3 de novembro de 2015

Debacle de Kerry em Viena

Mike Whitney

CounterPunch: Tells the Facts and Names the Names

Tradução / Alguém pode explicar-me por que o presidente Obama decidiu anunciar que vai enviar soldados das Forças Especiais dos EUA para a Síria, no mesmo dia em que o secretário de Estado John Kerry tinha reunião com diplomatas russos e iranianos para discutir o fim de uma guerra que já dura quatro anos e meio?

Sobre o que era tudo isso?

Será que Obama supõe que assustaria russos e iranianos com esse agitar cenográfico de sabres?

Será que pensa que os russos cancelariam a ofensiva militar e retirariam o apoio que dão a Assad?

O que ele estava pensando?

O próprio Kerry mostrou-se constrangido pelo anúncio presidencial, que nada obteve, exceto convencer os presentes de que a política externa dos EUA é conduzida por amadores amadores que não têm ideia do que estão fazendo. Isso é tudo o que conseguiu.

De acordo com o New York Times, "o secretário Kerry disse aos jornalistas que o timing do anúncio tinha sido 'uma coincidência', e que ele não tinha conhecimento de que alguma decisão havia sido tomada, até a manhã daquela sexta-feira." (Obama Sends Special Operations Forces to Help Fight ISIS in Síria, New York Times)

"Uma coincidência"? Kerry pensa que foi uma coincidência?

Felizmente, o Times não é tão ignorante quanto Kerry e até admite qual o real objetivo do movimento. Confiram:

"O presidente Obama anunciou na sexta-feira que ordenou várias dezenas de tropas de Operações Especiais para a Síria para a primeira missão sem fim previsto por forças terrestres dos Estados Unidos nesse país... 
... O envio de tropas americanas... estava destinado a reforçar os esforços diplomáticos do secretário de Estado, John Kerry, que na sexta-feira chegou a um acordo em Viena com países que têm interesses divergentes, para explorar "um cessar-fogo em todo o país"... (Obama Sends Special Operations Forces to Help Fight ISIS in Síria, New York Times).

Viram? Não foi coincidência. Foi intencional. Foi projetado para "reforçar os esforços diplomáticos do secretário de Estado, John Kerry." Em outras palavras,  foi uma ameaça, pura e simples.

Para realmente se avaliar a estreiteza de visão desse movimento, é preciso tentar compreender, para começar, por que essas conversações foram propostas. Qual o objetivo dessas negociações e quem as propôs?

Bem, foi Washington que propôs; Não foi a Rússia, não foi o Irã, não foi a Arábia Saudita, não foi a Turquia e não foi a Europa. Foi Washington. E a razão por que Washington quis essas reuniões é que (como o Times diz) os americanos queriam "explorar um cessar-fogo em todo o país". O governo dos EUA quer o fim dos combates. Agora. Essa é a razão pela qual Kerry correu feito galinha recém-degolada de um lado para outro, para conseguir pôr todos os diplomatas reunidos no mesmo lugar o mais rápido possível.

Mas que ninguém suponha nem por um instante que, dado que Washington deseja um cessar-fogo, Washington também deseje alguma "solução política", ou "acordo negociado", nem alguma paz, porque Washington não deseja nada disso. Não há paz alguma na agenda dos EUA, e nunca houve. Ao longo dos últimos quatro anos e meio, os EUA vêm apoiando empenhadamente os terroristas sunitas e outros grupos militantes, para garantir que esses e outros evitem a qualquer custo qualquer paz, porque a paz seria um obstáculo para o verdadeiro objetivo, que é a mudança de regime.

Então o que mudou; em outras palavras, por que Kerry parece repentinamente tão desesperado para promover reuniões, quando, durante os últimos quatro anos e meio, teve todas as oportunidades do mundo para recolher seus animais ao canil?

O que mudou foi Vladimir Putin. Putin cansou-se, cansou-se totalmente, definitivamente, dos EUA a rasgarem em farrapos, um depois do outro, tantos países do Oriente Médio e decidiu colocar um fim a isso. Assim, ele formou uma coalizão (os 4+1: Irã, Iraque, Síria e Hezbollah) e começou a empurrar os terroristas para o inferno, à bomba.

Isso criou um enorme problema para Washington, porque muitos desses extremistas violentos foram armados e treinados pelos EUA. São "os rapazes" de Washington, e estão fazendo o trabalho sujo de Washington, combatendo guerra por procuração para derrubar do poder o presidente Bashar al Assad da Síria. Por isso Kerry solicitou as reuniões: porque os EUA precisam desesperadamente de um cessar-fogo, para proteger o maior número possível de canalhas que os EUA treinam e armam. Eis o que disse Kerry depois das conversas da sexta-feira:

"A teoria do cessar-fogo é muito simples: certas partes controlam ou influenciam o pessoal armado e com habilidade para lutar. E se alcançarmos um acordo com respeito a trechos da estrada à frente, haverá uma responsabilidade dos que influenciam aqueles que... aqueles que têm controle direto sobre algumas partes, e vão controlá-las. Claro que no que tenha a ver com Daesh e al-Nusrah, não há cessar-fogo, nada disso, e esses são os parâmetros iniciais. Mas há muito mais a discutir entre militares, políticos... Há todos os tipos de possibilidades, mas elas ainda precisam ser exploradas."

Não lhes parece, caros leitores, que Kerry está muito mais interessado em discutir detalhes de um cessar-fogo, do que em pôr fim à guerra? Isso, porque seu real objetivo nada tem a ver com paz ou socorro humanitário. O verdadeiro objetivo de Kerry é salvar o maior número possível daquelas hienas sedentas de sangue. Essa é a meta de Washington.

Por que isso importa?

É importante porque, se Washington não quer realmente a paz, então nós temos que assumir que as conversações são uma farsa e que Kerry está apenas comprando tempo para que ele possa reagrupar suas forças e retomar a guerra em alguma data posterior.

Como sabemos disso?

Sabemos isso porque Kerry fez um discurso para o Carnegie Endowment for International Peace um dia antes de partir para Viena no qual ele anunciou exatamente qual era a estratégia dos EUA. Eis o que ele disse:

"No norte da Síria, a coalizão e seus parceiros empurraram o Daesh (ISIS) para fora de mais de 17 mil quilômetros quadrados de território, e já asseguramos a fronteira turco-sírio a leste do rio Eufrates. Isso é cerca de 85 por cento da fronteira turca, e o Presidente está autorizando outras atividades para proteger o resto... 
Também estamos reforçando nossa campanha aérea, para ajudar a empurrar o Daesh, que antes dominava a fronteira sírio-turca, para fora da faixa de 70 milhas, que o grupo controla." (US Secretary of State John Kerry on the Future of US Policy in the Middle East, Carnegie Endowment for International Peace)

Aí está, preto no branco. Kerry está dizendo, basicamente, ao círculo de seus amigos mais íntimos, que Washington está mudando para o Plano B, um plano de conservação, que envolverá estabelecer uma "zona segura" no lado sírio da fronteira sírio-turca onde EUA e seus parceiros possam continuar a armar, treinar e enviar de volta à Síria aquele seu exército de arruaceiros sempre que acharem interessante. Portanto, agora sabemos o que as Forças Especiais de Obama farão na Síria, não é mesmo? Eles estarão lá para supervisionar operações para pôr em andamento esse projeto.

Será que Putin vai gostar da ideia de Washington tentar anexar território sírio soberano, para que os EUA tenham meios para manter guerra naquela região para todo, todo um longo futuro?

Ele não vai gostar nada, de fato, poderia ser um grande problema para ele. Se os EUA securitizam área na qual os terroristas extremistas se possam plantar por longo tempo, então, sim, os EUA podem até conseguir converter o conflito sírio em mais um atoleiro de tipo Afeganistão – que parece ser o objetivo/desejo de muitos atuais planejadores estratégicos em Washington.

Então, o que Putin deve fazer? Como é que ele atingir seus objetivos sem esbarrar nisso?

Bem, a primeira coisa que ele tem que fazer é perceber que Viena é uma piada. Que o governo Obama não fala a sério, que não tem qualquer interesse em solução diplomática. É tudo fumaça e espelhos. Kerry ter admitido que os EUA já controlam "cerca de 85% da fronteira turca, e o presidente está autorizando mais ações para securitizar o resto" prova acima de qualquer dúvida que Washington já está acionando o Plano B. Esse é o negócio em poucas palavras.

Putin provavelmente já descobriu que Viena é uma fraude, o que explicaria por que seu principal homem, ministro do Exterior russo Sergei Lavrov, recusou-se a fazer quaisquer concessões em qualquer um dos pontos que estão sendo discutidos. (em Viena). Quanto a Lavrov, ou todas as demandas da Rússia serão atendidas, ou nada de acordo. O Estado e suas instituições permanecerão intactos, os grupos terroristas serão exterminados, Assad vai ser uma parte do "governo de transição", e o povo sírio vai decidir por si próprio o seu próprio futuro. É o mapa do caminho básico de Genebra, e Lavrov permanece firmemente colado a ele. Washington aceitará, porque não terá escolha, a não ser aceitar.

Quanto ao cessar-fogo: Lavrov também bombardeou a ideia. Disse precisamente que "Se se declarar algum cessar-fogo, nenhuma organização terrorista será coberta". Em outras palavras, a coalizão comandada pelos russos continuará bombardeando os palhaços até que o último deles esteja morto.

Esta afirmação não apareceu em qualquer meio de comunicação ocidental, provavelmente porque esclarece quem realmente está definindo a agenda. A Rússia está definindo a agenda. Ela também sugere que não há espaço de manobra na abordagem de Moscou, e não há. Os terroristas, moderados ou radicais, vão ser caçados e exterminados. Fim de história.

Aqui está outra coisa Lavrov disse:

"A Rússia continua firme em sua posição de que o combate ao terrorismo deve ser conduzido de acordo com a base sólida do direito internacional, se nós estamos falando sobre as intervenções militares de operações aéreas ou terrestres, estas precisam ser conduzidos de acordo com o governo ou com o Conselho de Segurança da ONU."

Em outras palavras, se um país, como os EUA, decidir realizar operações militares na Síria ilegalmente, (o que é), então eles fazem por sua própria conta e risco. A Rússia vai continuar a implementar agressivamente o seu plano de batalha mesmo se Forças Especiais dos EUA se colocarem em perigo ou não.

Além disso, a ofensiva liderada pela Rússia vai restabelecer fronteiras soberanas da Síria. Se Obama quer reservar uma parte do território sírio, para presentear como valhacouto aos seus assassinos de aluguel, melhor preparar-se para lutar por eles.

Putin tem demonstrado uma notável capacidade de antecipar os movimentos de Washington e tomar medidas preventivas para minimizar o seu impacto. Mesmo assim, haverá uma disputa dura, se Obama conseguir criar um santuário na fronteira turca para garantir abrigo aos jihadistas, por onde eles possam entrar e sair da Síria à vontade, mantendo o país em estado permanente de guerra. Nesse caso, Putin iria enfrentar o seu pior pesadelo, a perspectiva de ficar na Síria para sempre.

Será que Putin tem uma carta na manga para combater esta ameaça? Ele está disposto, por exemplo, a mandar para lá as suas próprias tropas de elite das Forças Especiais da 7ª Divisão Aérea (de Montanha) de Guardas de Assalto, que já têm sido vistas perto de Latakia, para impedir a presença de terroristas e de combatentes rebeldes na fronteira, o que poria rápido fim ao plano pervertido de Washington para dividir a Síria em enclaves não estatais e criar um paraíso seguro permanente para terroristas e extremistas islamistas?

Putin vê o terrorismo como uma ameaça direta à segurança nacional da Rússia. Ele vai fazer o que for preciso para derrotar o inimigo e vencer a guerra. Se isso significa que ele tem que colocar botas russas no chão para fazer o trabalho, então isso é o que ele vai fazer.

Nenhum comentário:

Postar um comentário