30 de outubro de 2015

A necessária politização do antirracismo

Contribuição ao futuro livro da ATTAC sobre o antirracismo

Saïd Bouamama


Tradução / O racismo não é uma realidade atemporal que pesa sobre a humanidade como uma tara original, nem um defeito permanente contra o qual devemos lutar constantemente. Pelo contrário, é uma relação social datada historicamente, instável em suas formas e em seus objetivos, e portanto, algo que pode desaparecer. Surgiu com a criação de um sistema social preciso que, para se estender, precisou se justificar a partir de uma hierarquização dos grupos humanos. A escravidão e a colonização, como modalidades da acumulação primitiva do capitalismo europeu, são as bases materiais das teorizações racistas. Claro que anteriormente também houve conflitos, guerras e agressões, mas não foram construídas baseando-se numa lógica de hierarquização do humano.

A defesa do próprio sistema social e econômico leva a uma mutação das formas e rostos do racismo, para permitir a conservação de sua eficácia e das suas funções de legitimação da desigualdade. Desde os escritos de Aimé Césaire e de Frantz Fanon, sabemos que os horrores da Segunda Guerra Mundial acabaram com a primeira idade do racismo: o racismo biológico. A partir do nazismo, essa idade do racismo já não se aplicava somente aos “outros”, aos que, em caso de necessidade, havia que civilizar por meio da violência, mas também aos outros europeus. As lutas de libertação nacional das décadas de 1950 e 1960 culminaram na legitimação desta primeira idade do racismo. Mas, assim como a desigualdade e a exploração perduram através do neocolonialismo, o racismo também muda de rosto para continuar vigente. Fanon nos ensinou que a segunda idade do racismo é a sua forma culturalista. Agora, para justificar as desigualdades, já não se hierarquizam as raças, mas sim as culturas.

O fim do equilíbrio bipolar surgido após a Segunda Guerra Mundial abala uma vez mais o cenário. A desaparição do “inimigo vermelho” abre uma sequência histórica na qual as travas para a competição tendem a desaparecer, o que desencadeia uma nova corrida pelo controle das matérias-primas estratégicas na África e pelo petróleo do Oriente Médio. As novas guerras coloniais, pelo acesso a esses recursos, se multiplicam, buscando estabelecer o controle dos lugares estratégicos e para por obstáculos aos concorrentes. O racismo culturalista já não é suficiente em sua forma geral. É necessário precisar os objetivos para justificar as novas guerras coloniais. A terceira idade do racismo emerge por meio da precisão dos objetivos: a islamofobia e a negrofobia. Com esses dois rostos, as agressões no Oriente Médio contra “o islamismo”, e na África contra “o tribalismo”, encontram sua legitimação no seio das sociedades da Europa e dos Estados Unidos.

Por outra parte, a nova sequência histórica também tem como consequência uma desregulação generalizada nos países dominantes economicamente. O resultado disso são a pauperização massiva, a precarização generalizada e a destruição das conquistas sociais. Nesse contexto, a necessidade das classes dominantes de “unir a nação” faz surgir a necessidade de construir no interior umas figuras que simbolizam a ameaça: o muçulmano, o negro, o cigano. Logo, esse último se mostra como uma imagem da alteração e do perigo absoluto. Assim, a ciganofobia não é um fenômeno inexplicável, mas sim, e tal qual a negrofobia e a islamofobia, é o resultado de uma necessidade de legitimação num contexto neoliberal.

Vários movimentos de ideias, alguns difundidos há décadas, prepararam ideologicamente essas três novas formas de racismo. Se trata de uma construção de cima para baixo, que desde a teoria do “final da história”, de Fukuyama, e até a do “choque de civilizações”, de Huntington, prepara as nossas sociedades para esses novos rostos do racismo. Sua eficácia também se explica pelas heranças coloniais, que irrigaram e impregnaram as sociedades dominantes. Após as descolonizações, não aconteceu nenhuma desconstrução do espaço mental colonial e das suas imagens sobre o negro, o árabe e o muçulmano. Logo, essas imagens podem ser revividas, e postas a serviço das necessidades contemporâneas de dominação.

Era necessário destacar esses elementos para avaliar a magnitude das mutações necessárias para que o antirracismo contemporâneo esteja à altura da nova situação mundial e nacional. O antirracismo moral e por compaixão não pode se transformar em nenhuma ajuda no contexto contemporâneo. Só a compreensão da dimensão política do racismo e do antirracismo, que tenha em conta as causalidades materiais internas e externas, pode permitir o recrutamento da “besta imunda”. O racismo é uma construção estatal vinculada ao ultraliberalismo e às novas guerras coloniais, e não um “ódio” ou uma “rejeição” ancoradas numa suposta “natureza humana”.

O antirracismo “fraternalista” – retomando uma expressão de Aimé Césaire – tampouco nos será de utilidade. Ele desemboca numa eufemização dos desafios e numa relação paternalista a respeito das vítimas do racismo. Só a auto-organização das pessoas vítimas do racismo, dentro de uma grande aliança igualitária com as forças sociais e as políticas progressistas será capaz de retomar a ofensiva. Finalmente, o antirracismo geral, que não designa os seus objetivos e os seus rostos, os novos contemporâneos do racismo (islamofobia, negrofobia e ciganofobia) também estão condenados ao fracasso.

Politizar o racismo, a partir da auto-organização, e designar os rostos contemporâneos do racismo são para a Frente Unida das Imigrações e Digressões e dos Bairros Populares (Front Uni des Immigrations et des Quartiers Populaires, FUIQP) três condições indispensáveis para a retomada de uma ofensiva.

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