15 de outubro de 2015

Ben Bernanke: Coragem e confusão

Michael Roberts

The Next Recession

Tradução / O ex-presidente da Reserva Federal, Ben Bernanke, que comandou a entidade durante a crise financeira mundial da década passada, acaba de publicar um novo livro, agora que voltou a dar aulas na universidade. O título do livro tem uma certa arrogância defensiva. Se chama “A coragem de atuar: memória de uma crise e suas sequelas”, e se centra principalmente nos acontecimentos da crise financeira, mas também inclui casos pessoais de antes de sua gestão no Fed, chegando a recordações de sua infância, numa pequena cidade da Carolina do Sul.

No livro, Bernanke defende as ações do Fed sob sua direção, durante a crise financeira, especialmente a decisão de resgatar a maioria dos principais bancos de investimento com grandes créditos e dinheiro real dos contribuintes. Argumenta que “houve uma probabilidade razoável de que chegássemos a uma depressão como a de 1930, e para evitar isso foi preciso estabilizar o sistema financeiro”. Curiosamente, ele afirma que também queria ter resgatado o banco de investimentos Lehman Brothers, em setembro de 2008, mas que foi obrigado a permitir que ele quebrasse porque “estávamos sem munição naquele momento”. Sem dinheiro?

Mas, em primeiro lugar, o que causou esse colapso financeiro? Agora, ele sustenta que foram atos de cobiça, e inclusive criminosos, de pessoas que dirigiam os bancos de investimento e as sociedades hipotecárias. Em entrevista ao diário US Today, ele disse que o número de banqueiros e executivos responsáveis pela crise financeira que deveriam estar na cadeia deveria ser maior. Mas o Departamento de Justiça, segundo Bernanke, se concentrou demais na raiz da crise, em sancionar as empresas financeiras e impor grandes multas. Em sua opinião, não se esforçou o suficiente em castigar os indivíduos. “Seria melhor uma investigação sobre as ações individuais, já que, obviamente, tanto os erros quanto as atuações ilegais foram obra de indivíduos concretos, não de empresas abstratas”, afirma Bernanke. “Se há criminosos, é preciso persegui-los de forma individual”. Porém, Bernanke não o fez em seu momento porque o Fed não tinha poder para colocar ninguém na cadeia. O culpado, por omissão, foi o Departamento de Justiça.

Mas ele defende o resgate. “Poderíamos ter entrado numa depressão como a de 1930”, afirma o ex-presidente do Fed. Isso é uma hipocrisia, para dizer o mínimo. O que o Fed fez quando os bancos de investimentos participavam numa orgia creditícia de hipotecas subprime e outros derivados financeiros (as armas de destruição massiva do mercado, como dizia Warren Buffet)? Nada.

Apesar de ser um grande acadêmico, estudiosos da natureza e das causas da Grande Depressão, Bernanke (como quase todos os economistas ortodoxos) não previu o colapso financeiro que se aproximava. Em sua declaração no Congresso, em maio de 2007, quando o colapso das hipotecas subprime estava tendo lugar, Bernanke disse que “nesta conjuntura, o impacto na economia em geral e nos mercados financeiros é provável que possa ser contido. É importante destacar que não prevemos as contaminações graves mais amplas aos bancos ou às instituições voltadas ao mercado hipotecário de alto risco”. E previu que as prováveis perdas do setor financeiro, como consequência da crise hipotecária nos Estados Unidos, seriam “entre 50 e 100 milhões de dólares”. Acabaram sendo de 1,5 bilhão nos Estados Unidos e outros 1,5 bilhão de dólares a nível mundial.

Depois do colapso do setor em setembro de 2010, Bernanke entregou declarações à Comissão de Investigação Financeira dos Estados Unidos, sobre as causas da crise financeira de 2008. Ele chegou à conclusão de que foi o fato das instituições dependerem excessivamente de um sistema de financiamento a curto prazo foi a chave que causou a instabilidade do sistema. Essa teoria, que lembra as de Walter Bagehot no Século XIX, afirma que os bancos não devem pedir dinheiro emprestado a curto prazo, e sim capital a longo prazo. Mas se os bancos, para serem financiados, dependessem somente dos depósitos de poupança dos seus clientes ou dos bônus a longo prazo, e dos investidores de capital, teriam como evitar a crise financeira? Creio que não.

Porque a causa da crise financeira se encontra na crescente dificuldade das empresas capitalistas em manter a rentabilidade dos investimentos produtivos no período prévio à crise. Como resultado disso, o setor financeiro se orientou cada vez mais em direção ao investimento especulativo no setor imobiliário e outros instrumentos monetários (de “destruição massiva”). Mas, para financiar o aumento da demanda especulativa, tiveram que pedir mais dinheiro emprestado. Quando o valor de todos esses ativos improdutivos (hipotecas, derivados creditícios, etc.) começou a cair, se produziu a crise financeira. Nada disso teve a ver com o financiamento a curto prazo. Isso só entrou em jogo quando os bancos brigaram para conseguir mais dinheiro para pagar os juros de suas dívidas e viram que não estavam dispostos a emprestar uns aos outros. Como Marx explicou há muito tempo, numa crise, o excesso de dinheiro se transforma rapidamente em seca, e cria uma corrida desesperada por ela.

Voltando a janeiro de 2014, quando terminou seu mandato, Bernanke se despediu com um discurso na reunião anual da Associação Americana de Economia (AAE). Para Bernanke, o colapso financeiro mundial “tem similaridades com o de um pânico financeiro clássico, com a diferença de que aconteceu no contexto global do Século XXI”. Para ele, a origem da crise foi puramente financeira. Não teve nada a ver com defeitos ou contradições no modo de produção capitalista, e foi causada pelo descontrole nos empréstimos hipotecários provocados pela bolha imobiliária que acabou estourando, pelo endividamento devido à especulação e o uso de instrumentos financeiros “exóticos”. Essa explicação da natureza generalizada e profunda do pânico financeiro é claramente correta na descrição dos fatores que desencadearam a crise financeira global, mas não explica por que sucedeu e quando.

Bernanke forjou sua reputação como principal historiador econômico especializado na Grande Depressão de 1930. Em sua opinião, seguindo a opinião de seu herói, Milton Friedman, a Grande Depressão foi resultado de políticas errôneas adotadas pela Reserva Federal. Em primeiro lugar, a Reserva Federal, na década anterior, permitiu empréstimos excessivos e manteve os juros baixos. Logo, na década posterior ao crash, aplicou uma política monetária rígida demais, e elevou as taxas de juros. O resultado foi uma bolha do mercado de valores, seguida de uma depressão prolongada do crescimento e do emprego.

Existe algo de verdadeiro nessa análise. Como explica Carchedi num artigo inédito, “as autoridades monetárias costumam intervir fomentando a contração da quantidade de dinheiro e/ou o aumento da taxa de juros federal. Essas políticas restritivas pioram a situação financeira das empresas economicamente frágeis. Assim, as empresas não resistem às dívidas, quebram, e em consequência disso as crises são produzidas”.

Nessa crise, como disse em seu discurso na AAE, Bernanke aplicou de forma “valente”, as políticas monetárias para evitar erros similares. O Fed cortou a taxa de juros até quase zero, outorgou uma enorme ajuda financeira ao sistema bancário, em particular aos grandes bancos, por serem “grandes demais para quebrar”, e depois aplicou políticas monetárias “não convencionais”, ou seja, aumentou a quantidade de dinheiro (flexibilização quantitativa, QE) através da compra de bônus do governo, bônus empresariais e hipotecários, para estimular a economia. O balanço de ativos do Fed triplicou através das compras QE, até representar 30% do PIB dos Estados Unidos.

Bernanke está convencido de que essa política foi um sucesso, e que salvou a economia capitalista. Foi assim mesmo? Em primeiro lugar, é evidente que não evitou o colapso financeiro. Sim, o Goldman Sachs, o Morgan Stanley e o JP Morgan não quebraram. Mas o Bears Stearns, o AEG e o Lehman quebraram (e o Merrill Lynch quase), assim como a maioria dos agiotas hipotecários mais importantes. Por outra parte, centenas de bancos e agiotas menores dos Estados Unidos quebraram.

Em segundo lugar, as grandes políticas monetárias contra a depressão de Bernanke não restabeleceram o crescimento econômico nem o emprego nos Estados Unidos e no mundo, que os níveis atuais estão bem longe aos dos anteriores à crise. Em seu discurso na AAE, Bernanke afirmou que: “os céticos afirmam que o ritmo de recuperação vem sendo decepcionantemente lento, com um crescimento do PIB ajustado à média da inflação, ligeiramente superior a uma taxa anual de 2% nos últimos anos, e com a inflação abaixo do objetivo a longo prazo do Comitê, que é de 2%. Entretanto, como vou a analisar a recuperação se estou enfrentando fortes ventos contra, o que sugere que o crescimento econômico poderia ter sido muito mais menor, talvez até negativo, sem o apoio substancial da política monetária”.

Talvez esta defesa contrafactual é correta, mas já se passaram quase dois anos e a economia dos Estados Unidos continua crescendo muito por baixo dos níveis prévios à crise, enquanto a economia mundial está mostrando indícios claros de que se está afundando de novo em outra recessão.

Aliás, Bernanke reconhece agora que não tem certeza de que a economia estadunidense pode suportar crescimentos de apenas 0,25%, como o proposto por alguns economistas e funcionários do Fed. A taxa de juros do Fed poderia permanecer perto de zero indefinidamente.

Bernanke planteou o problema para os estrategistas do capital numa conferência do FMI, em 2013: “Nosso desafio permanente é fazer com que as crises financeiras sejam muito menos prováveis e, em caso de que aconteçam, tenham menores efeitos. A tarefa se complica pelo fato de que cada pânico financeiro tem suas próprias características específicas, que dependem de um contexto histórico particular, e dos detalhes da configuração institucional”. O que temos que fazer é “identificar e separar os aspectos idiossincrásicos de cada uma das crises, sermos capazes de revelar os elementos em comum” desses “pânicos”. Então, poderemos “identificar e isolar os fatores comuns das crises, o que nos permitirá prevenir as crises quando seja possível, e responder com eficácia quando seja impossível”.

Certamente! Mas o próprio desafio de Bernanke parece tê-lo superado. E no entanto, seu próprio discurso na AAE continha pistas sobre como fazê-lo: “o pânico de 1907 aconteceu quando a economia se debilitava, assim como em outros momentos de pânico financeiro, incluindo o caso mais recente. Segundo o Departamento Nacional de Investigação Econômica, a recessão havia começado em maio de 1907”.

Exatamente. E Bernanke poderia ter agregado que a recessão de 2008 foi precedida pela crise creditícia de 2007, e que antes disso, no começo de 2006, houve uma forte queda na massa de benefícios gerados pelo mercado. Foi a mesma história antes do pânico – ou crise – de 1929, que conduziu à Grande Depressão. A queda dos benefícios e da produção começaram um ano antes. Portanto, houve uma crise de produção prévia aos três casos de “excessiva” especulação financeira sobre o cobre (1907), sobre as ações (1929) e sobre o mercado imobiliário (2008). A especulação foi “excessiva”, a ponto de se tornar “perigosa” porque a geração de valor para apoiar a rentabilidade desses investimentos não se materializou.

Esta é uma explicação muito mais coerente sobre a recorrência da crise, ou seja, a tendência de queda da rentabilidade na produção capitalista que eventualmente conduz a uma queda absoluta dos benefícios. Nesses casos, o auge alimentado pelo crédito se transforma em pânico especulativo ou em crise.

Bernanke quer que nós acreditemos que sua coragem salvou o mundo de adotar políticas monetárias não convencionais, tirando lições da Grande Depressão, e apesar da oposição à teoria econômica ortodoxa. Mas Bernanke não salvou o mundo. Salvou os bancos (e somente os grandes), com uma política monetária não convencional que não serviu para relançar a economia dos Estados Unidos, e muito menos a do resto do mundo, e só foi capaz de alimentar um novo boom na base de crédito do mercado de valores e de bônus para o 1% mais rico. Este tipo de “coragem” baseada na confusão não vai salvar o mundo.

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