11 de outubro de 2015

Não deixe o Prêmio Nobel enganá-lo. A economia não é uma ciência

O prêmio glorifica economistas como contadores de verdades eternas, promovendo arrogância e levando ao desastre

Joris Luyendijk


Ilustração: Jasper Rietman

Negócios, como sempre. Essa será a mensagem implícita quando o Sveriges Riksbank anunciar vencedor deste ano do "Prêmio em Ciências Econômicas, em Memória de Alfred Nobel, para dar-lhe seu título completo. Há sete anos, no outono, todo o mainstream da profissão de economia foi pego de surpresa pela crise financeira global e "o pior pânico desde os anos 1930" que se seguiram. E ainda nesta segunda-feira (12), a glorificação da economia como um campo científico em pé de igualdade com a física, a química e a medicina continuará.

O problema não é exatamente que existe um prêmio Nobel em economia, mas que não há prêmios equivalentes em psicologia, sociologia, antropologia. Economia, isso dá a entender, não é uma ciência social, mas exata, como física ou química — uma distinção que não só incentiva a arrogância entre os economistas, mas também muda a forma como pensamos sobre a economia.

Um prêmio Nobel de economia implica que o mundo humano funciona muito como o mundo físico: que ele pode ser descrito e entendido em termos neutros, e que se presta a modelagem, como as reações químicas ou o movimento das estrelas. Cria a impressão de que os economistas não estão no negócio de construção de teorias inerentemente imperfeitas, mas de descobrir verdades eternas.

Para ilustrar o quão perigoso esse tipo de crença pode ser, precisamos apenas considerar o destino do Long-Term Capital Management, um fundo de hedge criado, entre outros, pelos economistas Myron Scholes e Robert Merton em 1994. Com um trabalho sobre derivados, Scholes e Merton pareciam ter alcançado uma fórmula que rendeu uma estratégia de negociação segura, mas lucrativa. Em 1997, eles foram agraciados com o prêmio Nobel. Um ano mais tarde, o Long-Term Capital Management perdeu US$ 4,6 bilhões em menos de quatro meses; um resgate foi necessário para evitar a ameaça ao sistema financeiro global. Os mercados, ao que parece, nem sempre se comportam como modelos científicos.

Na década seguinte, o mesmo excesso de confiança no poder e na sabedoria de modelos financeiros gerou uma cultura desastrosa de complacência, acabando no crash de 2008. Por que os banqueiros deveriam se perguntar se um novo produto financeiro complexo lucrativo é seguro quando os modelos dizem que é? Por que dar aos reguladores um poder real quando os modelos podem fazer o trabalho deles?

Muitos economistas parecem ter chegado a pensar em seu campo em termos científicos: um corpo de conhecimento objetivo crescente de forma incremental. Nas últimas décadas a economia ortodoxa nas universidades se tornou cada vez mais matemática, concentrando-se em análises estatísticas complexas e modelagem em detrimento da observação da realidade.

Considere esta linha descartável do ex-presidente da Autoridade Britânica de Serviços Financeiros e diretor da London School of Economics Howard Davies em seu livro de 2010 "The Financial Crisis". "Há uma falta de investigação da vida real nos pregões." Ao que poderíamos responder: bem, sim, então que tal fazer algo sobre isso? Afinal, Davies, na época, liderava a instituição provavelmente mais prestigiada de pesquisa econômica da Europa, localizada a poucos passos de distância dos bancos que "explodiram".

Todos esses bancos têm "comitês de aprovação de produtos estruturados", onde uma equipe se reúne para decidir se o banco deve adotar um determinado novo produto financeiro complexo. Se a economia fosse uma ciência social, como a sociologia ou a antropologia, os praticantes começariam a entrevistar os membros desses comitês, examinando os minutos das reuniões e tentando observar tantas reuniões quanto fosse possível. É assim que funciona o tipo de ciências sociais "qualitativas" baseadas em trabalho de campo, que os economistas gostam de descartar como "leves" e não científicas. É verdade que esta abordagem também vem com ressalvas metodológicas sérias, como a comprovação, o viés de seleção ou o viés do observador. A diferença é que outras ciências sociais tratam abertamente tais limitações, defendendo que, embora o conhecimento humano sobre os seres humanos seja fundamentalmente diferente do conhecimento humano sobre o mundo natural, é extremamente importante fazer essas observações imperfeitas.

Compare essa humildade com a do ex-presidente do Fed (o banco central americano) Alan Greenspan, um dos arquitetos da desregulamentação das finanças e um grande crente em modelos. Após o crash, Greenspan compareceu perante uma comissão do Congresso nos EUA para se explicar. "Cometi um erro ao presumir que os interesses próprios das organizações, especificamente bancos e outros, eram tais que eles eram mais capazes de proteger seus próprios acionistas e seu patrimônio nas empresas", disse o homem a quem colegas economistas chamavam de o "maestro".

Em outras palavras, Greenspan tinha sido incapaz de imaginar que os banqueiros levariam seus próprios bancos até o colapso. Se o maestro tivesse lido a pequena pilha de livros de antropólogos financeiros, poderia ter achado mais fácil imaginar tal comportamento. Em seguida, ele teria sabido que nas últimas décadas os bancos haviam adotado uma cultura de contratar-e-demitir com "segurança zero no emprego", criando uma mentalidade de "zero lealdade" que pode ser resumida como: "se você pode estar na rua em cinco minutos, seu horizonte passa a ser de cinco minutos".

Enquanto isso era aparentemente novo para Greenspan, não era para antropóloga Karen Ho, que fez anos de trabalho de campo em um banco de Wall Street. Seu livro "Liquidated" enfatiza o papel central da "segurança zero no emprego" em Wall Street (o mesmo sistema governa a cidade de Londres). O "Codes of Finance", livro sobre a divisão de produtos financeiros complexos de um banco francês, do sociólogo financeiro Vincent Lépinay, descreve em detalhes convincentes como a memória institucional sofre quando as pessoas mudam de emprego com frequência e em curto prazo.

Talvez o efeito mais pernicioso do status de economia na vida pública seja a hegemonia do pensamento tecnocrático. Questões políticas sobre como administrar a sociedade passaram a ser enquadradas como questões técnicas, fatalmente diminuindo a política como a arena dos meios e dos fins dos debates da sociedade. Pense em um conceito fundamental, como Produto Interno Bruto. Como Ha-Joon Chang deixa claro, as escolhas sobre o que não incluir no PIB (trabalho doméstico, para citar uma) são altamente ideológicas. O mesmo se aplica à inflação, uma vez que não há nada de neutro na decisão de não dar maior peso à explosão nos preços dos mercados de habitação e de ações no cálculo da inflação.

O PIB, a inflação e até mesmo números de crescimento não são medidas objetivas de temperatura da economia, não importa o quanto economistas, comentaristas e políticos gostem de fingir que são. Grande parte da economia é política disfarçada de tecnocracia — reconhecer isso pode ajudar a abrir espaço para o debate e a mudança política que tanto têm faltado nos últimos sete anos.

Não seria extremamente útil rebaixar a economia um pouco reformulando o prêmio para incluir todas as ciências sociais? O prêmio Nobel de Economia não é nem mesmo um prêmio Nobel "real", de qualquer maneira, só tendo sido criado pelo banco central sueco em 1969. Nos últimos anos, ele pode ter sido adjudicado a mais praticantes não convencionais, como o psicólogo Daniel Kahneman. No entanto, Kahneman foi ainda recompensado por sua contribuição à ciência da economia, ainda colocando esse campo no centro do cenário.

Pense em quão frequentemente o prêmio Nobel de literatura eleva escritores ou poetas pouco conhecidos ao palco global, ou como o Nobel da Paz desperta uma discussão global vital: o Nobel de Naguib Mahfouz apresentou a literatura árabe para um público de massa, enquanto o prêmio do ano passado para Kailash Satyarthi e Malala Yousafzai botou na agenda o direito de todas as crianças à educação. Enquanto isso, prêmios Nobel em economia vão para contribuições para "métodos de análises de séries temporais econômicas com volatilidade temporal" (2003) ou a "análise dos padrões do comércio e a respeito da localização da atividade econômica" (2008).

Um prêmio Nobel renovado de ciências sociais poderia desempenhar um papel similar, alimentando a discussão global com novas descobertas e insights de todas as ciências sociais, sempre enfatizando a necessidade de humildade no tratamento do conhecimento sobre os seres humanos pelos seres humanos. Um bom candidato seria o sociólogo Zygmunt Bauman, cuja escrita em "Modernidade Líquida" do capitalismo pós-utópico merece a maior audiência possível. Outro seria Richard Sennett e seu trabalho sobre a "corrosão do caráter" entre os trabalhadores nas economias de hoje. Será que os economistas se voluntariariam a partilhar o seu prestigiado prêmio por si mesmos? Suas próprias premissas econômicas dominantes sobre o egoísmo humano sugerem que não.

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