21 de outubro de 2015

Auto-imposta cortina de ferro da América: Negação da agressão mundial

Norman Pollack

Counterpunch: Tells the Facts and Names the Names

Tradução / Seria necessária toda uma psiquiatria social para compreender o gigantesco mecanismo de defesa através do qual os EUA comodamente escondem, sobretudo de si mesmos, a deslealdade e a baixeza com que atuam no cenário mundial. A amnésia conveniente de sua beligerância e de suas irregularidades alcançou seu apogeu na administração Obama, que se mostrou ainda pior do que Clinton, se é que isso é possível, ambos arquitetos de um Império Americano do Capitalismo Monopolista. Uma questão: nos é contado que um iminente declínio financeiro no mundo seria exclusivamente culpa da China e da sua incapacidade de manter as mesmas taxas de crescimento em uma economia globalizada. O fardo de carregar a prosperidade mundial recai apenas sobre os ombros da China. Não faz sentido.

Os EUA, reforçados por suas tropas de choque, o Banco Mundial, o FMI e a OMC, levantaram ao seu redor uma fortaleza solipsista de justeza política que, no entanto, esconde o crescimento desenfreado de um capitalismo corrupto e enlouquecido e se engrena na produção de valores fictícios ao invés de, como se presume, produzir para o mercado. Até para padrões marxistas o capitalismo americano declinou. As consequências esperadas de alienação e maximização dos lucros, ruins o suficiente se avaliadas por uma ótica humana de progresso social, degringolaram em uma versão infernal de guerra financeira que cumpre a tarefa de manutenção da supremacia global unilateral. Tudo isso na tentativa de se salvar de uma depressão catastrófica que afeta, antes de qualquer um, os próprios EUA.

Esse auto-revestimento em um Excepcionalismo mítico se assemelha a distúrbios mentais, na medida em que só pode se sustentar sobre um estado autoritário de deslocamento do ego. No seu lugar, projeta inimigos dos quais deve se resguardar, inimigos que perpetuam o mal e toda sorte de inadequações. É exatamente onde nos encontramos: a China e (em uma menor extensão atualmente) a Rússia requerem a postura beligerante dos EUA. Intervenções, atividades secretas, mudanças de regime, tudo e qualquer coisa que a mente do tirano consegue imaginar. Tudo que possa blindar o auto-reconhecimento das guerras criminosas que engendra internacionalmente e da degeneração de sua democracia interna.

Aparentemente pequenas coisas importam, pois revelam os ingredientes dessa receita criminosa. E o ingrediente nesse caso é a Parceria Transpacífico (PTP), a cereja no bolo do Obama e sua forma de definir o modelo de globalização americano, uma trama insidiosa para assegurar a penetração do mercado americano, de uma maneira mais sutil do que o antigo grande porrete. Vemos a imperialismo do livre-mercado de Gallagher e Robinson em sua avançada forma moderna. De forma despercebida (já que os termos ainda não chegaram a público e as deliberações foram tomadas a toque de caixa como só se espera dos regimes mais antidemocráticos), nós assistimos a Câmara de Comércio dos EUA pressionando para eliminar as leis anti-tabaco entre os países signatários. Ou ainda John Castellani, presidente da Pharmaceutical Research and Manufacturers of America, fazendo lobby para garantir a extensão das leis de patente, em detrimento da saúde coletiva. A PTP representa tão-somente os interesses do capital - ou também o direito norteamericano de impor seus produtos, à custa de doenças pulmonares e da restrição de genéricos para a população global.

A coisa piora quanto as regulações domésticas de estabilização da moeda ou qualquer arranjo unilateral que possa beneficiar os EUA. Nós ainda nem começamos a calcular as negociatas que envolvem os objetivos geopolíticos (leia-se: anti-China) e redefinem a estrutura econômica mundial para prevenir o declínio norteamericano. O capitalismo dos EUA é multifacetado: avança com seus objetivos financeiro-comerciais e simultaneamente militariza um cerco sobre a China no cenário global. O confronto bélico substitui o crescimento econômico. São faces inseparáveis da mesma lógica de expansão, força vital do capitalismo norte-americano, dada a sua confecção de subconsumo e degradação de trabalho em seus estágios formativos de desenvolvimento industrial, que fosse de outra forma teria resultado em recessão endêmica. E esse cenário sempre tem sido acompanhado pela ameaça ou utilização de recursos militares. Para a América, a rivalidade comercial tem sido tanto causa como consequência da guerra, condição enraizada no próprio capitalismo.

Nós jogamos bem o jogo do imperialismo porque reconhecemos bastante cedo que apenas o colonialismo não valia a pena e, fomos mais longe, porque valorizamos o unilateralismo na política e na economia internacional. E cá estamos: o gigantismo nos negócios está no final de suas forças e busca bodes expiatórios para justificar seu desempenho problemático na contemporaneidade, do ponto de vista não só de crescimento, de distribuição de riqueza, de provimento de seguridade social e de melhoria em infra-estrutura , porém também, ainda mais importante, em termos de direitos humanos no país e no exterior. Simbolicamente, o recorde de assassinatos com drones de Obama dialoga com a falência moral do capitalismo militar, uma prática amplamente suprimida na psique americana. E se uma nação pode se safar impunemente quando faz a morte reinar nos céus (e bombardeia uma zona hospitalar claramente demarcada), o seu comportamento no cenário maior (assassinatos com drone são apenas uma proverbial ponta de iceberg) não deverá nos surpreender.

A Cortina de Ferro da Guerra Fria deu lugar a uma nova e mais permeável Nova Guerra Fria. Em relação à China, principalmente, mas também à Rússia, já reduzida a um status de segunda classe. (Não é assim, é claro, exceto na mentalidade arrogante de líderes políticos e militares norte-americanos). Ironicamente, porém, as características psicanalíticos do Velha Guerra Fria foram agora dirigidas para dentro. Talvez a enormidade dos crimes de guerra promova uma íntima negação que apaga todos os rastros de conduta ilícita, como quando falamos de danos colaterais (um eufemismo para explicar ações deliberadas à distância que levam ao assassinato de pessoas inocentes - por exemplo, alvejando festas de casamento, entre outros). Seja no Iraque ou no Afeganistão - a presença militar global dos Estados Unidos pode ser encontrada ad-infinitum - ou na contenção a longo prazo da Rússia, que se traduz em uma perigosa política de cerco cujas tendências antidemocráticas e pró-guerra na sociedade americana estão tomando seu pedágio psicológico: mais xenofobia, mais hostilidade reprimida, mais etnocentrismo, delírios de grandeza, todos se refestelando à beira de uma enorme explosão.

E agora a China. Nela se focalizam todos os descontentamentos, como um alvo imputado a receber agressões que, como um espelho, refletem os próprios sentimentos dos EUA, suas necessidades e concepção do futuro. A Parceria Transpacífico sem a China é um indicativo da agressão, primeiro através de comércio e, em seguida, como com a UE e a OTAN, a sua conversão para um sistema de aliança militar, sendo os EUA, como em outros casos, o chefe do arranjo. Vale citar o artigo do New York Times (por Neil Gough) intitulado "China e suas Mensagens Financeiras Divergentes reforçam o Mal-Estar Global” (20 de outubro), que revela um novo sentido ao que a PTP acarreta. Como seu título indica, a China seria a culpada pelas preocupações financeiras globais. E a principal razão, lendo nas entrelinhas, não seria uma desaceleração da taxa de crescimento, mas um fracasso para proceder rápida e completamente com as privatizações.

Gough escreve que o "problemático mercado de ações da China representa um revés significativo para suas longas décadas de esforços no sentido de construir um sistema financeiro moderno", Circunlóquios explicitam, ao longo do artigo, que o sistema financeiro não deve incluir outra coisa senão privatizaçôes. Suas queixas sobre a desvalorização da moeda (que a PTP pretende evitar, embora de forma não declarada) são menos importantes do que a agenda de privatizações: "Um pacote de reformas para expansão de companhias estatais quebrou as expectativas de que a China se posicionasse a fim de privatizar essas empresas”. Em vez de reduzir suas participações, o Partido Comunista afirmou que aumentaria seu controle sobre essas empresas. Existe um equivalente econômico à frase "Melhor morto do que o vermelho", pro que parece ser o pensamento prevalente entre os americanos, talvez o bastante, quem sabe, para ir pra guerra. Essas empresas não devem ser arrancadas das garras do Partido Comunista?

Pobre China; para Gough, ela está praticamente caindo aos pedaços, resultante do seu fracasso em adotar o capitalismo em toda sua extensão. (Por sinal, o capitalismo não está satisfeito a menos que seja completamente totalizado, através de elementos mistos, como de fato já existe na China, o que é inaceitável para os EUA e sua classe de investidores).

Assim, ele continua: "Para muitos políticos e investidores globais, a série de surpresas da China [isto é, favorecer e/ou proteger empresas estatais] é conduzida pela necessidade de colocar a economia de volta aos trilhos". Uma taxa de crescimento de 6,9% no terceiro trimestre, conforme relatado em 19 de outubro, que ainda inveja países ocidentais. Ele prossegue: "Enquanto o presidente Xi Jinping diz estar o país comprometido com a reforma financeira, as medidas passam a mensagem de que a China está recuando nesses esforços. É uma paisagem nova que dificulta a navegação para o restante do mundo".

A título de ilustração, Gough cita Fraser Howie, banqueiro de longa data na Ásia e co-autor do livro "Capitalismo Vermelho: A Fundação Financeira Frágil da extraordinária ascensão Chinesa", que coloca a questão de forma sucinta: "As pessoas dizem que a reforma está chegando, mas estão abrindo mão das reformas. Fere o propósito; ou você aceita o mercado ou não”. (Grifo meu) Assim, entramos no mundo codificado da semântica FMI-Banco Mundial, em que os mercados se abraçando podem ter apenas uma referência capitalista, isto é, baseando-se nas multinacionais americanas e em um sistema de comércio semelhante ao americano. Além disso, a China passa dos limites. Seus tecnocratas e agências concorrentes buscam um "resultado coletivo" que torna "difícil de discernir" sobre "exatamente o que está acontecendo na China". As autoridades estão pensando para trás, bem como semeando confusão entre os investidores. "Do lado de fora", observa Gough, "funcionários parecem estar mudando o curso de planos de longa data que são amplamente considerados críticos para a saúde da economia".

Capitalismo sem dúvida, mas um capitalismo sem compromisso com a perspectiva dos EUA. E a admissão da China à PTP teria que esperar até o inferno congelar. O mercado de ações da China caiu com a assistência planejada do seu ministro das Finanças para start-ups corporativos (com o que já voltou atrás), provocando essa reação de Matthew Goodman, especialista em comércio asiático, do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais: "O resgate do mercado reanimou dúvidas sobre o compromisso da liderança com liberalização econômica e se esse é mesmo o que a administração entende por reforma. É bem claro que as coisas não estão indo de acordo com o plano". Ou talvez estejam. Talvez a China esteja repensando a totalização capitalista. Andrew Batson, de GaveKal Dragonomics, uma empresa de consultoria financeira em Beijing, parece pensar que Xi Jinping está tomando maior controle da economia, em detrimento de uma filosofia capitalista fincada no mercado: "O foco na centralização de autoridade tem sido um grande tema do Xi e também este ambiente mais politizado e nacionalista que ele inaugurou teve efeitos muito claros sobre o progresso da reforma econômica. Isso não é necessariamente negativo. Mas certamente não é a agenda de reformas pró-mercado que algumas pessoas estavam esperando.

Certamente não é a reforma que Barack Obama esperava. Os EUA podem apenas admitir um modelo de reforma financeira. Mas para aqueles (e aqui me incluo) que valorizam a economia socialista e uma sociedade pelo seu potencial de justiça redistributiva, por sua perspectiva moral do humanismo, por seu enfrentamento com a alienação do capitalismo mercantil e por conceder ao capital um papel secundário na organização da economia política, da cultura e da alocação de recursos, ou seja, sendo sua democratização critério para manutenção em funcionamento. Para aqueles que assim concebem o mundo, é crucial se livrar de ilusões a respeito China.

Por isso, até agora a China ofereceu mais ao capitalismo e ao seu quadro institucional do que eu gostaria de ver, a fim de vislumbrar o socialismo enquanto padrão mundial vital e viável de desenvolvimento. A China, como a Rússia, pode muito bem estar em um ponto de inflexão (no caso da Rússia, talvez no limite). Não porque uma economia mista deva ser evitada, mas porque a superposição de riqueza e poder concentrado em uma ordem política hierárquica e unificada, como eu concebo o capitalismo, renuncia as perspectivas progressistas do futuro global.

A China, sob Xi, parece viver o processo de desmantelamento do socialismo, uma tendência que é difícil de reverter uma vez iniciada. A postura de confrontação dos EUA, realizada para além da PTP e do avanço militar sobre o Pacífico, poderia talvez obrigar o retorno da China ao socialismo, à luz da ordem mundial hostil que a aguarda, mas simplesmente não há garantias de que o capitalismo seria preso na China. Gough relata que o primeiro-ministro Li Keqiang "reuniu-se com os líderes de alguns dos maiores bancos da China na sexta-feira [16 de outubro] e emitiu uma promessa ampla de apoio a empresas com problemas financeiros". O primeiro-ministro afirma que a China “não vai cortar ou retirar empréstimos das empresas com dificuldades que tenham boas perspectivas de mercado". E ele fornecerá "o apoio necessário para empresas passando por falência ou reagrupamento”. Ainda assim, tendo em mente a equação americana de reforma e privatização, há alguma perspectiva de reversão, como testemunha o Comitê Central do Partido Comunista que sem rodeios “pretende dirigir a flexibilização do aperto do partido sobre as empresas estatais." Esta liderança do partido "é vital para garantir a direção socialista do desenvolvimento".

Segue meu comentário do New York Times sobre o artigo do Gough:

"Reforma financeira" = privatização. Nada menos irá satisfazer o Ocidente e os investidores em geral. O crescimento de 6,9%, dado restante do desempenho global, deve ser ridicularizado? Nada no artigo indica estar a dívida corporativa das economias desenvolvidas no coração da atual crise financeira. A China pode lidar com seus problemas de dívida entre Estado e empresas estatais. Ela não é causa da iminente recessão, mas a China faz um bode expiatório conveniente para os EUA e outras empresas que estão muito endividados e procedem com operações financeiras questionáveis. 
É muito cedo para proclamar o triunfo do capitalismo, ou pelo menos do tipo de capitalismo baseada na ganância, que se comporta como um canhão solto. O The Times enfatiza caos e confusão na China, mas sem o setor estatal se veria um dano muito maior para a economia mundial.

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