatores são presos. E Putin, um homem marcado, se é que há um, está condenado acima de todos os outros por ter ousado, como a criança na fábula de Andersen, a expor o Imperador sem roupas. "Vocês entendem o que fizeram?" – Putin perguntou recentemente na ONU. Nyet, Gospodin Prezident, eles não entendem. Costumava-se dizer que a verdade vai aparecer; mas, não tenho tanta certeza de que irá, pelo menos em tempo de ser algo mais do que um ponto de debate entre os historiadores, como sugeriu Karl Rove, tarde demais para fazer diferença.

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