2 de outubro de 2015

OTAN prepara mais guerras

Trident Juncture 2015. Começa hoje o maior exercício desde a queda do Muro de Berlim. Na Itália, Espanha e Portugal. 36.000 homens, 60 navios e 200 aviões de guerra. Mais Ucrânia.

Tommaso Di Francesco e Manlio Dinucci


Tradução / Começa neste sábado (3) na Itália, Espanha e Portugal, depois de dois anos de preparação, a Trident Juncture 2015 (TJ15), uma das maiores manobras militares da OTAN. Participam mais de 230 unidades terrestres, aéreas e navais e forças para operações especiais de 28 países aliados e sete parceiros, com 36 mil homens, mais de 60 navios e 200 aviões de guerra, principalmente caças bombardeiros com dupla capacidade convencional e nuclear.

A primeira fase (de 3 a 16 de outubro) testará a capacidade estratégica e operacional dos comandos da OTAN; a segunda (de 21 de outubro a 6 de novembro) se desenvolverá “ao vivo” com o engajamento das unidades militares. A TJ15, anuncia um comunicado oficial, “demonstrará o novo e elevado nível de ambição da OTAN na condução da moderna guerra conjunta”. Demonstrará em particular “a capacidade da Força de Resposta da OTAN na planificação, preparo, deslocamento e sustentação de forças nas operações de resposta às crises não previstas no Artigo 5 [da constituição da OTAN], fora do território da Aliança”.

O que é o raio de ação da “Grande OTAN”, que do Atlântico Norte chegou às montanhas afegãs, é demonstrado pelo fato de que na Trident Juncture 2015 participa também a Austrália. É significativo que nela faça parte a Ucrânia, país que a OTAN está doravante incorporando, depois de se estender a sete países do ex-Pacto de Varsóvia, três da ex-União Soviética e dois da ex-Iugoslávia (destruída com a guerra de 1999). Outros países não membros da Otan participantes na TJ15 são a Áustria, a Suécia, a Finlândia, a Bósnia-Herzegovina e a Macedônia. Nas manobras a Otan envolve algumas organizações e agências internacionais (como a Cruz Vermelha e a Usaid). Descobre-se assim uma “Otan humanitária”, empenhada na “manutenção da paz”: o secretário geral Stoltenberg, assegurou em 28 de setembro, em Nova York, que “a Otan está pronta para apoiar as Nações Unidas para tornar as suas operações de manutenção da paz mais seguras e eficazes”.

Envolvidos na UE

A União Europeia também participa na primeira fase da TJ15. O envolvimento da União Europeia no grande exercício de guerra da OTAN refere em primeiro plano a questão política de fundo. O Artigo 42 do Tratado sobre a União Europeia estabelece que “a política da União respeita as obrigações de alguns Estados membros, os quais consideram que a sua defesa comum se realiza por meio da Organização do Tratado do Atlântico Norte”. Como são membros da Aliança 22 dos 28 países da União Europeia, é evidente o predomínio da OTAN.

Além disso, o protocolo número 10 sobre a cooperação instituída no Artigo 42 sublinha que a OTAN “permanece o fundamento da defesa coletiva” da União Europeia”, e que “um papel mais forte da União em matéria de segurança e de defesa contribuirá para a vitalidade de uma Aliança Atlântica renovada”. Renovada sim, mas rigidamente ancorada na velha hierarquia: o Comandante supremo aliado na Europa é sempre nomeado pelo presidente dos Estados Unidos e estão sob a direção dos EUA todos os demais comandos chaves.

Por meio da OTAN, dentro da qual os governos do Leste são mais ligados a Washington do que a Bruxelas, os EUA influenciam não somente sobre a política externa e militar da União Europeia, mas em seu conjunto sobre seus rumos político e econômico. Assim, conseguem transformar a Europa na primeira linha de uma nova guerra fria, que se está alargando à região da Ásia/Pacífico, continuando ao mesmo tempo a usá-la como ponta de lança das operações militares da OTAN e dos EUA no Oriente Médio e na África. Com a colaboração das oligarquias políticas e econômicas europeias que, embora em concorrência com a estadunidense e umas com as outras, convergem (em diferentes níveis) quando se trata de defender a “ordem econômica mundial” dominada pelo Ocidente, hoje colocada em questão pelo Brics e outros países emergentes.

A fidelidade italiana

Neste quadro, a Itália continua a distinguir-se pela sua subalternidade aos Estados Unidos e, portanto, pela sua “fidelidade atlântica”. Sobre a Trident Juncture 2015, o governo comunica que “desde 2013 a Itália tinha antecipado à Aliança uma primeira oferta de estrutura, bases e polígonos”: o centro de Poggio Renatico (Ferrara), o primeiro a tornar-se operacional do novo sistema de comando e controle aéreo da Otan, que poderá lançar operações de guerra aérea em uma área de mais de 10 milhões de quilômetros quadrados, da Europa oriental à Ásia e à África; e, para o deslocamento das forças aéreas, “as bases de Trapani, Decimomannu, Pratica di Mare, Pisa, Amendola e Sigonella”. Participam na TJ15 também navios mobilizados no exercício “Mar Aberto” e unidades do exército enviadas a Capo Teulada (Sardegna), à Espanha e Portugal.

O governo nega o envolvimento do Joint Force Command de Nápoles (com uma equipe de 800 militares no quartel general de Lago Patria), enquanto a TJ15 é dirigida pelo Joint Force Command de Brunssum (Holanda). Isto é desmentido pela própria Otan: o comando da Otan de Nápoles – dirigido pelo almirante estadunidense Ferguson que é também comandante das Forças navais estadunidenses na Europa, das forças navais dos EUA do Comando África e das forças da Otan no Kosovo – desempenha em 2015 o papel de comando operacional da “Força de resposta” (40 mil efetivos) que está sendo testada na Trident Juncture.

Em 2016 o comando passará a Brunssum, alternando-se anualmente com Nápoles.

Com indústrias de defesa

Por último, mas não menos importante, a OTAN anuncia que “enviou este ano à Trident Juncture, pela primeira vez, um grande número de indústrias da defesa porque, participando nos exercícios, encontram soluções tecnológicas para acelerar a inovação militar”. A Trident Juncture 2015, cujo custo é segredo mas seguramente monta a bilhões de dólares, prepara assim outras enormes despesas para a aquisição de armamentos. Tudo pago com dinheiro público, ou seja, direta e indiretamente pelos cidadãos.

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