7 de outubro de 2015

Mensageiros da globalização

Zygmunt Bauman


Tradução / As fronteiras não são traçadas levando em conta as diferenças; as diferenças são buscadas, achadas ou inventadas em função de fronteiras que já tinham sido traçadas, ou pelo menos assim afirmou e ilustrou profusamente o grande antropólogo norueguês Fredrik Barth em sua obra magna ­Grupos étnicos e fronteiras: A organização social da cultura diferença (publicado em 1969 pela Oslo Universitetsforlaget)­.

Há um desejo fervente de procurar ou inventar diferenças como forma de legitimar a posteriori a presença de limites para justificar a mútua separação e a dupla linguagem orwelliana, a tática dos dois critérios de medição e a diversidade de códigos de conduta pensados para favorecer ou salvaguardar nada menos, e nada mais, que muros de concreto de quatro metros de altitude, alambrados e prisões ou acampamentos que aguardam os intrusos.

Estamos vendo hoje como a Europa se dedica a elevar práticas descritas por Barth, até agora consideradas excentricidades de populistas sem escrúpulos, à categoria de critério legal autorizado e universalmente vinculante. A política que até há pouco tempo era associada e um elemento marginal e errático da sociedade europeia está passando à toda velocidade ao centro do espectro político.

Desde o desastre ocorrido em outubro de 2013 diante das costas de Lampedusa, “as políticas dos dirigentes europeus não mudaram”, segundo escrevia Maximilian Popp em seu artigo Um olhar interno à vergonhosa política de imigração da UE, publicado em 11 de setembro de 2014 na Der Spiegel:

“Quase não existe via legal para os refugiados na Europa: nem para a maioria dos sírios, dos quais muito poucos chegam à Alemanha na condição de refugiados como parte de uma quota, nem para os iraquianos nem para pessoas em dificuldades procedentes de países da África Ocidental. Quem deseja pedir asilo na UE tem que chegar antes de forma ilegal, em barcos de traficantes de pessoas, escondidos em caminhonetes ou em voos comerciais com passaportes falsos. A UE está fechando suas portas... A transformação da União Europeia em uma fortaleza criou as condições que causaram tantas mortes diante de suas fronteiras. Muitos refugiados escolhem a perigosíssima rota do Mediterrâneo porque a Frontex está fechando as rotas terrestres”.

Para todos os efeitos, a reação da UE diante da tragédia de 2013 em Lampedusa é um convite permanente a suas inumeráveis repetições. A explosão de sentimentos fraternais desencadeada pela fotografia do cadáver de Aylan Kurdifoi provou ter vida curta, as fronteiras da Europa estão voltando a fortificar-se frente aos outros indesejados, e as condições para entrar são cada dia mais estritas.

Ao mesmo tempo, as expressões de solidariedade para com os seres humanos que vivem esta tragédia humana ficaram relegadas outra vez à margem, de modo que o processo político fica à mercê dos alarmistas, e o cenário público, em mãos da insensibilidade moral e da indiferença. O debate político volta a recorrer ao catálogo dos argumentos mais batidos, uma mistura de medos econômicos e de insegurança.

No debate atual não se estudou suficientemente uma das causas fundamentais desta resposta apagada, talvez a que inspira todas as demais reações. O fato de que não podemos deixar de nos dar conta de que o aparecimento repentino e maciço de desconhecidos que batem à nossa porta é um fenômeno que nem fomos nós que provocamos nem podemos controlar. Não é estranho que, para muitos, as sucessivas ondas de imigrantes sejam (parafraseando Bertolt Brecht) “presságios de más notícias”.

Lembram-nos sem cessar o que adoraríamos esquecer ou, melhor ainda, fazer desaparecer: algumas forças globais, distantes, que às vezes podem ser ouvidas, mas são intangíveis, ocultas e misteriosas, e com a capacidade de se imiscuírem em nossas vidas ao mesmo tempo que desprezam e ignoram nossas preferências.

A verdadeira culpa imperdoável das vítimas colaterais dessas forças, assim que se transformam em nômades sem lar, é que trazem à luz a realidade da (incurável?) fragilidade de nosso conforto e da segurança de nosso lugar no mundo. E por isso, por uma lógica viciada, tende-se a vê-las como tropas de vanguarda que estão montando seus quartéis entre nós.

Estes nômades, que não estão assim por vontade própria, mas pelo veredito de um destino desapiedado, nos fazem lembrar de um jeito irritante da vulnerabilidade de nossa posição e da fragilidade de nosso bem-estar, É um costume humano, humano demais, culpar e castigar os mensageiros pelo odioso conteúdo da mensagem que transmitem, em vez de responsabilizar as forças mundiais incompreensíveis, inescrutáveis, aterrorizantes e logicamente ressentidas que suspeitamos que são as culpadas do angustiante e humilhante sentimento de incerteza existencial que nos arrebata a confiança e causa estragos em nossos planos de vida.

E embora não possamos fazer nada para controlar as assombrosas forças da globalização, escorregadias e distantes, pelo menos podemos desviar a irritação que nos produzem e descarregá-la, via um intermediário, sobre suas consequências, que estão perto e ao nosso alcance.

Podemos, por assim dizer, exorcizar o impressionante fantasma em uma efígie. Como é natural, isso não serve para erradicar o problema pela raiz, mas talvez possa aliviar durante algum tempo a humilhação de nosso infortúnio e a impossibilidade de lutar contra a precariedade incapacitante de nosso espaço no mundo.

Tudo isso, repito, não alcança nem de longe as raízes da tragédia humana que estamos presenciando, nem muito menos a possibilidade de evitar que nos afunde ainda mais nas turvas águas da indiferença moral e da desumanidade. Essas respostas a este desastre humano equivalem a depositar os cruéis dilemas que nos apresenta, nossas responsabilidades morais e nossos pesos na consciência, nos ombros de outros e, em uma violação flagrante do imperativo moral categórico de Kant, fazer aos outros o que não gostaríamos que fizessem a nós.

Induzem-nos a separar em vez de unir e, dessa forma, ajudar as forças globais descontroladas na imposição de sua estratégia de divide e vencerás, a causa principal desta catástrofe. Por mais custoso que seja oferecer solidariedade às vítimas deliberadas e colaterais dessas forças, por mais dolorosos que possam ser os sacrifícios pessoais que exigem de nós agora, essa é, em longo prazo, a única resposta com possibilidades realistas de evitar outros desastres humanos e o agravamento do atual.

Georg Simmel ressaltou que o conflito é um prelúdio à integração: um instante de contato, de impacto, uma tentativa (fracassada) de eliminar uma mancha escura de uma paisagem limpa e a decisão de abrir espaço nela. Até que o enfrentemos, o desconhecido continua sendo estranho, estranho dos pés à cabeça, incomunicável por natureza, e daqui à eternidade.

O conflito é bater em uma porta completamente fechada e pedir ou exigir que se abra o postigo e o intruso seja examinado em detalhes. Os que estão atrás da porta na qual é possível bater podem reagir antecipadamente instalando fechaduras mais sólidas e cercando a casa de câmeras de segurança.

Se fazem isso, a comunicação ­ — o caminho real para a fusão de horizontes de Hans-Georg Gadamer — é rompida, ou, melhor dizendo, é cortada pela raiz. Simmel sugeria que à parte de que o conflito engendre amor ou ódio, pode proporcionar uma saída da selva do isolamento recíproco, embora com a condição de que haja diálogo, que equivale ao mútuo reconhecimento de que a condição humana é compartilhada, ou seja, transformando o muro da fronteira em uma ponte.

O primeiro obstáculo para a saída do isolamento recíproco é a rejeição ao diálogo: o silêncio do distanciamento, a falta de atenção, o desprezo e a indiferença. Em lugar de amor e ódio, a dialética do traçado de fronteiras é concebida como uma tríade de amor, ódio e indiferença ou abandono. 

Sobre o vício ou o pecado da indiferença, o papa Francisco disse, em 8 de julho de 2013, durante sua visita a Lampedusa, o lugar e o instante em que começou a maré atual de mal-estar e a posterior debacle moral: 

“Quantos de nós, eu incluído, perdemos o rumo; já não estamos atentos ao mundo em que vivemos; não nos importa; não protegemos o que Deus criou para todos, e acabamos sendo incapazes até de cuidar uns dos outros. E quando a humanidade perde o rumo, ocorrem tragédias como a que presenciamos... É preciso se fazer a pergunta: quem é responsável pelo sangue destes nossos irmãos e irmãs? Ninguém! Esta é nossa resposta: não sou eu; não tenho nada que ver com isso; deve ser outra pessoa, mas é claro que não eu... Em nosso mundo, hoje, ninguém se sente responsável. Perdemos o sentido da responsabilidade por nossos irmãos e irmãs...A cultura do conforto, que nos faz pensar somente em nós mesmos, em bolhas de sabão que, por mais belas que sejam, são insubstanciais. Oferecem uma ilusão vã e passageira que desemboca na indiferença para com os outros, até na globalização da indiferença. Neste mundo globalizado, caímos na indiferença globalizada. Nós nos acostumamos ao sofrimento dos outros: não me afeta, não me preocupa, não é assunto meu”.

O papa Francisco nos faz um chamado para “eliminar a parte de Herodes que está à espreita em nossos corações. Peçamos ao Senhor a graça de chorar por nossa indiferença, de chorar pela crueldade de nosso mundo, de nossos próprios corações e de todos que, no anonimato, tomam decisões sociais e econômicas que abrem a porta a situações trágicas como esta. Alguém chorou? Alguém chorou hoje em nosso mundo?”.

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