7 de outubro de 2015

O que revelam as tensões entre Rússia e Turquia

Hadrien Desuin


O engate aéreo e intimidação diplomática fizeram subir a temperatura entre a Turquia e a Rússia nos últimos dias. O calor deve diminuir rapidamente, mas tem a vantagem de estabelecer um certo equilíbrio de poder. No século XIX, o Império Russo interveio para proteger as minorias perseguidas orientais pelos otomanos. Esta nobre missão deu-lhe uma razão para estender sua área de influência. 150 anos depois, a história parece repetir-se de forma estranha.

Tanto Israel tenta chegar a um acordo com o Kremlin, para que seus aviões continuem a intervir no céu do sul da Síria, quanto a Turquia recusa qualquer coordenação com a Rússia no norte. A diplomacia turca gesticula e alega a violação do seu espaço aéreo, mas o problema está em outro lugar. Precisamente do outro lado da fronteira. Esse verão, o regime turco anunciou sua intenção de criar uma zona aérea de exclusão. Uma grande zona tampão ao norte da Síria, com dois objetivos principais: fixar os refugiados sírios, mas, sobretudo, atacar os curdos. O objetivo final sempre foi derrubar o presidente el-Assad seguindo o modelo usado na Líbia e colocar um regime irmão, islâmico neste caso.

Infelizmente para ela, a Turquia está obrigada a constatar que, em face da aviação russa, esses objetivos absolutamente não são alcançáveis. Passados quatro anos de tentativas, o repentino recuo forçado de sua política para a vizinhança sul imediata enfureceu o megalomaníaco Recep Tayyip Erdogan. Assim também, a guerra civil que Erdogan contribuiu para alimentar na Síria reacendeu o irredentismo curdo e quebrou a própria coalizão eleitoral de Erdogan e seu sonho, de restauração otomana, virou poeira.

Ataques russos são um despertar muito desagradável para os turcos por várias razões. Vista de Damasco e de Moscou, a Turquia tem razão de defender a soberania de seu espaço aéreo. Mas não pode, ao mesmo tempo violar seu vizinho. É revelador que a Turquia tenha defender o próprio espaço aéreo. Ontem na ofensiva na Síria, hoje está na defensiva, e a aviação russa morde até dentro do território sírio. Estão definitivamente enterradas as ambições turcas de estabelecer um protetorado turco na Síria; Ancara terá de voltar às suas torpezas internas.

Além disso, os caças russos não combatem pelas mesmas regras de engajamento que a coalizão ocidental, em princípio, dedicada a não atingir civis, apesar do contraexemplo de Kunduz. Excluindo o exército curdo da Síria é a primeira vez que ataques aéreos tão numerosos e tão potentes acontecem coordenados com soldados em solo capazes de ocupar o terreno na trilha dos bombardeios. E a opinião russa não pedirá contas aos seus pilotos e soldados ao primeiro erro, não importam quais erros.

Isso quer dizer que "a conquista do exército", a aliança jihadista apoiada pela Turquia, que inclui a Al-Qaeda e os "rebeldes moderados" que o ministro Laurent Fabius tanto aprecia, recebeu duro golpe, suficiente para detê-la, sob o dilúvio de bombas russas. A tal aliança jihadista terá de enfrentar na sequência uma ofensiva terrestre do exército sírio. Os amigos da Turquia não podem limitar-se a baixar a cabeça à espera de que os aviões se distanciem: se quiserem ainda defender suas posições, terão de aparecer em campo aberto.

Assim, o exército sírio que dava graves sinais de fraqueza está recomposto. A ofensiva aérea dos russos pode permitir que el-Assad e seus aliados (Iraque e Irã) restabeleçam progressivamente o corredor até Alepo, blindem Damasco e o eixo que vai na direção de Homs e Hama e depois, sem dúvida, retomem Palmira. Em resumo, com a entrada em cena da Rússia, toda a estratégia turca, mas também toda a estratégia ocidental desabam: que al-Assad permanecerá no governo deixou de ser uma improbabilidade e passa a ser fato que todos terão de levar em conta ainda por muitos anos. De tanto que mantiveram Putin à distância, em favor da aliança turco-saudita, os ocidentais o obrigaram a intervir; assim repuseram a Rússia – contra a vontade deles – no coração do Oriente Médio.

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