11 de outubro de 2015

Abbas não consegue controlar a geração perdida de Oslo

Dezenas de milhares de famílias em Jerusalém Oriental e Cisjordânia temem pela segurança de seus filhos, mas também orgulham-se que os jovens estão mostrando que eles estão fartos.

Amira Hass


Tradução / Dezenas de milhares de famílias palestinas de Jerusalém e da Cisjordânia vivem no medo de ver os seus filhos mortos, feridos ou detidos ao oporem-se ao exército israelense, ou ao tentarem realizar ataques solitários.

Quando as crianças deixam o domicílio familiar de manhã, os pais não sabem se elas tomam mesmo o caminho da escola ou se têm encontro com amigos ou então se vão manifestar num check-point do exército ou ainda se têm intenção de atacar um israelense com uma faca. Assim como os serviços secretos israelenses e palestinos, os pais ficam estupefactos com o movimento de massa espontâneo e não organizado da nova geração e com os riscos que ela toma.

As famílias sabem que elas próprias podem tornar-se objeto da repressão e que, com a política de castigos coletivos, o exército israelense pode demolir as suas casas, confiscá-las, expulsar um ou mais dos seus membros de Jerusalém, metê-los na prisão e submetê-los a um assédio sem fim do Shin Bet. No entanto, parece que a luz verde dada por Netanyahu para se atirar sobre os manifestantes e aplicar sistematicamente castigos coletivos não dissuadiu até hoje nem os “lobos solitários” nem esses milhares de jovens que vão para os check-points, desafiando tanto o destino como os soldados.

Uma das “hipóteses” dos aparelhos de segurança israelenses e palestinos é que os jovens que realizam ataques solitários são influenciados pelas redes sociais. É provavelmente verdade. Mas eles são também influenciados por todos esses vídeos, dos quais alguns aparecem em primeiro mão em sites israelenses e que ilustram a violência constante exercida contra os palestinianos. Os que falam de incitação subestimam o impacto das imagens mostrando os soldados israelenses matando civis.

Tomemos o caso de Ahmed Khatatbeh, de Beit Furik (norte da Cisjordânia) e o de Hadil Hashlamun de Hebron (sul da Cisjordânia). O exército israelense alegou que eles foram abatidos porque tinham atacado soldados israelenses. Mas a investigação da imprensa mostrou que essas alegações eram falsas: não tinha havido qualquer ataque. Tomemos também o caso de Fadi Alloun, de Issawiyah (Jerusalém), no domingo passado. A polícia afirmou que ele tinha acabado de apunhalar um judeu e que por conseguinte tinha sido abatido. Mas um vídeo no youtube publicado em sites israelenses mostrou claramente que, mesmo se ele tinha acabado de cometer um ataque à faca, não ameaçava a integridade de ninguém no momento em que foi abatido por um tiro de cinco ou seis balas. O vídeo mostra também que os polícias obedeceram à ordem de matar lançada por jovens judeus, quando os próprios polícias não faziam ideia do que Alloun tinha feito ou deixado de fazer. Os vídeos são um combustível que inflama a situação, mas não são a causa da situação.

As famílias temem pela vida dos seus filhos e filhas, mas não podem reprimir o orgulho de os ver levantar a cabeça e gritar coletivamente: “Estamos fartos da ocupação”. A geração perdida dos acordos de Oslo dos anos 1990 “está farta” de não ver o Estado independente que lhes foi prometido; ela não tem uma organização política capaz de lhe dar perspectivas, não tem esperança de encontrar um emprego decente e sente uma pressão cada vez mais insuportável dos colonatos.

Há uma diferença enorme entre os “lobos solitários” e os milhares de jovens que saem para enfrentar o exército nos check-points. O “lobo solitário” está mergulhado numa solidão absoluta, que o conduziu até aos abismos do desespero. Os confrontos nos check-points, e isso vale para qualquer ação coletiva, são manifestações onde os participantes, apesar dos riscos conscientemente vividos, acreditam de algum modo que podem influenciar o curso dos acontecimentos.

Os porta-vozes palestinianos insistem em não qualificar o movimento de Intifada e preferem falar de reação popular. Uma “Intifada”, na aceitação dos palestinos, é um levantamento organizado, com objetivos claramente identificados e dispondo de uma direção reconhecida e aceita. Estamos longe disso hoje.

A Fatah, em plena desagregação, não pode dirigir a revolta e a transformar em levantamento. Os seus dirigentes apelaram ao não recurso às armas de fogo durante as manifestações, o que só serviria os interesses de Israel, disseram. O Hamas, organização reduzida a uma semi-clandestinidade na Cisjordânia, não pode, e é possível que não ousaria recorrer às armas de fogo, embora o bloco islâmico nas universidades, que é identificado com o Hamas, tenha chamado seus seguidores a participar da agitação atual.

E o presidente Mahmud Abbas? Há uns dias, quando as vítimas da repressão começavam a ser muitas, Abbas conseguiu tempo para ir inaugurar com grande pompa os luxuosos escritórios de uma empresa de promoção imobiliária, a Consolidated Contractors Company, em El Bireh. Isto é, a dois quilômetros apenas do ponto mais quente das manifestações, o check-point de Beit El.

Abbas finge considerar que a situação é normal. Ele tem talvez informações que os jovens não têm. Mas o fato de que ele tenha conseguido tempo para a inauguração da empresa prova o quanto ele está desligado do seu povo. A realidade mostra que ele não tem nem o poder nem a autoridade para dissuadir a geração perdida de Oslo de marchar sobre os check-points: e o grito de “estamos fartos” vale também para Mahmud Abbas.

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