28 de outubro de 2015

Eleições na Turquia: Um país dividido a um passo da ditadura?

Fears that if President Erdogan wins a simple majority of 276 seats in the 550-seat parliament, he will establish an authoritarian presidential system

Patrick Cockburn

The Independent

Tradução / A Turquia vai às urnas neste domingo em uma eleição parlamentar que ameaça aumentar a polarização em um país que já está profundamente dividido.

Em jogo está a forma como o Presidente Recep Tayyip Erdogan e o seu Partido da Justiça e Desenvolvimento (AKP), que governa a Turquia desde 2002, pode estabelecer o regime de partido único e aproximar-se do monopólio do poder político.

A eleição ainda não está decidida, mas na Turquia a campanha alargou as linhas de fratura entre curdos e turcos, seculares e islâmicos, maioria sunita e minoria alevita. No exterior, os resultados podem determinar o maior grau de envolvimento na guerra civil na Síria e no Iraque.

Muita gente pôs em espera as suas decisões até ser conhecido o resultado eleitoral. Ersin Umut Guler, ator e diretor de teatro, está esperando para ver se ele vai reduzir as tensões políticas, permitindo-lhe trazer de volta à Turquia o corpo do seu irmão Aziz do norte da Síria, onde foi morto em combate contra o Estado Islâmico a 21 de setembro ao pisar uma mina.

As autoridades turcas recusaram permitir que os restos mortais de Aziz pudessem atravessar a fronteira, já que apelida os curdos adversários do Estado Islâmico de “terroristas” ligados ao Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), contra quem trava uma guerra de guerrilha desde 1984.

“Isto parece saído da Antígona [que foi proibida de enterrar o corpo do seu irmão morto em batalha]”, diz Guler. “É uma decisão arbitrária justificada pelo reinício da guerra entre a Turquia e o PKK, não estão a deixar passar nenhum cadáver na fronteira”. Ele sublinha que Aziz era um cidadão turco que foi combater o Estado Islâmico enquanto membro de um grupo socialista e não fez parte do PKK. O pai de Aziz foi para a Síria e recusa-se a regressar até que possa trazer consigo o corpo do filho.

Os quatro meses e meio de cerco a Kobane e o rescaldo da última eleição legislativa, a 7 de junho, serviram ambos para reacender o conflito armado entre o Estado turco e a minoria curda.

Ankara ficou chocada por ver a emergência de um pequeno estado curdo no norte da Síria e é acusada pelos curdos de ajudar o Estado Islâmico a atacá-los.

Isto afastou os curdos conservadores e religiosos da Turquia, que antes votavam AKP mas mudaram para o pró-curdo Partido Democrático do Povo (HDP) na última eleição. Isso permitiu ao partido passar a barreira dos 10% e conquistar representação parlamentar, tirando ao AKP e a Erdogan a maioria, pela primeira vez em 13 anos.

As relações entre o governo e os curdos deterioraram-se rapidamente, com Erdogan e os dirigentes do AKP a acusarem repetidamente o HDP, que é a favor do cessar-fogo, de ser um instrumento do PKK.

A 20 de julho um homem-bomba do Estado Islâmico matou em Suruc 32 jovens socialistas que estavam a caminho de Kobane para ajudar na reconstrução. Depois de dois polícias turcos terem sido mortos em retaliação, o exército e a força aérea reataram os ataques ao PKK no sudoeste da Turquia e no Iraque.

A 10 de outubro, outro atentado suicida do Estado Islâmico matou 102 manifestantes pela paz em Ankara, naquele que foi o maior ataque terrorista na Turquia. Os partidos da oposição acusam as autoridades de não os defender contra o Estado Islâmico e cancelaram os comícios pré-eleitorais.

A campanha eleitoral tem sido extremamente violenta com manifestantes a atacarem as sedes do HDP e jornais da oposição. Murat Yetkin, um dos principais jornalistas no diário secular liberal Hurriyet, lembra como por duas vezes a sede do jornal foi atacada por bandos em setembro, partindo as janelas todas. Um colunista foi depois atacado e ficou com o nariz e costelas partidas.

Esta semana, trabalhadores reforçavam as barreiras defensivas na entrada do edifício, mas existe a sensação de que todas as instituições críticas de Erdogan estão sob assédio permanente.

Yetkin diz que a polarização na Turquia atingiu o zénite, e há o perigo, caso Erdogan alcance a maioria de 276 em 550 lugares do parlamento (agora o AKP tem 258 deputados), ele estabeleça um regime presidencialista autoritário.

As sondagens mostram que as intenções de voto nos quatro principais partidos não mudaram muito desde a eleição de junho, com o AKP a liderar com pouco mais de 40%. Isso coloca-o a poucos lugares da maioria absoluta e caso falhe pode procurar uma coligação com o mais secular Partido Republicano do Povo (CHP) ou a extrema-direita do Partido de Ação Nacionalista (MHP).

Mas Erdogan nunca mostrou simpatia por coligações ou por diluir o seu próprio poder.

As suas hipóteses de sucesso podem ser maiores do que parecem, já que muitas instituições e centros de poder, como o exército, a justiça e a maior parte dos media, foram domesticadas e colocadas sob o seu controle.

Ainda esta semana em Ancara, a polícia forçou a entrada na sede da empresa Koza-Ipek Holding, dona de dois jornais e dois canais televisivos, para aplicar uma ordem do tribunal a nomear um painel de curadores.

O AKP tem uma vantagem esmagadora no que toca a fazer campanha e influenciar o eleitorado. Uma estudo sobre os canais de televisão pública mostra que, nos últimos 25 dias, deram 30 horas de cobertura ao AKP e 29 horas às atividades de Erdogan, enquanto o CHP teve direito a 5 horas, o MHP 1 hora e 10 minutos e o HDP 18 minutos.

Erdogan também pode ganhar com um sentimento comum a muitos eleitores de que o AKP representa a estabilidade, mesmo que isso signifique uma viragem em direção à ditadura, e que todas as outras alternativas significam instabilidade e incerteza com prejuízos para a economia.

A economia turca já não produz o crescimento espetacular que teve até 2012. Quem tem boas qualificações encontra dificuldades em arranjar um emprego ou, quando o perde, de conseguir outro.

Dilsah Deniz, uma mulher na casa dos vinte com uma licenciatura em Relações Internacionais, trabalhava como gestora numa empresa de armamento, mas a desvalorização acentuada da moeda turca no último ano impediu a compra de matérias-primas na Europa. As duas fábricas fecharam, ela perdeu o emprego e não conseguiu ainda encontrar outro.

Ela diz que muitas empresas suspenderam as entrevistas a candidatos a emprego até conhecerem o desfecho das eleições. E espera que mais estabilidade melhore as suas hipóteses de conseguir trabalho.

Qualquer que seja o resultados das eleições, ela pode ficar desiludida. A violência que abala a Síria e o Iraque está a alastrar à Turquia e os ataques bombistas do Estado Islâmico envenenaram as relações entre turcos e curdos.

Pior ainda, o envolvimento da Turquia na Síria não impediu a criação de um novo quase-Estado curdo ao longo de 400 quilômetros da fronteira Sul da Turquia, que atualmente é gerido pelo ramo sírio do PKK.

A Turquia, que estava preparada para se tornar uma grande potência no Oriente Médio em 2012, é agora praticamente excluída enquanto influência na maior parte da região. Um novo avanço dos curdos sírios pode levar Ancara a ponderar uma intervenção militar direta.

O resultado da eleição de domingo é imprevisível, mas já desencadeou ou acentuou poderosas forças de divisão. Erdogan pode querer controlá-las a seguir às eleições, mas terá dificuldade em fazê-lo.

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