1 de outubro de 2015

Blitz de Putin deixa Washington irritada e confusa

Mike Whitney

CounterPunch: Tells the Facts and Names the Names

Tradução / Na segunda-feira, o presidente Vladimir Putin da Rússia fez dura crítica à política externa dos EUA da tribuna da Assembleia Geral da ONU.

Na terça-feira, Barack Obama tentou apunhalar Putin pelas costas. Aqui, o relato da Reuters:

"A França discutirá com seus parceiros nos próximos dias uma proposta da Turquia e de membros da oposição síria para criar uma zona aérea de exclusão no norte da Síria, disse o presidente francês François Hollande, na segunda-feira... 
O ministro de Relações Exteriores da França Laurent Fabius disse que "nos próximos dias estudaremos a demarcação, como proteger essa zona e o que pensam nossos parceiros', palavras de Hollande aos repórteres, nos bastidores da Assembleia Geral da ONU... 
Hollande acrescentou que tal proposta, eventualmente, poderia ser aprovada pelo Conselho de Segurança da ONU, numa resolução que "daria legitimidade internacional ao que está acontecendo nessa zona."... (France, partners to discuss northern Síria "safe zone": Hollande, Reuters)

Hollande é um mentiroso e um fantoche. Ele sabe que o Conselho de Segurança nunca vai aprovar uma zona de exclusão aérea. Rússia e China já disseram isso. E explicaram por que se opõem à ideia: porque não querem ter nas mãos mais um estado destruído, como a Líbia. Destruir a Líbia foi precisamente o resultado que EUA e OTAN obtiveram, quando impuseram aquela zona aérea de exclusão.

Mas não se trata disso, agora. A real razão pela qual a tal zona aérea de exclusão voltou à discussão é que essa é uma das concessões que Obama fez a Recep Tayyip Erdogan da Turquia, em troca de poder usar a base aérea de Incirlik. Washington estava conseguindo esconder os termos desse acordo, mas Hollande deixou o gato escapar do saco. E quem empurrou Hollande para essa sandice de zona aérea de exclusão?

O governo Obama, é claro. 

Ou alguém está supondo que Hollande estaria conduzindo alguma política francesa independente para a Síria? Claro que não. Hollande está fazendo o que foi mandado fazer, exatamente como quando recebeu ordens para melar o negócio dos Mistral, ação que causou à França prejuízo enorme de $1,2 bilhão. Washington e OTAN não gostaram de a França vender helicópteros de transporte de última geração ao arqui-inimigo Putin, e ordenaram que Hollande pusesse fim àquela conversa. O que ele fez, claro, porque fantoches fazem o que os mandam fazer. E agora Hollande está dando cobertura à tentativa de Obama para manter ocultos os termos do negócio que fez com a Turquia. Por isso dissemos que Obama apunhalou Putin pelas costas – porque a zona aérea de exclusão que Obama ofereceu a Erdogan, fere gravemente os interesses da Rússia na Síria.

Não se deve de modo algum subestimar o significado do artigo da Reuters. Ali se sugere que houve um toma-lá-dá-cá pelo direito de usar a base aérea de Incirlik, e Obama aceitou as demandas da Turquia. Mas por que isso seria tão importante?

Porque a Turquia tinha três exigências:


  1. Zonas seguras no norte da Síria (o que significa que a Turquia planeja, na prática, anexar parte significativa do território sírio soberano).
  2. Uma zona aérea de exclusão (que permitiria que tropas turcas, forças especiais dos EUA ou terroristas apoiados pelos EUA conduzissem suas operações militares com cobertura aérea dos EUA).
  3. O compromisso, dos EUA, de que ajudarão a Turquia a derrubar Assad.


E Obama aceitou essas três demandas, antes de Erdogan concordar em deixar a Força Aérea dos EUA usar a base de Incirlik?

Sim, aceitou, ou, pelo menos, suponho que ele tenha aceitado – motivo pelo qual acho que estamos no início da Fase 2 da agressão dos EUA contra a Síria. Incirlik muda tudo. A partir de Incirlik, bombardeiros, drones e jatos de combate dos EUA conseguiriam entrar no espaço aéreo sírio em 15 minutos, em vez das 3 ou 4 horas de viagem a partir do Bahrain. Significa mais missões, mais drones de vigilância e mais cobertura aérea para garantir proteção aos terroristas que os EUA apoiam e aos soldados norte-americanos em solo.

Significa que os EUA poderiam impor uma zona aérea de exclusão de fato, sobre quase toda a Síria, que deixaria expostas as forças sírias, e faria aumentar muito as chances a favor do exército de terroristas de Obama. Incirlik muda tudo. Passou a ser a pedra fundamental de toda a política dos EUA na Síria. Com acesso a Incirlik, a vitória fica ao alcance das hordas de terroristas que Washington patrocina. Essa é a importância de Incirlik.

E aí está a razão pela qual o normalmente super cauteloso Putin decidiu pôr em ação seus aviões, soldados e armamento logo depois do acordo de Incirlik ter sido assinado, o mais rapidamente possível. Putin viu todo o filme, passando no muro. Imediatamente soube que teria de agir rápido e virar a maré, ou aceitar o fato de que EUA e Turquia realmente conseguiriam derrubar Assad, imediatamente depois das próximas eleições na Turquia, marcadas para 1º de novembro. Esse é o prazo fatal. Então, Putin fez a coisa certa e entrou diretamente nos combates.

Mas o que Putin faz agora?

Na quarta-feira, apenas dois dias depois de ter dito à Assembleia Geral da ONU que: "ninguém pode continuar a tolerar o atual estado de coisas no mundo", Putin ordenou o bombardeio de alvos em Homs, uma das fortalezas do ISIS no oeste da Síria. Os ataques, que foram aprovados unanimemente pelo Parlamento russo naquele dia, mais cedo, e que são perfeitamente legais nos termos da lei internacional (o presidente legítimo da Síria, Bashar al-Assad solicitou formalmente que a Rússia atacasse os terroristas), puseram a política dos EUA de pernas para o ar. Enquanto os militares russos mantêm canal aberto para o Pentágono e estão reportando onde e quando estão atacando, o porta-voz do Departamento de Estado dos EUA John Kirby dizia que os planos dos EUA de "continuar a voar em missões sobre Iraque e Síria" fazem aumentar a possibilidade de colisão não desejada, que pode levar a uma confrontação entre EUA e Rússia.

Será isso, precisamente, o que Washington quer? Um incidente violento, que jogue dois adversários armados com bomba atômica, um contra o outro?

Consideremos um cenário provável: digamos que um F-16 seja abatido sobre a Síria ao passar por lá em missão para dar cobertura aos terroristas de Obama em solo. Agora, com a Rússia também voando sobre a Síria, há boa chance de Putin vir a ser culpado pelo incidente, exatamente como já aconteceu quando o jato malaio foi derrubado (não por russos) sobre o leste da Ucrânia.

Então, o que acontece em seguida?

A julgar por incidentes semelhantes, a mídia entrará imediatamente em modo de propaganda total, a exigir do governo que retalie contra sítios militares russos, e convocará mobilização de OTAN-EUA. Essa ação forçará Putin a defender-se e subir a aposta, ou recolher-se e cair em desgraça. Putin perde nos dois casos. E os EUA aproximam-se mais um passo de alcançar seu objetivo de derrubar Bashar al Assad.

Putin sabe de tudo isso. Compreende perfeitamente os riscos desse envolvimento militar, motivo pelo qual só depois de muito relutar decidiu-se, afinal, por essa via de ação. Isso posto, deve-se esperar que Putin aja como agiu quando tropas da Georgia invadiram Ossetia Sul em 2007: Putin usou os tanques para obrigar as tropas invasoras a recuar para dentro das fronteiras da Georgia e imediatamente pôs fim às hostilidades. Foi atacado pelos críticos da direita por não ter invadido a Georgia e removido o líder, Mikheil Saakashvili, na capital. Mas, como depois se comprovou, a contenção de Putin poupou a Rússia dos sofrimentos desnecessários de uma ocupação que drenaria recursos e consumiria o apoio popular: Putin estava certo; os críticos, errados.

Será que suas ações na Síria espelham aqueles na Ossétia do Sul?

Difícil dizer. Mas é absolutamente visível que a turma de Obama está embasbacada pela rapidez da ação. Basta ler o que diz o Guardian britânico: "Voltando à Casa Branca, o porta-voz Josh Earnest sugeriu que Vladimir Putin não avisou Barack Obama sobre suas intenções de iniciar ataques aéreos na Síria."

"Há muito tempo dizemos que aceitamos uma coordenação construtiva com a Rússia", diz Earnest, antes de acrescentar que as conversas entre militares dos EUA e da Rússia serão puramente táticas: "para garantir que nossas atividades militares e as atividades militares de nossos parceiros da coalizão sejam conduzidas em segurança." (The Guardian).

O que significa essa declaração sem pé nem cabeça do porta-voz? Significa que toda a classe política nos EUA foi colhida de surpresa pela blitz de Putin. E que ainda não conseguiram atinar com alguma resposta adequada. Todos sabem que Putin está desfazendo anos de trabalho, destroçando grupos terroristas constituídos e treinados durante anos para dar aos EUA os objetivos desejados. Mas ainda não há acordo entre as elites dominantes nos EUA sobre o que deva ser feito. E construir acordos desse tipo, para decisão dessa magnitude, pode levar tempo, o que significa que Putin provavelmente conseguirá destruir grande número de esconderijos de terroristas e restaurar o controle sobre grandes partes do país de Assad, antes que os EUA consigam costurar qualquer estratégia. De fato, se se mover bem rapidamente, Putin pode até forçar os EUA e seus aliados do Golfo a sentar numa mesa de negociações onde seja possível construir alguma solução política.

É um tiro de longo alcance, mas é melhor opção do que se deixar estar, à espera que os EUA imponham qualquer zona aérea de exclusão, que leve ao colapso o governo central e reduza a Síria à estado de anarquia semelhante ao que os EUA criaram na Líbia. Aí não haveria futuro.

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